
Em 2023, uma reportagem do Fantástico revelou a atuação de um grupo formado por jovens e adultos que utilizava o Discord para abordar adolescentes, especialmente meninas, para submetê-las a violência sexual, produzir registros e compartilhar esse material entre os integrantes.
Ao acompanhar a reportagem, uma coisa me chamou atenção: os termos utilizados para nomear os envolvidos e explicar o caso — “pedofilia”, “pornografia infantil”, “jovens sádicos”, “grupo criminoso” e “violência contra meninas”. Essas palavras não são equivalentes. Cada uma delas ilumina uma dimensão do problema, mas também pode esconder outras. Minha dúvida, naquele momento, era compreender como aquela rede se organizava: como adultos e adolescentes interagiam, como os integrantes acessavam suas vítimas e, sobretudo, como conseguiam construir sua confiança.
A antropóloga Laura Lowenkron ajuda a formular essas perguntas. Em sua tese de doutorado, publicada posteriormente como O monstro contemporâneo: a construção social da pedofilia em múltiplos planos, ela analisou a CPI da Pedofilia, que aconteceu entre 2008 e 2010 no Senado Federal, e as investigações da Polícia Federal sobre redes de pornografia infantil na internet.
Lowenkron queria compreender como a “pedofilia” se constituiu simultaneamente como causa política, caso de polícia e figura de monstruosidade. Seu trabalho, no entanto, continua fundamental para pensar o presente. A autora mostra que a Polícia Federal investigava práticas concretas: produção, divulgação, troca, aquisição, posse e armazenamento de imagens envolvendo crianças e adolescentes. No Senado, essas investigações foram transformadas como causa política, onde a palavra “pedofilia” passou a funcionar como uma categoria abrangente para nomear condutas diferentes.
A “Pornografia infantil” nomeava práticas e circuitos de circulação, enquanto a “Pedofilia” passou a nomear um sujeito perigoso, associado a desejos desviantes e a uma ameaça social. É importante distinguir essas categorias: a pedofilia é uma categoria clinica, e não um tipo penal previsto na legislação brasileira.
O que constitui crime são as condutas concretas – como produzir, fotografar, filmar, vender, oferecer, divulgar, publicar, transmitir, adquirir, possuir ou armazenar imagens de sexo explícito ou pornográficas envolvendo crianças e adolescentes -, tipificadas principalmente pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.
Outras práticas relacionadas, como o estupro de vulnerável, a exploração sexual, a ameça, a extorsão e a divulgação não consensual de imagens, também podem configurar crimes previstos no Código Penal. A mudança fez a atenção se deslocar do que havia sido feito para o que o comportamento supostamente revelaria sobre a personalidade e os desejos dos acusados.
O QUE REVELAM AS REDES DIGITAIS?
É assim que se produz o “monstro contemporâneo”: alguém que parece concentrar em si toda a explicação da violência. A figura do pedófilo é apresentada como a de um indivíduo anormal, isolado e facilmente reconhecível. Mas as redes digitais revelam outra coisa.
Elas mostram grupos, hierarquias, convites, reputações, servidores fechados, trocas, ameaças, divisão de tarefas e circulação de material entre diferentes plataformas. Não se trata de minimizar a gravidade dos crimes. Trata-se de entender que a linguagem do horror, sozinha, não explica como eles acontecem.
Essa questão reapareceu nas reportagens brasileiras sobre o Discord. Em agosto de 2026, a SaferNet informou ter recebido e processado, em seu canal de denúncias, 2.059 URLs do Discord entre janeiro de 2017 e julho de 2026. A organização também afirmou que alerta desde 2023 para a atuação de redes criminosas na plataforma e para falhas de moderação e segurança. O dado desloca a discussão do indivíduo monstruoso para aquilo que pesquisadores da antropologia digital chamam de rede sociotécnica: pessoas, servidores, convites, mensagens privadas, ferramentas de transmissão, mecanismos de moderação e circulação entre plataformas.
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O Discord não é a causa automática desses crimes, mas sua arquitetura pode ser apropriada para organizar comunidades, recrutar participantes, transferir conversas para espaços privados e distribuir material.
CASOS RECENTES E O USO DA PALAVRA “PEDOFILIA”
O caso de uma adolescente de 13 anos, em Goiás, ajuda a observar essa dinâmica. Em setembro, a Polícia Civil resgatou a menina depois de ter sido aliciada por um homem de 19 anos no Discord. Segundo a reportagem, ele teria planejado sua fuga, instruído-a a esconder o celular e orientado-a a evitar câmeras de segurança. A adolescente foi encontrada trancada em uma casa abandonada.
Nesse caso, a categoria que melhor descreve a conduta é aliciamento. Não porque a palavra “pedofilia” jamais possa aparecer em uma discussão sobre violência sexual contra crianças, mas porque ela não explica o que foi feito: a aproximação, a construção de confiança, o planejamento da fuga e a tentativa de retirar a adolescente de suas redes de proteção.
Outro caso recente descreve um homem de 20 anos que mantinha um relacionamento virtual com uma adolescente de 17. Depois de solicitar e obter imagens íntimas, ele teria ameaçado divulgá-las, exigindo que ela se automutilasse e invadido suas contas nas redes sociais. Aqui, a violência também não começa no vazamento da imagem. Ela se desenvolve em etapas: relação digital, solicitação de imagens, ameaça de divulgação, controle das interações e coerção para produzir novos atos.
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A palavra mais precisa para esse caso é sextorsão. Ela permite observar o mecanismo de controle: a imagem íntima, obtida em uma relação de confiança, transforma-se em instrumento de ameaça. Essa dimensão da confiança é central. Muitas vezes, a imagem não é obtida por meio de uma ameaça inicial. Ela é extraída através de uma relação que, para a vítima, parece íntima, recíproca e segura. O agressor pode simular a mesma idade, compartilhar interesses, oferecer atenção constante, fazer elogios e apresentar o envio da imagem como uma prova de amor ou confiança.
Isso não significa responsabilizar a adolescente pelo envio. Significa compreender como o consentimento pode ser produzido em uma relação assimétrica e manipulada por quem controla a circulação da imagem. O crime pode começar na fabricação da intimidade, antes da ameaça e antes do vazamento.
UMA CAUSA POLÍTICA E DE POLÍCIA
É aqui que o trabalho de Lowenkron ilumina os casos recentes. Ao analisar a construção da “pedofilia” como causa política e caso de polícia, ela mostrou que a emoção pública pode deslocar a atenção da vítima para o agressor monstruoso. A criança abusada produz compaixão; o “pedófilo” produz ódio. A indignação, então, se organiza em torno da caça ao monstro.
Nas reportagens atuais, expressões como “jovens sádicos”, “crimes bárbaros” e “rede de pedofilia” cumprem função semelhante. Elas produzem horror e mobilizam a opinião pública, mas podem dificultar a identificação da cadeia concreta de práticas que sustenta a violência.
Quatro problemas aparecem quando chamamos tudo de “pedofilia”. O primeiro é a individualização do crime. A rede onde ele acontece desaparece e dá lugar ao indivíduo desviante. O segundo é a mistura de posições distintas. Um adulto que alicia, um adolescente que compartilha imagens de colegas, um integrante que ameaça a vítima e um usuário que compra ou distribui material podem ocupar lugares diferentes na cadeia da exploração. O terceiro é o apagamento do processo. O foco recai sobre a imagem final, e não sobre a criação de confiança, o isolamento, a manipulação, a coerção e a ameaça. O quarto é a dificuldade de prevenção. Se o problema é o “monstro”, a solução parece ser apenas encontrá-lo e puni-lo.
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Mas as reportagens indicam que também é preciso observar servidores fechados, sistemas de convite, mudanças para mensagens privadas, perfis que simulam idade, pedidos insistentes de imagens, ameaças de exposição e circulação entre Discord, jogos, Telegram, TikTok e Instagram.
NÃO É UMA DISPUTA SEMÂNTICA
O trabalho de Lowenkron também ajuda a pensar o consentimento. A idade não é apenas um número abstrato: ela se cruza com gênero, classe, autoridade e posição social. Reconhecer adolescentes como sujeitos capazes de estabelecer relações não significa ignorar as assimetrias que podem tornar essas relações coercitivas.
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A questão não é retirar toda capacidade de ação das adolescentes, mas reconhecer que essa autonomia pode ser explorada por adultos ou grupos que controlam informações, imagens e ameaças. Nomear corretamente o que acontece não é uma disputa semântica. É uma condição para investigar e prevenir. “Pedofilia” pode descrever determinados desejos ou condutas, mas não explica, sozinha, redes de aliciamento, sextorsão e circulação de imagens.
O problema não é apenas perguntar quem é o “pedófilo”. É compreender quem constrói a confiança, quem obtém a imagem, quem ameaça, quem compartilha, quem compra, quem assiste e quais plataformas tornam essa cadeia possível. O monstro pode produzir indignação. Mas apenas a análise da rede permite construir prevenção.
