logo AzMina

De falta de recursos a arma biológica: indígenas relatam desafios e medos com coronavírus

por Luisa Toller
13 de abril de 2020
Bia Pankararu e Nyg Kuitá Kaingang falam dos medos e desafios que suas comunidades estão encarando na pandemia

Para nós que vivemos em grandes centros urbanos, esses tempos de políticas de isolamento para prevenção do coronavírus têm gerado reflexões sobre a desigualdade social, comunicabilidade, trabalho em casa, divisão de tarefas domésticas, violências e tantos outros temas. Mas você já parou para pensar como tem sido esse mesmo período para os povos indígenas? 

Nas aldeias e reservas, a pandemia traz desafios que vão desde a falta de recursos e equipamentos até o medo do uso da doença pro agricultores contra a retomada de territórios indígenas. “A nossa memória coletiva guarda essa questão da doença como arma biológica para contaminar propositalmente”, conta Nyg (lê-se “Nã”) Kuitá Kaingang, do povo Kaingang, do Paraná. 

Conversei com ela e Bia Pankararu, que vive em Pernambuco, para saber como o coronavírus tem atingido a vida dessas populações indígenas. Bia é técnica de enfermagem e trabalha com a saúde de três aldeias da reserva Pankararu. Ela e seus colegas estão sem equipamentos de proteção e também sem salário em meio à crise. 

Ambas contaram da falta de políticas públicas indigenistas para lidar com a pandemia. No último dia 9, morreu o jovem Yanomâmi, Alvanei Xirixana, de 15 anos, em Roraima. Outras duas mortes de indígenas foram confirmadas neste fim de semana. 

Leia mais: Todas as notícias sobre mulheres e coronavírus

Nos depoimentos abaixo, Bia e Nyg contam como estão as coisas em suas aldeias. Também listamos uma série de iniciativas de apoio aos indígenas que estão em busca de apoio. 

“Sem pagamento e equipamento, não conseguimos prestar assistência para nossa comunidade”

Bia Pankararu, 26 anos, técnica de enfermagem na reserva Pankararu, em Pernambuco:

“Falar da pandemia aqui na área chega a ser bem difícil de reportar porque a gente tá vivendo da hora que acorda à hora que vai dormir com esse risco. 

Até hoje ainda não recebemos nenhum plano real de fortalecer o sistema de saúde indígena. Eu, como técnica em enfermagem, estou vivendo nessa linha de frente sem o devido suporte, sem equipamentos. Nossa equipe está seguindo as orientações do governo do estado de Pernambuco e fazendo pressão nos municípios, mas está difícil porque há uma falta de comunicação e tudo chega por último. 

Leia mais: Pra gente não funciona: indígenas e a Lei Maria da Penha

Recebemos poucos equipamentos, como máscara, luvas, e até agora [10 de abril] não chegou uma remessa de material destinada especificamente para nós. O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) recebeu verba, mas a informação que chegou até nós é de que não estão achando mercado para comprar os materiais. 

Também estamos sem receber pagamento. Desse jeito nossa equipe não consegue prestar assistência para a nossa comunidade, nem se proteger enquanto profissional, colocando as próprias famílias em risco. Somos por volta de 60 funcionários de saúde para 7 mil pessoas.

Então, estamos na resistência, trabalhando com a conscientização da população para ficar em casa, evitar contato físico e torcer pra ficar longe da curva [de contaminação]. Mas é difícil porque temos costumes, crenças e jeitos de encarar a vida muito diferentes. Falar com os mais velhos é complicado, eles demoram a acreditar, e o jovem é mais teimoso, se acha forte. 

Se der um caso, implode.”

“Nosso primeiro cuidado foi fechar todas as entradas da comunidade” 

Nyg Kuitá Kaingang, 31 anos, da comunidade Kaingang, no Paraná

“Aqui no norte do Paraná a primeira providência com relação aos cuidados foi fechar todas as entradas da comunidade para não ter circulação de pessoas externas e ter controle de quem sai e entra para poder buscar itens básicos no município de Tamarana que, no nosso caso, é o mais próximo.

Por hora, a comunidade com cerca de 2.100 indígenas não está tendo acesso a itens básicos de higiene. Foi criada uma frente na região Sul que está elaborando estratégias para enfrentar a pandemia e em comunicação com as lideranças para distribuir equipamentos, alimentos, pressionar os órgãos municipais e estaduais, e cobrar as instâncias que deveriam atuar em defesa dos direitos indígenas.

Desde que se assumiu o governo de Jair Bolsonaro nós, povos indígenas, estamos tentando assegurar os nossos direitos e lutar contra o desmonte da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI).

Leia mais: Enfermeiras na linha de frente contra o coronavírus

Também estamos fazendo isolamento coletivo, o que acaba sendo muito estranho dentro da nossa vivência. A gente não está se visitando e estamos redobrando os cuidados com os idosos porque são pessoas de risco e as raízes da nossa sabedoria. 

Outra questão é que temos famílias que vivem da venda do artesanato nos grandes centros e não estão podendo se deslocar para fazer esse comércio. Temos discutido nas frentes quais são os grupos mais vulneráveis e em diálogo com as prefeituras mais próximas para assistir a essas famílias. 

Também precisamos olhar com cuidado para a questão do contexto territorial, ou seja, de que forma esse vírus se aproxima e chega perto das comunidades. Enquanto no Amazonas os contatos de conflito se dão com o garimpo, ou exploração de mercúrio e madeira, aqui no Sul temos a questão das retomadas de terras, porque é uma região onde o agronegócio domina.

A nossa memória coletiva guarda essa questão da doença como arma biológica para contaminar propositalmente. No decorrer desses 520 anos os povos indígenas são sempre os mais vulneráveis e atacados nesse sentido. Essa é uma das nossas maiores preocupações”. 

Iniciativas indígenas para apoiar

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME)

Ajude os Povos de Altamira (PA)

Comissão Guarani Yvyrupa

Conselho Indígena de Roraima

Frente Indígena de Prevenção e Combate ao COVID-19 Região Sul

Aldeia Jaraguá (SP)

Fundo de Solidariedade aos Kayapó Mekragnotire (PA), do Instituto KABU

Aldeia Kakané Porã (PR)

Salve Krahô (TO)

Pankararu (SP)

Rede Indígena Artesãs Ocupação Porto Alegre (RS)

Aldeias Indígenas da Região da Bocaina (RJ e SP)

Povo Xakriabá (MG)

Povo Xetá (PR)

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente, já ganhou prêmios e tem mais de quatro anos de impacto na vida de milhares de mulheres. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo sério e responsável que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e livre para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

Apoie o jornalismo em defesa da mulher