logo AzMina
11 de julho de 2018

Não falarei sobre a Copa do Mundo

Não mencionarei que no país-sede do evento violência doméstica não é crime. Não vou citar os assédios a jornalistas que cobriram o evento. Tampouco vou questionar o fato de todo o mundo parar para acompanhar um evento ocupado 100% por homens
Foto: Carlos Bassan

Não vou tentar justificar o porquê de escolher o tema para uma coluna de arte dizendo que o futebol é um esporte com muito espaço para criação e surpresas, conduzindo espectadores a um delírio sublime surgindo daí o termo futebol-arte.

Não vou comparar as seleções brasileiras masculina e feminina na Copa América, quando elas têm, respectivamente, 8 títulos em 45 campeonatos e 7 títulos em 8 edições.

Não mencionarei que na Rússia, país-sede do evento, violência doméstica não é crime e os índices de assédio sexual são altos e iguais aos do Brasil.

Nem pretendo explorar a questão dos torcedores, em sua maioria homens, que justificam atitudes misóginas e machistas pelo uso abusivo de álcool ou chamando-as de “brincadeiras esportivas”. Não vou citar assédios que ocorreram mais de uma vez com jornalistas mulheres de vários países que estavam na Rússia cobrindo o evento. Não planejo exemplificar que homens bêbados e eufóricos tentaram beijar essas repórteres, às vezes conseguiram e até chegaram a pegar no peito de uma delas.

Tampouco vou questionar o quão emblemático é o fato de todo o mundo parar para acompanhar um evento ocupado 100% por homens: juízes, técnicos e atletas que devem ser fortes, estáveis emocionalmente, estratégicos, inteligentes, enquanto parte do jornalismo constrói uma narrativa emotiva com as mães dos jogadores assistindo aos jogos e fazendo declarações bonitas – enquanto sabemos que seis dos onze titulares da seleção brasileira não foram criados por seus pais biológicos.

Não pretendo comentar que a mídia – e a sociedade que a alimenta – está bastante interessada em dizer quem são as esposas mais “gatas” dos jogadores e comparar suas belezas com as “feiúras” de seus companheiros. Ou que muito se especula sobre o valor da pensão do filho do Neymar – enquanto vários atletas que passaram pela seleção são processados e presos por atrasos no pagamento de pensão.

Muito menos vou provocar dizendo que o futebol perdoa tudo: abusos, estupros, assassinatos e sonegação.

Nem vou contar que o canal que transmitiu toda a competição com uma equipe de comentaristas e narradoras mulheres teve menos audiência que todos os demais.

Não falarei de Copa do Mundo porque “sou mulher e não entendo nada de futebol”.

Mas de todo o resto, ah, disso também eu entendo.

Luisa Toller é musicista, educadora, colunista da Revista Azmina e mãe militante. Tem formação pela Unicamp e um mestrado sobre música e gênero concluído em 2018 na Eca-USP. É tricampeã do concurso de marchinhas Nois Trupica Mais Não Cai com composições feministas que viralizaram com webhits. Já desenvolveu atividades pedagógicas sobre desconstrução de estereótipos de gênero na Graded School, participou de mesas e palestras na Caixa Cultural, semana Delas na faculdade arquitetura da Mackenzie SP, comunicação da Puc-SP, jornalismo na UNB, Instituto Ruth Cardoso e na editora SM Educação. Além disso integra os grupos Meia Dúzia de 3 ou 4, Vozeiral e Bolerinho.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Quem está na cola do machismo mesmo?

Desde 2015, AzMina está do lado das mulheres e da luta pelos nossos direitos. E, ao nosso lado, nós tivemos muitas leitoras e leitores, que financiam o nosso trabalho e acreditam que jornalismo feminista deve chegar a todos. Graças aos nossos apoiadores, impactamos a vida de milhares de mulheres e produzimos cada vez mais conteúdos e projetos. Nossas reportagens, vídeos, podcasts, campanhas de conscientização e projetos como o PenhaS e o Elas no Congresso são totalmente gratuitos.

Se você valoriza tudo isso, considere fazer uma doação. Junte-se às mais de 500 pessoas que tornam o nosso trabalho possível. A maior parte dos nossos apoiadores contribui com R$ 20 mensais e cada real é importante.

O jornalismo feminista independente é muito essencial à Democracia sempre. Mas no Brasil de 2021, não podemos descuidar nem um dia. Para isso, AzMina depende de você.

APOIE A CONTINUIDADE DESSE TRABALHO HOJE!