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Não, ministra, o problema no Marajó não é a falta de calcinhas

por Rebecca Souza
14 de agosto de 2019
Eu não sou uma menina do Marajó, mas meus olhos negros iguais aos delas viram vocês transformando nossos corpos em pautas nas quais não temos voz
Marajó
A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, em evento em celebração aos 29 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Peço licença para quem me acompanha, pois essa coluna tem destinatários. Peço desculpas por descrever tristezas, por descrever desesperanças. Escrevo sobre um rio de mágoas, um rio igual à Baía do Marajó, que liga Belém do Pará à nossa Ilha Reino, como foi descrita a Ilha do Marajó em documentos cartográficos enviados ao Rei de Portugal.

Nessa coluna quero falar com vocês, ministra Damares Alves e governador Helder Barbalho. Quero que vejam o Marajó e suas meninas pelos meus olhos. Olhos mais jovens que o de vocês, porém cansados de olhar nos olhos mortos das meninas do Marajó.

Todo mundo ouviu a sua declaração, ministra! E aqui não quero ser injusta.

Escutei a parte aonde a senhora diz que “especialista disseram” que as meninas no Marajó são violentadas pelo fato de andarem sem calcinhas. Mas pergunto, quem são esses especialistas?

Sabe, o primeiro caso que acompanhei de violação sexual em Breves (no alto Marajó) foi de um menino de 8 anos. Não quero colocar aqui o que escutei, mas posso lhe dizer que passei três dias sem comer após ouvir o relato.

No dia em que a senhora chegou para ir ao Marajó, quando a imprensa e o governador propagavam que o Mistério de Direitos Humanos criaria um gabinete aqui no Pará, eu subia em uma viagem de meia hora para conversar com 30 meninas que atendo em um projeto. Projeto esse, ministra e governador, que está sendo fechado por falta de recursos.

No meu vocabulário, nesses anos, entraram palavras como “meninas balseiras” (meninas que são levadas pelos familiares até navegações para sofrerem exploração sexual) e “correria” (que é como meninos adolescentes chamam o fato de ficarem com homens mais velhos em troca de dinheiro).

Na minha mente foram se firmando histórias como a de Olga*, 15 anos, que dormia com um fazendeiro e desconfiava que ele também pudesse ser o pai dela, porque ele “beneficiou” (desvirginou) sua mãe.

Conheci Evandro*, 17, um bonito rapaz de traços marajoaras que gostava quando chegava “gringo”, pois o sonho dele era um tênis, mas não qualquer tênis, um “desses de que a gente vê os playboy usando”.

Relembro de Madalena*, 14, que era “casada” com o próprio tio, e cuja mãe achava melhor isso “do que ela embuchar de qualquer peão”. E principalmente, escuto Joana*, 5 anos, contando que “não sabia o que o tio fazia, mas o tio dava doce”.

Eu sei que para vocês o que conta são os “especialistas”. Gente cheia dos dados, gráficos, artigos, que vocês podem levar muito sério, mostrar nos jornais e na internet e dizer com expressões indignadas “que do jeito que está no Marajó, não pode continuar”.

Mas eu não sou especialista, sou ativista.

Essa palavra que atualmente vem escrita em vermelho e com carimbo de uma estrela partidária. É engraçado, pois nunca fui de partido nenhum, e sob a estrela, em 2012, eu estava justamente denunciando que a obra de Belo Monte em Altamira elevou o número de casos de exploração sexual infantil em absurdos 140%.

E aí convertemos isso em dois questionamentos, minha ministra, meu governador. Os seus especialistas vão conversar sobre direitos sexuais e reprodutivos? Eles entendem que o casamento infantil no Brasil também tem a ver com a negação da sexualidade de adolescentes em comunidades pequenas? Já dialogaram com familiares que acham que os corpos desses adolescentes não são autônomos, mas sim uma posse da família?

Essa é a parte que vai fazer vocês gritarem “sabia que ela era dessas feministas feias e machudas!”: seus especialistas acreditam na cultura do estupro?

Lembra quando falei do projeto lá em cima, que encerrou? Ele não é no Marajó, ele fica em Cotijuba, a meia hora de viagem de barco de Belém, e lá, minhas autoridades, também existe exploração sexual. Assim como em Altamira.

Assim como em Marabá, no sul do Pará, um amigo meu foi abordado e questionado se queria uma companhia, porque “conseguiam uma menina virgem de 13 aninhos por R$ 500”. E também existe no nordeste, no sul, no sudeste e até mesmo em Brasília, perto do escritório de vocês. Posso lhes contar histórias da Ceilândia.

A essa hora, sei que vocês estão bradando “mas e o governo anterior?”. E como lhes disse, falo do alto do meu ativismo, esse que escolhi pois eu também sou uma menina do norte, também sou uma das “marcadas”, pois nasci mulher em uma comunidade tradicional.

Igual a senhora ministra, fui ameaçada de morte. Igual ao senhor, acredito que meu Estado não tem que ser o “celeiro do mundo” (outra expressão que aprendi no Marajó que remete a toda essa desgraça).

Eu não sou uma menina do Marajó, mas meus olhos negros iguais aos delas viram vocês falando de nós, decidindo por nós, transformando nossos corpos em pautas nas quais não temos voz.

Igual às nossas antepassadas mulheres negras, indígenas e romanis, que viram pessoas como vocês tratando nosso corpo igual ao território que eles conquistaram. Sabe os vasos marajoaras? Aposto que a senhora levou um e certeza que o governador deve ter um exemplar desses em casa.

Nós somos esses vasos! Moldados no barro cinzento desses rios que nos circundam. E queremos ter o direito de sermos as próprias artesãs a desenhar neles.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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