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Pelo direito de ser mãe

por Rebecca Souza
29 de maio de 2019
Sou a favor que debatamos a maternidade compulsória. Contudo, quem disse que tenho direito, em uma sociedade cada vez mais xenofóbica, de ser mãe?
mãe
Negras e minorias étnicas ainda lutam pelo direito de ser mãe. Foto: Pixabay

“Eu me senti um marginal. Quando tentei falar que minha esposa teria parto normal simplesmente o policial puxou uma algema”.

“Elas vão fazer mais filhos, é só isso que esse povo sabe fazer”.

Se existe um assunto que separa o feminismo de mulheres brancas e o de mulheres negras e/ou de minorias étnicas esse sem sombra de dúvida é a maternidade. Lógico que sou a favor da descriminalização do aborto, e sou a favor de que debatamos a maternidade compulsória e a romanização que se faz desse papel. Contudo, quem disse que tenho direito, em uma sociedade cada vez mais xenofóbica, de ser mãe?

As duas falas que abrem a minha coluna são de contextos em que pessoas de minorias étnicas ouviram da sociedade que seus filhos não eram bem-vindos. A primeira citação é de Emerson Guimarães, cigano que em 2014, junto com sua esposa Adelir Goes, se tornou símbolo do abuso do Estado sobre o direito de parir das mulheres. Adelir foi tirada a força de casa para ser submetida a uma cesária, mesmo que ela quisesse esperar o momento certo para dar à luz. Com escolta policial foi sedada, induzida ao parto e seu esposo impedido de acompanhar o nascimento e efetuar os ritos próprios de seu clã para a celebração de uma nova vida.

Leia mais: Cigana e negra, esses são meus lugares de fala

A segunda citação é sobre o caso de Irma Lopez, mulher indígena mexicana que deu à luz no pátio do hospital, depois que os médicos desistiram de lhe ajudar por ela não falar espanhol. Quando questionado sobre se o recém-nascido, a resposta do médico foi a citada acima.

Coloquei esses casos e poderia falar sobre esterilização forçada de mulheres romanis em países da Europa, ou de como na Itália existe o direcionamento para que mulheres imigrantes recebam anticoncepcional de qualquer médico que elas procurem.


Debate-se muito a maternidade como papel social das mulheres, porém não debatemos que local de importância ocupa a maternidade para grupos de mulheres que sequer são consideradas humanas

Talvez nesse exato momento, enquanto escrevo esse artigo, uma mãe de periferia simplesmente perca alguma oportunidade por não tem onde deixar seus filhos. Eu vejo muitas cobranças relacionadas ao direito à laqueadura e à métodos anticoncepcionais de maneira mais livre. Acreditem, esses métodos somente são difíceis para mulheres com condições de terem “filhos saudáveis “, pois grupos de mães de crianças portadoras de necessidades especiais vêm a anos denunciando como são direcionadas a não terem mais filhos.

Leia mais: Como as indígenas vivenciam parto e amamentação

O debate sobre o direito à concepção é eugenista, é xenofóbico, ele não quer que tenhamos direito a parir, a manter nossos rituais milenares de nascimento. Se mulheres brancas são consideradas “úteros reprodutores”, nós somos consideradas “úteros amaldiçoados e que devem ser banidos”.


Quando debatemos direitos sexuais e reprodutivos não podemos ser colonialistas e reproduzir a ótica de que queremos aborto seguro porque o Estado nos obriga a ser mãe

Devemos debater o aborto seguro e também garantir que mulheres que desejam ser mães tenham uma gravidez segura, acolhedora e que possam, de acordo com a sua cultura, viver sua gestação e seu parto. Existe um pensamento entre os Romanis da Romênia que diz que quando nasce um bebê cigano renasce todo o povo junto com ele. Ajude nosso povo e outros a continuarem renascendo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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