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A minha lista para 2020 tem esperança e revolução

por Rebecca Souza
15 de janeiro de 2020
2020 é um ano de eleição e cada dia perdemos um direito. Está na hora de fazermos micro e grandes revoltas como a Cabanagem

Comecei a escrever esta coluna e pensei em como fugir daquele óbvio de ano novo: listas, objetivos e tudo que permeia essa contagem de tempo – e que às vezes nos traz uma ansiedade danada.

Primeiro porque uma das maiores manifestações de tempo que conhecemos é Cronos, deus da mitologia grega, aquela figura não tão agradável dele devorando os próprios filhos, o que de certa forma é um lembrete não muito reconfortante de que Cronos, querendo ou não, nos devora a cada dia.

Então lembrei que janeiro é um mês especial aqui no Pará. Comemoramos os 185 anos da Cabanagem, uma das poucas revoltas populares que levou o povo ao poder, e que cumpriu com seu intento.

Inclusive, sua figura representativa não é um general ou uma figura com roupas pomposas, e sim um legítimo caboclo nortista, com um chapéu de palha e uma bermuda de algodão. No Norte, dizer que você tem “Sangue Cabano” é dizer que resiste ao sistema que nos esmaga dia a dia, lutando por algo que acredita. 

Gravura do século XIX sobre a Cabanagem, de autoria desconhecida (Crédito: Wikimedia Commons)

Lembrei também que em 2020, segundo os cálculos da família, fazem 90 anos da construção do Templo de nossa tradição familiar, e quase 100 anos da emigração de nossos antepassados da Romênia. Essa recordação me veio após assistir uma reportagem sobre a escolha da substituta do Terreiro de Mãe Stella. A frase que ficou foi a da nova sacerdotisa dizendo que essa escolha é uma grande responsabilidade.

Vivo essa grande responsabilidade deste os 14 anos, e por mais que hoje em dia seja fascinante para algumas pessoas a bruxaria e tudo que cerca ela, viver na bruxaria em uma tradição familiar e ser a responsável pela continuidade dessa tradição é um peso. 

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Um dia ouvi do meu sacerdote iniciador que eu era o pilar e o alicerce da vida de muitos outros. E tem sido isso. Tem dia que minha única vontade é sentar e chorar, confesso. Tem dias que não quero nem acender uma vela no altar. E aí chega alguém pra um benzimento, uma conversa, um alívio. 

Há alguns anos conheci um rapaz que morava na mesma região da Romênia que meus antepassados, e ele me mandou algumas canções folclóricas de lá. Tem uma que diz (em tradução livre): “você pode sentar e ficar lamentando a árvore que caiu, mas tem toda uma floresta que ainda pode lhe dar sombra e fruto”.

Você que me lê pode estar pensando: que diabos de coluna de começo de ano que começou falando de tempo e passou por Cabanagem, família… Bom, o que quero dizer é que em 2020 Cronos pode devorar muitas das suas vontades, mas que é possível reconstruir todas elas: transforme algumas e prove ao tempo que tudo pode se reerguer. 

Politicamente falando, 2020 é um ano de eleição e cada dia perdemos um direito. Está na hora de fazermos micro e grandes Cabanagens. “Todo poder ao povo” não é unicamente uma frase, e sim o que deve permear nossas escolhas políticas. 

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No decorrer desse ano virão responsabilidades, e tudo bem se elas forem pesadas, nem sempre temos que ser alicerces. Sentemos na árvore caída e lembremos do resto da floresta e da nossa capacidade de plantar novas árvores. 

Muitas vezes alimentamos uma energia de que está tudo parado, estagnado, mas a gente venceu mais um ano! Vencemos nossos medos, incertezas, vencemos aquela situação na qual dissemos “agora eu não vou conseguir mais”.

Não falemos tão apenas de sobreviver, falemos de viver. Vamos ter momentos bons, ruins, descobertas, decepções. Eu tenho muito disso, todos temos. Mas tenha certeza de que quando chegar em 31 de dezembro de 2020 você vai poder olhar pra esse ano e dizer: saudações a mim, pois eu venci.

PS: Agradeço a todo amor, feedbacks, avaliações e críticas que recebo por causa da coluna. Estou sempre aberta a eles e que tenhamos mais um ano de trocas.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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