
Estamos há menos de uma semana das eleições gerais brasileiras, momento importante em que vamos renovar a Câmara de Deputados, as Assembleias Legislativas e dois terços do Senado, além de elegermos Presidente e Governadores. É ponto pacífico que há pelo menos duas décadas não se pode cobrir eleições sem o debate da presença religiosas nas articulações político-econômicas, no Brasil.
Para além de religiosos que se candidatam a cargos eletivos, na grande maioria das vezes pastores evangélicos, as alianças formadas entre diferentes grupos econômicos e conservadores dão o tom do que se espera da política: Estado Mínimo para a população, com corte em políticas públicas como Bolsa Família, Minha Casa Minha vida, entre outros, e Estado Máximo para os super ricos, financiando a compra de Jatinhos, empreendimentos a juros mais baixos e com perdão de dívidas.
Nas eleições presidenciais de 2018, um grupo conservador evangélico publicou um manifesto intitulado: Manifesto à Nação – O Brasil para os Brasileiros. O documento têm cerne neo-liberal, e defende o livre-mercado, privatizações e redução extrema das funções sociais do Estado. Esse manifesto foi muito bem recebido pelos segmentos ricos da população, mas não teve o mesmo efeito entre as camadas populares. Embora o documento cite 60 vezes a palavra família, ele carrega uma contradição enorme: defende a família na esfera moral, mas ataca políticas públicas que protegem as famílias concretamente, sobre tudo as mulheres, que são na grande maioria das vezes responsáveis pela manutenção doméstica e beneficiárias de programas sociais que as auxiliam no cuidado de seus filhos.
A articulação de lideranças evangélicas de extrema-direita com iniciativas privatistas e anti programas de distribuição de renda, faz com que essa postura anti Bolsa Família, Pé de Moleque e outros programas sociais seja o calcanhar de Aquiles deste grupo. Esse mesmo conteúdo do Manifesto à Nação, foi recentemente reforçado pelo pastor Silas Malafaia, em maio deste ano. No púlpito da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, ele disse que nenhuma nação na história do mundo prosperou tendo mais beneficiários do governo do que pessoas que produzem riquezas (sic).
Declarações contra políticas públicas, a favor de armas e com conteúdos misóginos fizeram com que apenas 29% das mulheres evangélicas votassem em Bolsonaro, em 2022. Entre os homens esse percentual foi de 66%. E as manifestações de grupos conservadores sobre esses temas têm inúmeras roupagens.
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Embora as pautas econômica e armamentista sejam as que mais afetam o eleitorado feminino, uma vez que esse eleitorado compreende a necessidade de programas sociais de distribuição de renda e que mais armas circulando na sociedade é o aumento de risco para seus filhos, as pautas sobre o controle do corpo também tem afastado esse público da extrema- direita.
É importante compreendermos que mulheres evangélicas são conservadoras nas pautas morais, majoritariamente, e o que as atrai para programas progressistas são as melhorias concretas em suas vidas com políticas públicas. Contudo, a postura misógina de um segmento evangélico acenderam uma red flag neste público e temos que prestar atenção nisso.
O QUE AFASTA O ELEITORADO FEMININO EVANGÉLICO
Um exemplo de como as mulheres não aceitam deliberadamente um discurso de controle sobre os corpos femininos, é o sucesso da Campanha Criança não é Mãe, encabeçado pela iniciativa Nem presa, Nem morta, e que contou a articulação de dezenas de coletivos feministas. Mulheres conservadoras concordam com essa máxima contra a maternidade infantil, e são favoráveis ao aborto de meninas violadas, mesmo que muitos políticos cristãos de destaque sejam nítidamente contra a interrupção de gestações fruto de estupro de crianças.
Recentemente, circulou nas redes um vídeo da candidata ao Governo do Estado de Pernambuco, Raquel Lyra (PSDB/PE), no qual ela orientava a uma profissional da saúde a realizar a laqueadura em uma mulher sem seu consentimento. João Campos (PSB/PE), seu principal opositor no pleito, que de bobo não tem nada, vem explorando essa fala inescrupulosa, pois sabe que ganha pontos com mulheres conservadoras e progressistas quando tem esse tipo de postura.
Culpar as mulheres pela miséria, pela falta de estrutura que suas famílias amargam – por falta de cuidado do Estado para com essas crianças -, é uma das piores estratégias da direita. Essa contradição é que afasta mulheres deste grupo: ora dizem que crianças devem parir, ora dizem que corpos pobres devem ser esterilizados. E como já escrevi na coluna passada, as mulheres evangélicas têm total consciência da importância do Estado no bem-estar de suas famílias.
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Outro ponto importantíssimo para refletirmos: o grupo no qual o segmento evangélico mais avança é jovem, negro e do Norte do país, segundo a pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, do Instituto de Estudos da Religião, em parceria com a Quaest. Sabemos que Lula tem maior aderência entre os grupos de pessoas pretas e pardas, e se essa é a autodeclaração da maioria das pessoas que têm aderido à esta religião evangélica, porque, então, a campanha petista, e a esquerda de modo geral, têm dificuldades de dialogar com esse grupo?
Gênero e raça criam a sinuca de bico da extrema-direita. Contudo o fato da extrema-direita perder votos nesta intersecção não significa que a esquerda ganhe automaticamente esses votos. Para mim, temos tentado dialogar com os evangélicos a partir do que o homem branco, evangélico e velho pensa da sociedade.
A RELIGIÃO SOZINHA NÃO DEFINE VOTO
Temos que entender que esse segmento de mulheres evangélicas também é atingido pela desconfiança na política institucional. Que, ao olhar para sua vida material, pode não engolir as baboseiras da extrema-direita, pois não fazem sentido para suas vidas. Contudo, a falta de propostas que dialoguem com a vida concreta dessas pessoas, faz com que muitas delas deixem de ir às urnas.
Nas eleições de 2022, 21% da população brasileira deixou de ir às urnas, e nesta fatia da população com certeza há pessoas evangélicas, sobretudo mulheres. Quando pergunto quem tem medo da mulher evangélica, a pergunta é para ambos espectros políticos: os da extrema-direita, que não sabem lidar com as mulheres evangélicas, porque são misóginos. E os da esquerda, porque não fazem análise com perspectiva de gênero e raça, achando que todas as pessoas evangélicas devem ser abordadas da mesma maneira.
Como sou de esquerda, digo e repito há vários anos: se queremos alcançar as mulheres evangélicas, temos que dialogar com todas as mulheres que necessitam de políticas de cuidado, proteção contra violências de gênero, proteção trabalhista, vagas de creche, aumento real do salário mínimo, subsídio na cesta básica, passe livre, fim da escala 6×1, dentre outras políticas públicas. Não devemos disputar o coração e mentes dessas mulheres apenas pelo discurso religioso, mas por condições melhores para a vida que elas levam. É preciso entender, que quando se trata de mulheres evangélicas, a religião é um entre vários outros fatores que influenciam a decisão eleitoral desse segmento.
Por fim, para ambos espectros políticos, falta perspectiva de gênero e raça. Não é cantando música gospel, nem oficializando dia da Marcha para Jesus, Dia do Pastor ou aprovando datas oficiais do Estado em favor dos evangélicos, que vamos abrir diálogo com mulheres evangélicas. É nos conectando com as necessidades reais da população pobre, negra e feminina, tendo um verdadeiro compromisso com o povo, e um afastamento real do protecionismo econômico aos super-ricos, que podemos começar a conquistar esse grupo, que mete medo em tanta gente.
