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Artistas relatam dificuldades com a pandemia da covid-19

por Luisa Toller
27 de abril de 2020
Sem novos editais e sem o apoio do governo, paira no ar uma insegurança de como serão os próximos meses dessa crise
Sem possibilidade de fazer eventos, artistas relatam desafios para encarar coronavírus
Sem possibilidade de fazer eventos, artistas relatam desafios para encarar coronavírus. Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

Ser colunista, professora, artista e mãe no meio do isolamento tem sido um desafio! Por isso chamei a Raíça Augusto, que é atriz e parceira de trabalhos para escrevermos sobre como tem sido a vida de outras artistas nesse momento de quarentena. 

(Eu, a Raíça e outras colegas temos a peça infantil Aurora e o Tempo, que propõe uma reflexão sobre… ele mesmo! O tempo! Quem quiser assistir, está disponível aqui).

A classe artística sempre esteve na linha de frente durante momentos críticos. Os fatos nos impactam, atravessam e se traduzem em obras que podem ajudar a sociedade a refletir sobre o que estamos vivendo, ou às vezes só dar aquela desanuviada. No entanto, mesmo com todas as narrativas sobre as pestes do passado, com todos os filmes apocalípticos, com todas as canções sobre solidão e imagens de um cotidiano em suspensão, nunca imaginamos passar por uma pandemia que nos obrigasse a uma mudança tão palpável: é a história se fazendo agora.

Como manter uma rotina de trabalho frente à possibilidade iminente da doença? Como se manter criativa quando sabemos da dor de quem não tem condições básicas de higiene e alimentação? Como ver poesia nas ruas vazias? Como trabalhar sem um retorno financeiro certo? Mesmo sem encontrar resposta para algumas dessas questões, abrimos, aqui, um espaço de reflexão sobre diversos cenários. 

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Mesmo com a abertura de alguns editais para todas as linguagens artísticas, paira no ar uma insegurança de como serão os próximos meses dessa crise. Cida Gonçalves, produtora cultural, expressa sua preocupação depois de ter encarado maia de dez cancelamentos de seus eventos:

“Eu estou tentando driblar com o recurso que eu tinha, eu tive que tirar uma grana da minha previdência privada para pagar as contas dos próximos meses. Outra coisa que eu fiz foi entrar em contato com artistas, mandei e-mail para a galera toda da Casa do Batuque, que é a minha produtora, e pedi para que eles fizessem lives, porque eu achei que era uma maneira da gente gerar conteúdo nas redes sociais, mostrando os artistas que a gente promove. E assim, em um futuro que eu espero que não seja muito distante, a gente possa retomar com agenda.”

A atriz e produtora de teatro Carol Vidotti também diz não estar conseguindo trabalhar na quarentena. Ela faz parte do Coletivo Labirinto, que se preparava para uma mostra de teatro latino-americana que se realizaria no mês de abril. Carol também ressalta a preocupação com os rumos teatrais após a crise: “quando, depois que isso passar, a gente vai se sentir seguro para estar em um sala de teatro de novo?”. Fazer dos encontros virtuais com os integrantes dos grupo artísticos um espaço de compartilhamento de angústias, acolhimento e prospecções foi o meio encontrado por ela para manter a sanidade nesses tempos vacilantes. 

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A tentativa de manter ou criar aulas on-line também é uma possibilidade vislumbrada para a continuação dos processos artístico-educativos. Marina Bastos, musicista e arte educadora nos conta que, além do desafio de manter uma rotina de trabalho aliada com a casa e a maternidade, há outro, que é o de dar aulas para crianças e adolescentes que apresentam dificuldades no acesso à internet.

Atualmente, seu único trabalho remunerado é na Fábrica de Cultura. Segundo Marina, “os professores estão tendo bastante dificuldade de encontrar qual é a maneira possível agora, então estamos fazendo muitas reuniões, bem desgastantes, para encontrar a solução, mas parece que não vamos conseguir, por enquanto, uma solução democrática. A gente vai ter que fazer algum tipo de material para os aprendizes [a exemplo de algumas escolas públicas]. E vamos  discutindo os formatos e os tempos, a periodicidade disso”.

Já Amanda Nascimento, atriz, produtora e artista de rua, conta que se viu num impasse: como pagar todas as contas e conseguir alimentar uma casa habitada por crianças, adultos e idosos, cada um em uma situação diversa? As “cartinhas-ameaça” das contas de água e luz começaram a chegar e, com elas, a preocupação aumentava.

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O caminho encontrado pela atriz foi a criação de uma página no Facebook, “Solidariedade Coronavírus São Paulo”. A ideia de fazer essa página surgiu de maneira intuitiva, mas Amanda viu seu trabalho ser amplamente divulgado nas redes sociais e, hoje, acredita na necessidade de ampliar seu projeto para outros estados, com o intuito de promover a responsabilidade coletiva na contenção da crise nas camadas mais vulneráveis da sociedade. 

Enquanto esses relatos nos levam à urgência de continuar agindo coletivamente e de criar, mesmo que esse processo seja lento e pareça não ter saída, a secretária da Cultura Regina Duarte ainda não propôs um plano para dar assistência aos artistas em meio à crise. Vídeos, ilustrações e manifestações em redes sociais tem perguntado “Cadê a Regina?” ou “onde está o fundo nacional de Cultura”? 

Seguimos denunciando, pressionando e divulgando as vias alternativas para que possamos nos manter potentes: lives, rifas, aulas, grupos de solidariedade e manutenção do diálogo são atos de resistência do agora. 

Citando Conceição Evaristo, “há uma vida que teima em cada uma de nós”. É nessa teimosia pela vida que pulsa na arte que precisamos nos inspirar.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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