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Uma coalizão contra a desinformação e violência de gênero e raça nas eleições

Oito organizações se unem para enfrentar a desinformação e ataques a pautas como aborto, direitos LGBTQIA+ e violência política no período eleitoral

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Colagem em tons de roxo reúne fotografias sobrepostas de equipamentos de áudio, como aparelhos de som, caixas e gravadores, além de imagens de flores, árvores e partes do corpo humano. A composição fragmentada mistura elementos tecnológicos, naturais e humanos, criando uma estética de arquivo e memória.

Há alguns anos e cada vez mais, toda eleição é a mesma coisa: candidatos usam os direitos de meninas, mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+ como palanque. Não por meio de propostas construtivas ou focadas em avançar na garantia de direitos, mas pela disseminação de mentiras, desinformação e ameaças às poucas conquistas que alcançamos. Do kit gay aos ataques ao aborto legal, durante o período eleitoral, aquilo que é importante para nós, como o direito de existir e a justiça reprodutiva, torna-se alvo de candidatos que buscam disseminar o pânico para conquistar votos. 

Não estamos falando apenas de mentiras isoladas que aparecem durante alguns meses de campanha. Existe uma infraestrutura permanente de produção e circulação de narrativas antigênero e racistas que ganha intensidade justamente em momentos de maior disputa política. Elas impactam a opinião pública, reforçam estereótipos e apresentam populações já vulnerabilizadas como ameaças a serem eliminadas. 

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Feminismo bem informado

Entre fevereiro e maio de 2022, durante a pré-campanha presidencial, a publicação de vídeos com discurso antigênero no YouTube cresceu 111%, em relação ao mesmo período do pleito anterior, segundo o Radar Antigênero, da Gênero e Número e da Novelo Data. Entre os mais de 5 mil vídeos analisados entre 2018 e 2025, 46% recorriam a ataques pessoais e 41% a humor e ridicularização.

Essas narrativas transformam debates sobre direitos em ameaças. Mulheres feministas são retratadas como inimigas dos homens; jovens negros como vilões da segurança; pessoas LGBTQIA+ como ameaças às crianças e às famílias; e pessoas trans, jornalistas, artistas, influenciadores e defensoras de direitos tornam-se alvos de campanhas de ataque. Com repetição e alcance, esses discursos reforçam estereótipos, alimentam o pânico moral e criam ambientes cada vez mais hostis para quem ocupa ou disputa espaços de poder.

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E seus efeitos não terminam quando a eleição acaba. Essas narrativas permanecem no debate público, influenciam projetos de lei e políticas públicas e sustentam novos ataques a direitos. Por isso, enfrentar a desinformação não pode significar apenas desmentir uma informação falsa depois que ela já circulou: é preciso compreender como essas narrativas são construídas, antecipar sua circulação e disputar o debate público antes que elas se consolidem.

O aborto é um exemplo de como essa estratégia se organiza e ganha escala. Desde 2018, quase R$ 5 milhões foram gastos em anúncios sobre aborto nas plataformas da Meta durante campanhas eleitorais, de acordo com relatório do Netlab da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “O aborto é estrategicamente mobilizado em campanhas eleitorais para engajar eleitores e reforçar identidades políticas”, explica o relatório. São anúncios que reforçam o aborto como uma ameaça à família. 

Mas o aborto está longe de ser o único alvo. Direitos das populações LGBTQIA+, educação sexual, linguagem neutra, políticas de igualdade racial, cotas e mecanismos para ampliar a participação política de mulheres e pessoas negras também são transformados em objetos de desinformação e pânico moral. Com alarde e mentiras, candidaturas constroem capital político durante as eleições e, uma vez eleitas, podem transformar esses discursos em projetos de lei, políticas e ações concretas contra direitos. Ao mesmo tempo em que essas pautas são atacadas, as próprias pessoas que as representam ou defendem tornam-se alvos. Mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+ que se candidatam ainda se tornam alvo de violência política, que frequentemente é mediada e amplificada pela tecnologia e redes sociais. Nas eleições de 2024, apenas 15% das candidaturas que chegaram ao segundo turno foram de mulheres, mas elas foram alvo de quase 70% das ofensas feitas na internet, de acordo com dados do MonitorA.

Desinformação e violência política não são fenômenos separados. Fazem parte de um ambiente que aumenta o custo da participação política para grupos ainda sub-representados, intimida candidaturas e lideranças e busca reduzir sua presença e sua voz nos espaços de poder.

Esses problemas envolvem diferentes atores: políticos, plataformas digitais, usuários comuns da internet, IA e também comunicadores e jornalistas. E o enfrentamento a eles também passa por várias frentes.

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Nós, que atuamos com comunicação, gênero e raça, direitos humanos e democracia, conhecemos essa dinâmica de perto. A cada eleição, monitoramos ataques, investigamos redes de desinformação, produzimos dados, checamos informações, apoiamos pessoas atingidas e tentamos qualificar o debate público. Muitas vezes, porém, fazemos isso quando uma mentira já viralizou, uma narrativa já ganhou força ou uma campanha de ataques já produziu consequências. 

Em 2026, decidimos fazer diferente e enfrentar o problema na raiz. Vamos identificar essas narrativas antes que elas se consolidem, compreender como circulam e responder de maneira coordenada enquanto a disputa pública está acontecendo. Por isso, Aláfia Lab, ARTIGO 19, AzMina, Gênero e Número, Lamparina, Nem Presa Nem Morta, Quid e Transmídia se uniram em uma estratégia coletiva de ação. Oito organizações que, de diferente formas, têm olhado para desinformação, gênero e violência política, unidas para evitar que as narrativas que atacam nossos direitos cresçam e se consolidem. 

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Durante o período eleitoral, vamos monitorar como temas ligados a gênero e raça estão sendo mobilizados, identificar narrativas emergentes e padrões de ataque e produzir informação qualificada para responder a eles. Também vamos capacitar jornalistas e comunicadores para cobrir esses assuntos com responsabilidade, produzir conteúdos e estratégias de comunicação capazes de disputar o debate público e utilizar as evidências produzidas para incidir junto às plataformas digitais e às instituições responsáveis pela integridade das eleições. 

Mais do que reagir a cada nova mentira, vamos antecipar movimentos e fortalecer outras formas de falar sobre direitos, participação política e democracia. Porque, quando passamos toda a eleição apenas respondendo aos ataques, são aqueles que espalham desinformação que acabam escolhendo os assuntos, as perguntas e os termos do debate.

É uma missão difícil: eles têm milhões de reais para pagar anúncios, nós temos a força da vontade política e uma articulação potente. Por isso, contamos também com vocês que nos acompanham para somar e ajudar a fazer frente a isso. Você pode somar divulgando nossas ações, fazendo circular informação qualificada e ajudando a ampliar as mensagens que defendem direitos e participação democrática. 

Em 2026, não queremos passar mais uma eleição apenas desmentindo a próxima mentira. Queremos agir antes que ela se transforme na narrativa que organiza o debate. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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