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Vem Cá – Vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais

por Luisa Toller
26 de agosto de 2020

No Brasil, o dia 29 de Agosto é dedicado à visibilidade lésbica desde 1996, mas um dia é pouco para dar conta de tantos assuntos que foram invisíveis por séculos na nossa sociedade.

Um deles é como se relacionar entre mulheres ou homens trans e cuidar da saúde sexual. Me lembro de que, na escola, o máximo que eu tive de educação sexual foi uma professora de biologia ensinando a colocar camisinha masculina em uma banana e dizendo que a camisinha feminina era horrível e não servia para nada (isso porque tive condições de educação bem privilegiadas). 

De lá para cá (uns 15 anos depois) descobri que a sigla DST mudou para IST (i de infecção), que não há formas de proteção para um ato sexual entre vulvas e que o caminho é se informar, prevenir e exigir direitos através da legislação. Isso porque conheci o livro Vem Cá – vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais da jornalista Larissa Darc, escrito a princípio para o seu TCC de graduação, lançado de forma independente e seis meses depois, em Agosto de 2019, relançado pela editora Dita Livros.

A jornalista Larissa Darc

Bati um papo com ela sobre o livro, sexualidade, pornografia e muito mais. Veja abaixo: 

Revista AzMina: Faz um ano e meio que o livro foi publicado, como você tem percebido a recepção dele? 

Larissa Darc: A recepção dele no mercado e no público foi muito melhor do que eu imaginava. Eu tinha medo de publicar esse livro por eu ser mulher, por ser um livro sobre sexo entre vulvas, também tinha medo que os médicos não gostassem porque eu faço uma crítica a eles e acabou sendo o contrário, um dos maiores públicos é de profissionais de saúde. Com frequência eu recebo mensagens e comentários de médicos, psicólogos e enfermeiros agradecendo as informações e discussões que eu levantei. Outro público grande que tenho é de mulheres lésbicas e bissexuais que vêm pela falta de informações que encontram na mídia, alguns homens transsexuais também – no livro eu peço desculpas a eles por ter focado mais em mulheres porque eu tive pouco tempo para escrever então não consegui pesquisar o suficiente para entrar nesse tema.

Livro  Vem Cá – vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais da jornalista Larissa Darc
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AzMina: Você sente que tem conquistado seu objetivo de tornar a sexualidade lésbica mais discutida e menos invisível?

Larissa: Eu consegui atingir muito além do meu objetivo! O livro nasceu como um trabalho de conclusão de curso, eu tinha a idéia de fazer um texto que pudesse contribuir para a sociedade, por isso me inspirei em outros trabalhos para produzir um conhecimento que não ficasse preso na academia. Quando escolhi o tema da sexualidade lésbica descobri que não havia livros sobre isso, então tive um cuidado grande para fazer um trabalho muito profissional. Eu queria informar as pessoas e pautar esse assunto nas mídias. 

A partir disso comecei a ver discussões nas redes sociais, e até o público mais conservador que nos atacou a princípio alegando que queríamos privilégios passou a concordar que o que queremos é um atendimento médico respeitoso. A partir daí passei a ser convidada para falar em rodas de conversa e fui achando multiplicadores desse assunto. 

AzMina: No seu livro você aborda o tema da pornografia problematizando o estereótipo do sexo lésbico para o prazer dos homens. Dentro do feminismo há uma forte discussão sobre pornografia, há quem acredite que é possível produzir e consumir pornô feminista e quem queira “cancelar” a pornografia. Qual sua opinião e posição sobre isso? 

Larissa: Você é a primeira pessoa que me faz essa pergunta! Olha, eu tenho 23 anos, fui adolescente nos anos 2000 e sou de uma geração que cresceu com a internet e foi exposta a pornografia. Querendo ou não, essa exposição criou muitos padrões equivocados sobre o que pode ser a nossa vida sexual. Quando você não tem contato com a vida sexual e tem contato com a pornografia, primeiro cria expectativas que não fazem o menor sentido na vida real. E também tem a questão da indústria que é muito exploratória e violenta. Eu entendo que tem uma vertente que procura produzir pornô feminista e outra que não acredita que isso exista, por isso é complexo. 

O que observei na minha experiência pessoal é que para nós, lgbt, não há formação sexual ao longo da vida, toda a nossa formação é voltada para o campo cis heteronormativo. A gente não tem base na escola, vai atrás da pornografia, vê coisas bizarras como unhas compridas e depois vai descobrir que isso é um grande risco pra passar IST, você vê corpos que não são reais. E no meio lésbico é pior ainda porque na pornografia há a ideia de que o sexo entre mulheres é feito para agradar homens héteros.

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AzMina: No seu livro há informações sobre saúde de extrema importância que não chegam facilmente na sociedade. Você conhece outros canais que passem esse tipo de conteúdo ao público? ONGs, projetos, clínicas? 

Larissa: Apesar de eu me relacionar com mulheres desde os 16 anos eu nunca pensei que eu deveria ir ao médico para me proteger de ISTs. Primeiro porque a gente tem essa barreira de entender que é sexo, a princípio se pensa que se não tem penetração não é, tanto que existe aquela palavra bizarra chamada “preliminares”. 

E também eu não tive acesso a nenhuma informação de proteção porque a realidade é que não existe, gosto de ser bem contundente com isso: não existem métodos de prevenção de ISTs no sexo entre vulvas. Atualmente tem muitas pessoas no youtube ensinando a fazer gambiarras e eu, particularmente, não gosto de difundir esse tipo de informação porque não foi nenhum método pensado para isso e cria uma falsa sensação de que existe. As pessoas acham que estão ajudando, mas não ajudam ninguém porque ninguém usa esses métodos, então a gente continua com um problema e não avança. 

ONGs não estão nem aí pra gente, alguns lugares disputadíssimos que pesquisam sobre saúde lgbt pesquisam na verdade G (gay) e um pouco T (trans).

Há alguns pequenos projetos e iniciativas independentes, mas é um trabalho de formiguinha, apesar desse assunto já ser reclamado pelo movimento lésbico há alguns anos. Por isso eu tenho pensado mais em outros caminhos que são comprovados, que fazem mais sentido.

Na Assembléia Legislativa de São Paulo, por exemplo, há um projeto de lei em tramitação da Isa Penna (PL 500/2020) que, dentre vários materiais, se baseou no livro Vem Cá para lutar por direitos de saúde para mulheres lésbicas, bissexuais e transsexuais.

Uma das primeiras coisas que o projeto de lei pede é formação de profissionais de saúde, além de pedir espéculos em tamanhos menores para que os médicos consigam examinar mulheres que não tiveram penetração. O PL também pede a vacina de HPV no SUS para todas as idades, porque é uma das ISTs mais perigosas e pode causar câncer de colo de útero. 

É isso, acredito mais no caminho da ciência do que nas gambiarras.

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AzMina: Achei muito interessante você concluir o livro (desculpa o spoiler) com uma ideia de exaltar o prazer, o orgasmo e o conhecimento do próprio corpo, citando pesquisas que mostram que lésbicas estão mais satisfeitas sexualmente do que mulheres heterossexuais. Você acha isso poderia ser encarado como uma ameaça ao sistema heteronormativo? 

Larissa: Eu pretendia terminar falando sobre outras violências, mas percebi que não fazia sentido porque se as pessoas se relacionam é porque também tem coisas boas. Além das pesquisas, pude confirmar nas entrevistas com ginecologistas que tem muito mais queixas de mulheres que não tem orgasmos se relacionando com homens do que com mulheres.

Na sociedade e na política, a ala conservadora acha que a gente discutir sexualidade pode ser uma ameaça para a família tradicional brasileira e acabar com as relações heterossexuais, o que não faz sentido nenhum. Na verdade esse debate que a gente faz sobre saúde de lésbicas e bissexuais é importante também para mulheres heterossexuais porque a gente discute a violência nos consultórios médicos e a questão de exames que podem ser feitos de forma mais humanas, informa sobre as ISTs (não são só lésbicas que realizam sexo oral), então seria um avanço para toda a classe de pessoas que tem útero, além de desconstruir a idéia de que dar prazer a uma mulher é algo preliminar e não o sexo em si. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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