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Mulher negra não retinta, de cabelos pretos, usando blusa preta. Ela sorri e está com a mão no queixo
28 de agosto de 2026

Lésbicas: visíveis, orgulhosas e protagonistas de uma virada feminista

Como o pensamento lésbico transformou o feminismo e ampliou os debates sobre sexualidade, poder e liberdade

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Colagem em tons de vermelho, laranja e rosa reúne fotografias históricas de manifestações e encontros de mulheres. Ao fundo, aparecem faixas com palavras de ordem, entre elas referências à violência, à polícia e ao feminismo. Em primeiro plano, uma faixa traz em destaque: “Lésbicas — visibilidade, valorização e respeito"
Foto: CEDOC LGBTI+/Divulgação

A relação entre as lésbicas e o feminismo é complexa e cheia de ambivalências. Foi árduo o percurso até que pudéssemos reconhecer a pluralidade dos sujeitos do feminismo, que nem sempre incluiu lésbicas, mulheres negras, pobres, indígenas, trans, intersexo, com deficiência… No caso das lésbicas, uma das principais motivações de recusa era o fato de a sexualidade ser considerada assunto privado, além do temor de que a defesa pública dessas pautas reforçasse o estereótipo de que feministas são avessas aos homens. 

Percepções assim geraram conflitos diversos em diferentes países, especialmente a partir da década de 1970. No Brasil, temos o exemplo do Congresso da Mulher Paulista de 1980. Aquela edição foi um espaço de tensão entre as lésbicas e as feministas que viam na participação lesbiana o risco de afugentar mulheres da periferia do encontro. No mesmo período, na França, a ativista e intelectual Monique Wittig rompeu com o periódico feminista Questions Féministes, pela recusa de outras integrantes em discutir o caráter político e construído da heterossexualidade. 

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Mas, talvez, o episódio mais famosotenha sido aquele de 1969, protagonizado por Betty Friedan, então dirigente da National Organization for Women (NOW), nos Estados Unidos. À época, a autora do livro A mística feminina afirmou publicamente que as lésbicas seriam uma ameaça para o feminismo, uma “ameaça lavanda” – cor associada aos movimentos de liberação sexual daquele período.

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Como as lésbicas transformaram o pensamento feminista

Essas tensões e rupturas, embora tenham fraturado grupos e comunidades, também foram importantes para incentivar ativistas e pesquisadoras lésbicas a desenvolver seus pontos de vista, o que resultou na produção de um arcabouço político relevante tanto para aquele momento quanto para o presente. A tentativa de escantear as lésbicas teve efeito contrário. Em vez de se calar, elas tornaram cada vez mais públicas as suas posições, favorecendo, simultaneamente, a politização de suas pares e uma mudança no próprio feminismo.

A articulação política da raiva foi defendida por diferentes ativistas. Possivelmente, a mais conhecida é Audre Lorde, famosa por antecipar perspectivas interseccionais.Meu medo da raiva não me ensinou nada. O seu medo dessa raiva também não vai ensinar nada a você”, escreveu ela em Os usos da raiva, em 1981. É importante ponderar que a insistência em discutir as diferenças não visava à aniquilação política de outras mulheres. Antes, tratava-se de uma aposta radical em ampliar a conscientização entre feministas. É o que fica explícito nesses trechos de La Güera, publicado por Cherríe Moraga também em 1981:

É essencial que nós, feministas, enfrentemos nosso medo e a resistência que sentimos umas em relação às outras, porque, sem isso, não haverá pão sobre a mesa. Simplesmente, não sobreviveremos. […] O verdadeiro poder, como você e eu sabemos muito bem, é coletivo. Eu não posso suportar ter medo de você, nem você de mim. Se, para isso, for preciso um choque de cabeças, que assim seja. Essa timidez refinada está nos matando.

É importante destacar que a ausência de politização da sexualidade impactou negativamente todas as pessoas, não apenas as lésbicas e outros dissidentes de gênero e sexualidade. Foi o que apontaram de forma pioneira Adrienne Rich e a já mencionada Monique Wittig. Embora o pensamento de cada uma dessas autoras tenha características próprias, ambas convergem no diagnóstico de que a heterossexualidade não é natural.

É pela presunção de que todos somos heterossexuais que se controla o corpo feminino, com restrições que vão do aborto à expressão estética, e que se projetam sobre as mulheres expectativas de casamento, maternidade e assim por diante. Isso quer dizer que: você, sendo hétero ou não, desejando homens ou não, é oprimida pela heterossexualidade. E isso tem implicações muito mais graves do que a simples prescrição de com quem você deve se relacionar.

Nesse sentido, cabe recuperar o clássico ensaio Heterossexualidade Compulsória e Existência Lésbica, de Adrienne Rich. Nele, a autora destaca que ocultar as experiências lésbicas era uma forma de manter sob controle a sexualidade de todas as mulheres. Com isso, ela estava dizendo que o patriarcado ficaria ameaçado caso as mulheres descobrissem que podem ter uma vida que não dependa da chancela política e econômica de um homem. Mais ainda: se elas soubessem que a sua sexualidade poderia ser exercida de forma que não implicasse reprodução ou dependesse de vínculos exclusivos, tendo como fim tão somente a afirmação do prazer delas.

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Colonialidade, racismo e heterossexualidade

É importante acrescentar que a abrangência tão universalizante da heterossexualidade não foi alcançada de forma natural. Foi a partir da colonização que a heterossexualidade passou a ser imposta como base da organização social. Um fato, que nunca é demais recordar, se deu a partir do extermínio dos modos de vida de povos indígenas e africanos – que tinham práticas sexuais diversas – e do escrutínio e da penalização de praticantes do “pecado nefando” – termo usado pela Inquisição Católica para condenar práticas homoeróticas.

Quem expôs e dedicou praticamente toda sua trajetória acadêmica a investigar a relação entre heterossexualidade, racismo e colonialidade foi María Lugones, outra pensadora lésbica, considerada precursora do feminismo decolonial. Para ela, não era aceitável que intelectuais que se diziam comprometidos com a luta contra o colonialismo negligenciassem o papel central e nefasto da heterossexualidade nesse processo. Para que o projeto europeu de exploração fosse bem-sucedido, era preciso subjugar os corpos femininos, especialmente negros e indígenas, garantindo que eles reproduzissem a mão de obra escrava desse sistema.

Ou seja, Lugones estava dizendo que é a partir de uma violência heterossexual que o colonialismo triunfa, se mantém e segue produzindo efeitos no presente. 

Todo esse arcabouço teórico e político serviu tanto à auto-organização dos movimentos de lésbicas e suas produções acadêmicas, como também a outras tradições de pensamento que incluem desde os estudos decoloniais até a teoria queer. Um fato que reafirma a força e a riqueza das articulações feitas por ativistas e pesquisadoras lésbicas.

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No presente, quando os corpos lésbicos e de outros dissidentes de gênero e sexualidade têm sido alvo de ataques renovados, é mais que necessário lembrar as pioneiras lésbicas e seguir desenvolvendo nossas práticas a partir do legado delas. A negligência pública em relação aos lesbocídios, a violência fatal contra mulheres – mesmo as heterossexuais – dão mostras de que ainda precisamos discutir a dimensão política da heterossexualidade, que, aliada à monogamia tem nos matado cotidianamente.

Mas há também que se celebrar os esforços de figuras públicas e anônimas na produção de saberes, de espaços de sociabilidade e prazer. Reproduzir o discurso de que nossas vidas não importam, que estamos destinadas a morrer, como muitas vezes bradamos diante de um lesbocídio, é colaborar com o projeto cisheteronormativo, ainda que essa não tenha sido nossa intenção original. 

Precisamos encontrar uma forma de nos enlutar pelas que se vão, sem deixar de investir em nossa autoproteção. O regime cisheteronormativo já tende a menosprezar nossas vidas. Quem ganha quando nós mesmas reproduzimos esse discurso? E como essa repetição mina nossa própria pulsão de vida?

Não há disposição para luta que se sustente diante de corpos permanentemente tristes. E digo mais: diante da violência histórica a que fomos submetidas, talvez, construir e visibilizar uma vida abundante em prazer seja a nossa principal forma de reparação. É o que tenho aprendido com companheiras de vida e trabalho, mas também com as nossas mais velhas – a exemplo de Angela Davis, que lembra a todas nós: “qualquer pessoa interessada em provocar uma mudança no mundo precisa aprender a cuidar de si mesma.”

*Arte: Lory Costa 

**Texto revisado com uso de IA

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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