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Não somos todos Bacurau

por Rebecca Souza
11 de dezembro de 2019
Problematizamos tudo e não nos damos conta que nos afastamos dos Lungas da vida. Então Bacurau voa pra longe e encontra abrigo nas árvores dos fanatismos religiosos e políticos
bacurau
Cena do filme Bacurau (Foto: Divulgação)

A primeira vez que ouvi o nome Bacurau foi na voz cansada do meu tio avô, em um rancho pobre de Romanis na Paraíba. Era a primeira vez que os visitava e o canto do Bacurau me assustou. Pássaro cantando de noite é mau agouro, igual à coruja Rasga Mortalha (coruja branca amazônica que faz um som semelhante a um pano sendo rasgado), que anuncia morte ao cantar. 

Anos depois, comecei a ver pessoas entusiasmadas falando sobre um filme que remetia ao pássaro da noite. Eu não assisti Bacurau, mas ouvi falar muito dele. E a cada resenha, a cada post em redes sociais, a cada crítica entusiasmada, eu me perguntava: onde é Bacurau?

Vejo pessoas urbanas que nunca “comeram um couro”, como dizemos no popular, dizendo: “Bacurau é aqui, somos todos Bacurau!”

O problema é que Bacurau não é aí.

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Era em Altamira, enquanto chegava o maquinário para a construção de Belo Monte. Era em cada comunidade que foi removida para a Copa do Mundo de 2014. É na ilha onde moro, em que um menino de 10 anos morreu com a cabeça esmagada pelo iate de um rico. É em vários lugares onde o discurso acadêmico revolucionário não chega.

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Eu entendo que você sonhe com o Gulag Canavieiro, com enforcar o último padre na tripa do último político. O problema é que seu João não pode fazer revolução se dorme pensando no amanhã. “Se Deus quiser eu consigo uma vaga naquela construção”. 

Nós vivemos cobrando consciência de classe, de raça e de gênero. Mas em que horas colocamos o pé na lama, no barro, para entender que a revolução em muitos lugares está bem atrás da sobrevivência? 

Vivemos falando que estamos no “Conto de Aia” sem entender que muitas aceitariam ser aia, pois pode ser uma condição “mais fácil” de vida – e aqui lembre-se das inúmeras problemáticas dos casamentos precoces e da naturalização da violência doméstica. 

Ficamos horrorizados com o discurso cristão fanático, mas quando vamos fazer trabalho de base? Esquecemos que o mundo não se limita ao app do Facebook e acreditamos que “ora essa, todo mundo tem acesso à informação hoje em dia”.

Leia mais: Cigana e negra, ambos são meus lugares de fala

Outro dia, vivi uma situação engraçada (ou não): uma moça veio palestrar sobre direitos sexuais e reprodutivos e, em dado momento, ela falou sobre o coletor menstrual e disse que é um mito que seja caro, porque ela comprou “por 10 reais no Wish”.

As meninas não sabiam nem o que era Wish e, mesmo que soubessem, aqui para pegar qualquer pacote do Correio você tem que enfrentar uma viagem de 40 minutos de barco, pagando uma passagem que é uma pequena fortuna para a realidade das mulheres daqui. 

A gente vai criando modos de sobrevivência, como no filme.

E nesses modos, eu, uma satanista convicta (coloquemos esse termo mais vulgar para minha crença) me agrego ao padre e o pastor para conseguirmos que o posto de saúde não deixe faltar remédio para hipertensão e diabetes, que são os males que assolam nossos fiéis. 

Todo dia vejo romantização desse pobreza, que não tem nada de romântica. Tem é de sofrida, desesperançosa.

Bacurau atrai justamente por ser um sonho materializado do povo da cidade.

Mas, quando você foi a Bacurau? Sem acesso ao conforto, ao “debate”.

Pois temos esse tesão pelo debate. Problematizamos tudo. E não nos damos conta que nos afastamos dos Lungas da vida – que talvez na vida real, achássemos até meio repelentes.

Enquanto isso, é capaz do pássaro da noite cantar e espantarmos para ouvir melhor o discurso da revolução. Então Bacurau voa pra longe e encontra abrigo nas árvores dos fanatismos religiosos e políticos. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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