
Provedoras da vida, guardiãs da memória, das culturas e das ciências. Sem as mulheres indígenas, os inúmeros povos originários existentes no mundo estariam fadados a desaparecer completamente. Diferentemente da lógica da sociedade não-indígena, várias comunidades indígenas enxergam mulheres e crianças como base essencial da vida coletiva.
A sociedade Kariri do baixo Rio São Francisco, por exemplo, antes da chegada da Igreja Católica e da catequização, era uma comunidade matrilinear. Mas mesmo após séculos de contato e inúmeras tentativas de etnocídio, as mulheres Kariri seguem firmes no resgate e manutenção de sua língua e cultura.
Idiane Crudzá, indígena do Povo Kariri-Xocó, do município de Porto Real do Colégio (Alagoas), é uma dessas guardiãs que tanto admiro e nutro profundo respeito. Ela honra esse título. Há mais de dez anos, Idiane se dedica ao estudo e ensino do dzubukuá e kipeá, línguas declaradas como mortas ou extintas pela historiografia “oficial”, mas resistentes e vivas na memória e oralidade de seus filhos.
Idiane iniciou sua trajetória como professora em um pequeno espaço na aldeia Kariri-Xocó onde outrora foi seu salão de cabeleireira, uma de suas outras profissões. Ela também é artesã, liderança espiritual e contadora de histórias. A Swbatekerá Dzidé Ayby Arãkié Yndiane Nayly (Escola Amiga do Céu Yndiane Nayly) nasceu em 2019, em homenagem a sua filha, Nayly, encantada (falecida) precocemente aos 15 anos.
De lá pra cá, o espaço foi ampliado, e, recentemente, essa maridzá (guerreira) inaugurou o novo Espaço Swbatekerá, onde segue dando aulas para crianças e adolescentes de seu território, mas também promovendo eventos culturais e oficinas. Além disso, a dubo-heri (professora) Idiane ocupa os meios digitais onde promove o ensino à distância do idioma para outros parentes de povos Kariri.
Leia Mais: O que pardo tem a ver com indígena?
Reconhecimento de línguas indígenas
Como toda boa semeadura gera bons frutos, o trabalho de formiguinha de Idiane se expandiu não só pelo Nordeste, mas no Brasil todo. O município de Crateús, no Ceará, reconheceu a língua dzubukuá como co-oficial na cidade no fim de agosto deste ano (2025).
O dzubukuá foi a segunda língua indígena, a primeira foi o Nheengatu em Monsenhor Tabosa (CE), reconhecida pelo estado, resultado dos esforços de inúmeras guardiãs dos saberes em não aceitar a classificação de língua morta ou extinta.
Destaco, também, Amotara Tupinambá (em memória), liderança do povo Tupinambá de Olivença (Bahia). Amotara teve papel fundamental no processo de retorno do Assojaba Tupinambá (Manto Tupinambá), ainda no início dos anos 2000.
Durante a “Mostra Redescobrimento do Brasil +500″, exposição temporária que ocorreu no Parque do Ibirapuera em maio daquele ano, Amotara, firme como um tronco velho, declarou: “somos Tupinambás, queremos o manto de volta”. Ela foi a primeira indígena a confeccionar um Manto Tupinambá contemporâneo. O Manto Tupinambá é sagrado e considerado por eles como parte de sua espiritualidade, possui vida e deve estar junto de seu povo de origem. Confeccionado com penas de guará em uma trama de fibras naturais, era utilizado em ocasiões especiais.
Naquele tempo, o povo Tupinambá era considerado extinto desde o século 17. Os indígenas de Ilhéus, extremo sul da Bahia, eram tratados como caboclos ou pardos pelos não-indígenas. Nivalda Amaral de Jesus – Amotara, para seu povo – não só iniciou uma luta pela volta pra casa de seu ancião mais antigo, como também pelo direito de seu próprio povo ser reconhecido enquanto indígena, deixando o etnocídio imposto pelos brancos.
Mesmo com o reconhecimento oficial posterior pelos órgãos oficiais, o povo Tupinambá de Olivença segue em luta pela demarcação e homologação de seu território ancestral. Amotara Tupinambá se encantou em 2018 aos 86 anos, sua luta segue por meio das filhas, como a cacica Jamopoty Tupinambá e outras lideranças da região.
Leia Mais: Mulheres indígenas e a violência invisível que o Brasil insiste em ignorar
Ciência baseada em memória e conexão com a Terra
Taily Terena é liderança do Instituto Memória e Ciência Indígena e integrante do coletivo Inamatí Xâne Terenoe, que atua no resgate de memória, cultura e técnicas tradicionais de cultivo do povo Terena. Ela ressalta que a ciência indígena é baseada em memória, observação da vida e conexão com a mãe Terra.
“Muitas vezes tentam diminuir nossa sabedoria por ser diferente da ocidental. Mas a nossa ciência é viva, conecta espiritualidade, terra e vida. E ela pode evitar a catástrofe climática que estamos vivendo”, declarou Taily em entrevista ao Um Só Planeta.
Essas são algumas, de milhares de mulheres indígenas, no Brasil e no mundo, que sustentam o céu, com firmeza e coragem, quando necessário, mas também com cuidado e doçura, como um verdadeiro amor de mãe. Elas ensinam às novas gerações o valor da oralidade e do comprometimento com a vida coletiva, com as tradições, com o orgulho de ser quem é.
Ainda na intersecção do saber das mulheres indígenas e a conexão com a mãe Terra, o dia 5 de setembro é marcado pelo Dia da Amazônia e o Dia Internacional da Mulher Indígena. A data foi escolhida durante o II Encontro de Organizações e Movimentos da América em Tiwanaku, na Bolívia em 1983, em memória e honra à Bartolina Sisa.
Bartolina foi uma mulher indígena Aymara tombada durante a rebelião anticolonial de Túpac Katari, na região do Alto Peru, atual Bolívia, em 5 de setembro de 1782. Bartolina era temida pelos invasores espanhóis, definia estratégias de combate, liderou exércitos e foi responsável por um dos maiores levantes anticoloniais de Abya Yala. Seu nome é lembrado e reverenciado por toda a região andina.
São seculares as lutas das mulheres indígenas pela preservação de seus territórios — que vivem sob constante ameaça tanto por agentes externos quanto pelas mudanças climáticas —, pela preservação de suas culturas, línguas, tradições e modos de vida.
