logo AzMina

Anelis Assumpção: Meu feminismo está em mutação assim como o feminismo no mundo

por Luisa Toller
16 de novembro de 2018
A cantora e compositora Anelis Assumpção, que fala sobre seu novo disco, feminismo, maternidade e a morte da irmã Serena Assumpção
Anelis
Anelis Assumpção Crédito Caroline Bittencourt

 

Touro.

Animal feroz associado em muitas mitologias e crenças à figura masculina.

Anelis Assumpção.

Cantora e compositora que roda o mundo lançando seu terceiro disco solo cantando o amor, o sexo, o câncer, a morte e a maternidade – entre outras subjetividades.

Taurina.

O disco. Na capa (ilustração de Camile Sproesser), uma mulher com chifres de touro que se apropria da simbologia, do signo zodíaco que tem fome e da imagem que habita os xingamentos e elogios à figura feminina – a vaca: profana e sagrada.

Desde que ouvi Taurina pela primeira vez – meses atrás – mergulhei fundo no caldeirão de sentimentos que Anelis cozinhou e nos serviu com fartura na bandeja. Talvez por eu ser também grande admiradora do trabalho de Itamar e Serena – pai e irmã. Talvez por ter sentido a dor da perda deles e o orgulho de ser contemporânea às criações destas pessoas. Talvez por ter ascendente em touro.

Talvez por eu ser, assim como Anelis, uma cantora e compositora feminista.

Mas pela primeira vez na Vulva a Arte escrevo a partir da escuta. Entrevistei Anelis, saciei minhas curiosidades e divido tudo isso agora com vocês:

 

Você acredita que existe um feminismo declarado no espaço criativo do disco?

Eu sou uma mulher feminista. O feminismo, assim como eu, é algo orgânico que se reelabora, a cada década, a cada era, a cada novas linguagens, a cada novíssimo pensamento.

Meu feminismo está em mutação assim como o feminismo no mundo. Por isso o feminismo está contido na minha obra independente de um desejo consciente.

Assim como outras manifestações que tem a ver com minha vida e personalidade. Algumas coisas foram escolhidas, por exemplo eu escolhi trabalhar com mulheres no disco: fotografia, ilustração, arte gráfica.

 

O que acha do aumento significativo de discussões feministas na arte?

Esse aumento é urgente, fundamental. Faz parte da transformação da sociedade que não começou agora. Conheço feministas de 70 anos que hoje têm mais espaço para falar. Minha filha, uma adolescente de 16 anos, já sente essa urgência, já tem outra fala, outro discurso, outra sensação de pertencimento à sociedade como mulher. Isso não veio de graça. E assim vai ser, de geração em geração.

 

A capa sofreu algum tipo de censura nas redes?

As fotos de divulgação sofreram censura [pelos peitos à mostra]. A capa não. Foi super bem recebida, inclusive premiada como melhor capa de disco pelo Prêmio Multishow.

 

Como surgiu a idéia de usar os audios de whatsapp?

 É uma brincadeira entre o público e privado. Vem das gravações de conversas do rap. Quando eu desloco um áudio, converso com você sem conversar. Quando eu tiro ele do contexto de uma mensagem ele pode virar um poema, uma costura.

Assim eu exponho um pouco minha relação íntima mas de uma forma que ela segue intacta na sua privacidade. Ninguém pode saber o que estava sendo dito. Eu acho isso uma brincadeira muito interessante.

 

Você fala sobre perceber dentro de si uma força pra lidar com a morte da Serena, de seu pai e de outras pessoas. Acredita que a composição ajuda nesse processo? 

O processo de perda é sempre mutante. É muito recente a morte da minha irmã, então todo dia isso muda. Foi diferente de quando eu perdi meu pai. Eu acho que a composição ajuda, mas ela é uma forma, e ela também se transfigura.

É tão bonito ver como a composição é reinterpretada e reinventada por cada pessoa que escuta.

 

Acha que existe uma diferença nas músicas compostas por homens e mulheres? 

Eu acho que os homens tiveram muito mais tempo para desenvolver a escrita e a comunicação nesse lugar. Nós ainda temos uma estrada. Tem excelentes compositoras. Mas a gente não deve comparar nem cobrar as mulheres de um preciosismo. Somos um outro corpo, as urgências de assunto ainda são restritas a um lugar. É preciso um tempo para abrir esse espectro.

Mas eu vejo as composições femininas de 10 anos pra cá como um grande ouro na música brasileira.

 

Já sentiu ou sente opressão na vida profissional por ser mulher e/ou mãe?

Claro. Eu sou a chefe, eu sou a dona do meu trabalho, eu sou a patroa. É difícil, diariamente. Mas eu acho que as mulheres precisam parar de responder essas perguntas. A gente tem que começar a perguntar pros caras como eles se sentem, como as esposas ou mães dos filhos deles se sentem.

Acho que esse constrangimento está precisando existir no jornalismo.

 

Quais são suas expectativas sobre o Festival No Ar Coquetel Molotov?

Eu estou indo pro Coquetel Molotov pela primeira vez. Estou achando incrível porque é muito difícil e caro viajar pelo Brasil. Eu estava esperando essa oportunidade de levar o Taurina para o nordeste. Por causa do Festival eu vou poder fazer o show também em João Pessoa. Então, de antemão já estou achando maravilhoso!

 

Sorte dos pernambucanos e paraibanos que poderão conferir isso de perto nos próximos dias. Por aqui, seguimos ouvindo – e lendo – Anelis.

* O Festival No Ar Coquetel Molotov comemora 15 anos e acontece dos dias 15 a 17 de Novembro.

O show de Anelis Assumpcao será no Caxangá Golf Country Club no dia 17 às 19:20

No mesmo dia você também pode conferir outras artistas como Maria Beraldo e Luedji Luna.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

AzMina é uma resposta feminista à desigualdade e ao preconceito