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20 de fevereiro de 2019

As meninas que renovaram minha crença no ativismo

Rebecca Souza conta das ribeirinhas cujas histórias lembram de sua jornada enquanto menina cigana que saiu da pobreza e hoje discursa na ONU
Oficina de advocacy para meninas ribeirinhas que participei no início deste ano. Crédito: Carol Barros / Instituto Papai

Um conceito que sempre me encantou na religião Islâmica é o Miraj, ou a noite do milagre: a noite em que o profeta Maomé fez sua viagem espiritual e de êxtase, aonde ele passou a compreender sua jornada e seu propósito.

O Miraj existe em muitas religiões e dogmas. Pode ser a epifania cristã, o nirvana budista, o beijo da Deusa na bruxaria.

Mas o que isso tem a ver comigo?

Esse ano completa 17 anos que dedico minha vida ao ativismo em direitos humanos e, principalmente, ao direito das mulheres de identidade étnica.
Não posso dizer que esses anos foram fáceis, que tenho o mesmo ânimo de quando comecei.

Mas quando paro pra pensar que a menina Romani (cigana) que saiu da pobreza, de uma periferia do Norte do país e hoje discursa na Organização das Nações Unidas (ONU), penso o quanto o ativismo mudou a minha vida.

Estamos em tempos políticos complicados, em que o ativismo de direitos humanos tem sido visto como uma prática condenável.

Nunca fui de nenhum partido político. Meu partido sempre foi acreditar que meus direitos (e por extensão, dos outros) era a única rota de sobrevivência.

Já no começo de 2018, por motivos pessoais, prometi a mim mesma que daria uma desacelerada. Com o fim das eleições, comecei a tentar me conformar em procurar outros meios não só de subsistência (já que a luta por direitos humanos também é o que me sustenta economicamente), mas também de continuar acreditando.

O meu Miraj

Esse ano o meu primeiro compromisso profissional foi na Ilha de Cotijuba, no Pará, fazendo uma oficina de advocacy para meninas ribeirinhas (população tradicional que vive a margem dos rios). E então o Miraj aconteceu!

Em cada menina que via, em cada história, em cada pequeno pedaço daquelas vidas muito jovens (a mais jovem tinha 14 e a mais velha, 21) vi a Rebecca de cabelos longos e corpo magrinho dizendo a si mesma que seus sonhos não cabiam no destino que tinham colocado como o seu enquanto mulher Romani.

E cada esperança, cada fala, foi me levando a uma jornada diferente, a uma vida diferente, enquanto eu sabia que talvez dali a alguns anos seja uma daquelas meninas a falar para os outros e construir novas pontes.

Uma delas disse que “quebrar tabus que são construídos para mulheres é quebrar muros”.

Eu quebrei muitos muros, e está na hora de encontrarmos outras para quebrar junto conosco.

Nota: Seria injusto aqui não agradecer a quem me proporcionou esse momento. Meus sinceros agradecimentos ao Unfpa, ao Fundo Canadá, ao Coletivo Mangueiras e ao Instituto Papai.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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