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Como Damares Alves tem dominado a pauta de gênero no Senado

Um em cada 6 projetos aprovados na Comissão de Direitos Humanos presidida pela senadora restringe direitos de pessoas que gestam e da população LGBTQIAPN+

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  • À frente da CDH, a senadora controla a pauta, escolhe relatores e influencia o ritmo de propostas que tratam de aborto, infância, gênero e direitos LGBTQIAPN+;
  • Entre as medidas que avançaram estão barreiras ao aborto legal e propostas contra o reconhecimento da identidade de gênero e o uso do nome social em escolas;
  • O levantamento da AzMina mostra que a condução da comissão tem priorizado agendas conservadoras, enquanto iniciativas de proteção e acolhimento aparecem em menor número.

Quando o assunto é aborto, identidade de gênero e proteção da infância, quem tem decidido o que avança ou não no Senado Federal é Damares Alves (Republicanos-DF), que ocupa a presidência da Comissão de Direitos Humanos (CDH) desde fevereiro de 2025. E sua atuação não tem sido positiva para esses grupos: desde o início da gestão, 1 em cada 6 projetos aprovados relacionados aos direitos da população LGBTQIAPN+, crianças, adolescentes e pessoas que gestam restringem direitos.  

A presidência de uma comissão do Senado costuma passar despercebida para quem acompanha apenas as votações em plenário. Mas é a pessoa que ocupa essa cadeira quem define boa parte do que será discutido, votado e priorizado pelos parlamentares. Ela é um membro da comissão como qualquer outro, com direito a voto; mas em caso de empate, pode decidir o resultado.

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No Senado existem 16 comissões permanentes, com eleições para a presidência a cada dois anos. As comissões têm a função de discutir os projetos, e o presidente desses grupos é responsável por coordenar e dirigir esses trabalhos. E a maioria das propostas legislativas precisa passar por uma comissão antes de ir para o plenário — podendo ser barrada ou ficar parada ali por anos. 

A presidente não tem poder para aprovar sozinha um projeto de lei ou outros formatos de proposta, mas ela exerce influência sobre o ritmo em que ele avança ou não na casa. Ao definir quais matérias entram em pauta, indicar relatores e conduzir as reuniões, quem ocupa o cargo pode acelerar determinadas agendas legislativas e deixar outras em segundo plano. E a CDH, liderada por Damares, é por onde passam os PLs ligados aos direitos das mulheres, pautas raciais e LGBTQIAPN+, questões de gênero e infância.

Infográfico  intitulado “Como funciona uma comissão legislativa”, em tons de azul, branco e rosa, dividido em três partes.

1. O que é? Explica que uma comissão legislativa é um grupo de parlamentares da Câmara dos Deputados ou do Senado especializado em temas específicos, como Educação, Saúde e Finanças. Ao lado, há a ilustração de uma gaveta de arquivo sendo aberta por uma mão.

2. Quais são os tipos? Apresenta duas categorias:

Permanentes: existem durante toda a legislatura, como a Comissão de Constituição e Justiça.
Temporárias: criadas para um objetivo específico, como uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) ou uma comissão especial para analisar uma PEC.
As explicações são acompanhadas por ilustrações de uma pasta de arquivos e de um bloco de documentos preso por um clipe.

3. Como funciona? Mostra, em sequência, as etapas da tramitação de um projeto:

O projeto é apresentado na Câmara ou no Senado.
É distribuído para a(s) comissão(ões) competente(s).
Cada comissão designa um relator e produz um parecer.
A comissão debate, pode propor emendas e vota.
Se aprovado, o projeto segue para outra comissão ou para o plenário.

Na parte inferior, uma observação informa: “Em alguns casos, a comissão tem poder terminativo, ou seja, decide sozinha, sem votação no plenário.” A fonte indicada é a TV Senado. O infográfico também traz fotografias estilizadas do plenário do Congresso, documentos e um carimbo, reforçando o tema do processo legislativo.

Temas recorrentes na pauta da CDH

Ao longo da gestão, Damares tem afirmado que a proteção dos direitos das mulheres é uma das prioridades da comissão. O levantamento realizado pela AzMina, no entanto, mostra certa frequência na aprovação de projetos que propõem restrições ao atendimento de vítimas de violência sexual, ao aborto legal e aos direitos da população LGBTQIAPN+. Para mapear essas propostas, a reportagem utilizou a QuitérIA, a inteligência artificial d’AzMina que monitora a atividade legislativa.

Desde que Damares assumiu a presidência, a seleção das matérias levadas à votação revela uma concentração em três temas recorrentes: restrições ao aborto legal, medidas voltadas à população LGBTQIAPN+ e propostas de endurecimento penal. Embora também existam iniciativas voltadas à fiscalização de políticas públicas para mulheres e ações de acolhimento, elas aparecem em menor número entre os projetos que ganharam destaque na condução da comissão.

Leia Mais: A batalha perdida da legislação sobre violência de gênero

Entre os projetos de maior repercussão está o PDL (Projeto de Decreto Legislativo) 3/2025, que suspende a Resolução 258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). A resolução suspensa prevê atendimento humanizado em procedimentos de aborto legal para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Vale lembrar que a suspensão da resolução não muda a lei: o aborto em casos de estupro continua sendo legal, mas as orientações para atendimento ficaram menos claras.

O episódio teve repercussão nacional e o projeto ficou conhecido como ‘PDL da Pedofilia’ nas redes sociais, porque tenta dificultar o acesso ao aborto legal para menores vítimas de estupro. O caso chamou atenção pelo tempo da votação simbólica: menos de 2 minutos, em uma sessão esvaziada no Senado, dia 2 de junho.

A agenda de restrição aos direitos reprodutivos levou a CDH a convidar o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, para prestar esclarecimentos sobre a nova versão da Caderneta da Gestante. O requerimento feito pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE) questionava a inclusão de seções sobre interrupção da gestação e o uso de termos como “pessoas que gestam”. 

O PL (Projeto de Lei) 2524/2024, do senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), que proíbe o aborto depois de 22 semanas de gestação em casos de estupro e anencefalia, também foi aprovado pela comissão. O projeto afeta muitas vítimas de violência sexual, sobretudo crianças de até 12 anos: 28,3% buscam o atendimento médico somente após as 22 semanas, segundo estudo da Universidade Federal de Pelotas. 

Na legislação atual, o procedimento de aborto legal não tem limite de idade gestacional, sendo permitido em casos de gravidez resultante de estupro, anencefalia fetal ou quando existe risco à vida da gestante.

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A comissão também conduziu a aprovação do PDL 342/2023, do senador Magno Malta, que susta a Resolução 2/2023 do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ (CNLGBTQIA+). Na prática, a proposta paralisa medidas para reconhecimento da identidade de gênero e uso do nome social de pessoas trans em escolas. 

Damares escolheu o mesmo Magno Malta para a relatoria do PL 1125/2024, que obriga a apresentação de boletim de ocorrência e exame de corpo de delito positivo para realização de aborto decorrente de estupro. O projeto cria exigências que dificultam o acesso ao aborto legal. Hoje, a lei não condiciona o procedimento à apresentação de boletim de ocorrência ou de provas periciais. A equipe de saúde pode realizar o aborto legal com base no relato da vítima e na avaliação clínica.

Com frequência, a CDH aprova projetos que revertem normas dos conselhos do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, como o Conanda e o CNLGBTQIA+. Outro caso é o PDL 384/2024, projeto de Damares para suspender a Resolução 252/2024 do Conanda, que proibia armas letais e não letais em unidades socioeducativas de adolescentes.

Em alguns casos, quem ocupa a presidência de uma comissão pode exercer diferentes funções na tramitação de uma mesma proposta. No caso do PDL 384/2024, por exemplo, Damares é autora do projeto, preside a comissão responsável pela análise da matéria e ainda participa da definição da relatoria.

A atuação da comissão mostra que as iniciativas antidireitos não acontecem apenas no conteúdo dos projetos, mas também na definição das pautas do Legislativo. Ao exercer a presidência da CDH, Damares Alves não apenas participa desse debate como ajuda a estabelecer suas prioridades.

Essa reportagem foi realizada com dados do Elas no Congresso e de nossa IA feminista, QuitérIA. Para entender a metodologia e conhecer mais sobre o monitoramento legislativo, acesse o site. E se você acha importante que esse trabalho continue, apoie AzMina.

*Edição: Jane Fernandes e Helena Bertho // Artes: Giulia Santos 

**Texto revisado com uso de IA

Metodologia

Para analisar as proposições em trâmite na CDH, consultamos manualmente todas as edições da newsletter do projeto Elas no Congresso publicadas a partir de fevereiro de 2025. A newsletter é baseada no raspador que acessa diretamente as APIs da Câmara e do Senado. O raspador é atualizado diariamente com todas as tramitações de relevância no Senado e na Câmara a partir de palavras-chaves. No total, foram identificadas 87 propostas sensíveis ao gênero aprovadas na CDH: 35 em 2025 e 52 em 2026. Com base nisso, cruzamos estas propostas com a análise de favorabilidade de cada uma. 67 destas propostas foram avaliadas por organizações parceiras – destas, sete foram consideradas desfavoráveis. 20 destas propostas foram avaliadas apenas pela QuitérIA e 9 foram consideradas desfavoráveis. Por conta da natureza do processo legislativo e pela ausência de filtros específicos sobre o trabalho das Comissões, este conjunto de dados pode conter propostas sensíveis a gênero que não foram contabilizadas.

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