
O feminicídio costuma ser narrado como um ponto final. Um crime, um corpo, uma sentença, uma estatística. Mas para quem fica, ele é um incômodo ponto de partida: o relógio zera e o tempo passa a correr “depois do que aconteceu”.
Em maio de 2023, quando entramos na casa de Márcia Vitoriano, em Londrina, o esperado era encontrar uma mulher de 43 anos sobrevivente das ruas, mãe e avó, pronta para falar sobre os desafios da maternidade solo. Mas a conversa não seguiu o roteiro.
No meio de uma frase, o tempo de Márcia regrediu três décadas: “Quando minha mãe morreu, a gente era tudo criança”, disse. “Meu pai matou ela em 1991, no dia 4 de dezembro, às 8h45 da noite. Vi minha mãe dando o último suspiro”, acrescentou com precisão.
O relato nos levou à compreensão de que o feminicídio não era apenas um fato na história de Márcia, mas o molde de sua trajetória. Na época, o termo “feminicídio” ainda não existia no vocabulário jurídico brasileiro e o crime foi tratado como uma banalidade doméstica. O pai, que matou a esposa na frente dos seis filhos, recebeu uma pena branda de quatro anos em regime aberto e, num requinte de crueldade institucional, garantiu a guarda de Márcia, então com 12 anos.
A violência não parou na cena do crime. Ela se prolongou. Sem conseguir conviver com o assassino da mãe, Márcia foi enviada para tios, onde surras substituíram o acolhimento. A escola ficou para trás. O abandono do Estado a empurrou para subempregos, para a rua e para o uso abusivo de substâncias psicoativas. O assassinato da mãe provocou um efeito cascata que desorganizou o mundo de Márcia.
Crianças e adolescentes órfãs e desamparadas
A história de Márcia, embora única em sua dor, remete a outras milhares. Dados da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Sinesp), divulgados pelo Ministério da Justiça, registram 1.470 feminicídios consumados em 2025. Um recorde que ainda não inclui todos os casos registrados, já que quatro estados ainda não forneceram os números do mês de dezembro.
Os dados do Monitor de Feminicídios do Brasil (MFB), mantido pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), mostram a extensão da tragédia para vítimas secundárias. No primeiro semestre de 2025, 680 crianças e adolescentes ficaram órfãs e 404 assistiram ao assassinato de suas mães. O MFB identificou que 60% dos feminicídios desse período aconteceram dentro de casa.
Como no caso do menino do município de Pedro do Rosário, no Maranhão, cujo relato em vídeo viralizou no final de 2025. “Se ela tivesse viva, eu não tava desse jeito aí… Todo sujo”, sintetizou o filho de Cirani Lopes Ferreira, assassinada pelo companheiro em fevereiro. É o resumo do desamparo, da ausência da mãe, da necessidade forçada de redirecionar a trajetória sem ter forças para conduzir a própria vida.
No feminicídio, a orfandade não é uma fatalidade, é produção de uma violência íntima. Presenciar o assassinato pode significar ouvir gritos, ver a mãe ferida, tentar intervir, chamar socorro, ser arrastado para fora, ser ameaçado, ficar paralisado. O feminicídio, assim, produz uma pedagogia do trauma: ensina, pela violência, que o mundo pode ruir dentro de casa.
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Diante da perda, projetos de vida são ressignificados
Embora a expressão “projeto de vida” pareça adulta demais, toda criança tem um projeto, mesmo sem nomear. Ela alimenta uma imagem do futuro, um sentimento de continuidade, a expectativa de que haverá amanhã com alguma previsibilidade. O feminicídio interrompe essa sensação básica de continuidade.
Algumas crianças reagem com revolta e indignação. Muitas com retraimento. Outras passam a desconfiar de vínculos, como se o afeto fosse sempre acompanhado de ameaça. Há crianças que se tornam “adultas” em casa: ajudam a criar irmãos, assumem tarefas, regulam emoções de cuidadoras. E aquelas que passam a sentir a mãe como presença protetora ou como ausência insuportável e esse imaginário molda a identidade.
Tem um aspecto simbólico nisso tudo, muitas vezes ignorado: a morte violenta da mãe não é apenas a perda de uma pessoa amada, mas de uma referência de reconhecimento. A criança perde alguém que a nomeava, que a via, que sustentava narrativas de pertença. Reconstruir esse reconhecimento é parte do luto. E isso exige tempo, cuidado, estabilidade.
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Quando a mãe é assassinada, outras mulheres assumem o cuidado
Quando a mãe de Márcia foi assassinada, sua referência passou a ser a irmã mais velha. Porque quando uma mulher é morta, o cuidado não desaparece, ele só muda de mãos. E quase sempre vai para outras mãos femininas: avós, tias, irmãs, vizinhas, madrinhas. Essas redes reconstroem rotinas, acolhem crianças, sustentam deslocamentos, administram o luto e as necessidades práticas.
Mas essa reorganização tem custo: sobrecarga, empobrecimento, adoecimento emocional, conflitos familiares. O feminicídio não produz apenas vítimas individuais, produz um dano em rede. Ele desloca trabalho de cuidado, tempo e recursos para mulheres e famílias já atravessadas por desigualdades. A tragédia fica no ambiente privado, e o cotidiano vira campo de reparação improvisada.
O Brasil precisa aprender a olhar o feminicídio como um acontecimento que cria sobrevivências difíceis e infâncias reconfiguradas. Enquanto a narrativa pública tratar o crime como ponto final, seguirá invisibilizando a vida que começa depois.
A sobrevivência como outra forma de ruptura
A violência feminicida também existe quando não mata. Tentativas de feminicídio frequentemente são tratadas como “quase”, como se o essencial estivesse no desfecho. Mas pode gerar sequelas que alteram a vida de modo radical. Sobreviver seria viver com dor crônica, com marcas físicas, com limitações permanentes. Pode significar perder autonomia e depender de cuidados, seja por deficiência adquirida, seja por sofrimento psíquico intenso que paralisa o cotidiano.
Para uma sobrevivente, o tempo passa a ser dividido entre tratamento, medo, deslocamentos, estratégias de segurança e procedimentos legais — quando há o julgamento criminal. Para seus filhos, o mundo também muda: a mãe que era referência de cuidado, agora talvez precise ser cuidada; o lar pode se tornar provisório; o dia a dia, instável. A rotina fica suspensa entre o que aconteceu e o que pode acontecer de novo.
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Restituição de direitos como resposta ao dano
Diante dos danos, é fundamental pensar na restituição de direitos, o que vai além de indenização ou benefício. Para filhas e filhos, restituir direitos é garantir condições para que a ruptura biográfica não se converta em destino: que a escola não vire mais uma perda; que o luto não seja solitário; que a vida doméstica volte a ser um lugar possível; que a memória da mãe não seja atravessada por estigma e silêncio.
Há um modo de falar do feminicídio que a encerra na ideia de punição. Punir importa, mas é igualmente necessário entender que esse crime provoca danos sociais duradouros, com efeitos biográficos. Então, filhas e filhos não são “consequência”, são parte central do problema.
Iniciativas como a pensão recém-implementada para órfãos focam na tentativa de dar suporte à rede de apoio que fica e evitar o aprofundamento do empobrecimento. Porém, está longe de ser suficiente.
Há uma legião de meninas e meninos que crescerá com uma pergunta silenciosa: o que foi feito, de verdade, para que a vida pudesse continuar com dignidade? A resposta não está apenas nas sentenças judiciais. Está no modo como a sociedade reconhece o dano, cuida do que foi quebrado e impede que a violência defina o horizonte dessas biografias.
*Publicação em parceria com o Néias – Observatório de Feminicídios de Londrina
** Revisão de texto com uso de IA
