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mulher de boina, oculos de grau, sorrindo, cabelos cacheados longo, pele branca
20 de novembro de 2025

Até quando mulheres trans serão notícia apenas pela violência?

O que a imprensa escolhe publicar revela mais sobre o sistema que nos mata do que sobre quem sobrevive a ele

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Ilustração em tons de rosa, azul e amarelo de Patty Michelletti, que tem cabelos lisos e usa franja. Ela está com uma coroa de flores coloridas, cercada por flores e folhas, em fundo degradê suave, representando a força e a delicadeza das mulheres trans.

Dentro do jornalismo, para uma informação virar notícia, temos os critérios de noticiabilidade. São fatores que os veículos levam em consideração na hora de publicar ou colocar no ar uma matéria, como: novidade, relevância, atualidade, notoriedade e proximidade. Valores que, no entanto, não se aplicam às vidas trans, a nossa elegibilidade, nesse caso, é medida pelo quanto a tragédia choca.

Na madrugada do dia 18 de novembro, li mais uma notícia de uma mulher trans sofrendo tentativa de assassinato. Não sei qual a sensação para você que está lendo esta coluna, mas mesmo com tantas publicações como essa, eu ainda sinto o peso na mesma medida, como se fosse um acontecimento inédito.

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Feminismo bem informado

Patty Michelletti, modelo e atriz de 26 anos, não virou notícia por ter conseguido um papel em um filme com um roteiro incrível ou por ter modelado para uma marca conceituada. Ela virou manchete porque vai passar a existência com a sequela de ter visto nosso maior medo — a tentativa de extermínio — se tornar realidade. O fato é que ela saiu viva, e isso não é o comum, é notícia.

Foram quatro vizinhos — dois homens cis e duas mulheres cis — que levaram o nome de Patty às páginas de jornal. De maneira geral, veículos tradicionais de jornalismo veem nossos corpos como chances de cliques, seja pela frequência brutal dos nossos assassinatos, seja pela surpresa de uma de nós ter saído viva. É o alimento que o sistema precisa para nos colocar nas abas de violência em seus sites. Porém, no fim das contas, ela saiu respirando: “nasceu de novo”, dirão.

Nos resta isso: agradecer que nada de pior aconteceu, apesar de o pior já ter acontecido, muitas vezes, todos os dias.

A mudança não pode depender apenas da resistência

A conta de lidar com tanta notícia desesperadora está no nosso colo, quando deveria ser tratada por vocês. Nós é que choramos quando vemos as imagens fortes; nós é que ficamos com o coração apertado ao ver um pai desolado ao perder a filha; nós é que ficamos com medo ao sair na rua. Mas já cansamos de lidar com tudo. Vocês precisam embarcar nessa também e acordar que a mudança não depende só da nossa resistência.

Fico com uma frustração que ronda constantemente minha cabeça: a cisgeneridade ainda não consegue alcançar, de fato, as implicações da nossa existência, os perigos que passamos e a impossibilidade de nos defendermos. E não é pela falta de contato ou informação; parece ser uma vontade genuína de ficar na superfície.

Impossibilidade de defesa, sim! Se não temos a permissão de gritar ou bater de volta, nos entupimos dessas transfobias institucionalizadas que insistem em nos empurrar, como se fosse obrigação nossa resolver um problema criado por vocês, nos deixando à mercê do Estado, que não nos enxerga ou humaniza.

É desesperançoso ver que os esforços não chegam como devem chegar. Essas tragédias não reverberam em vocês; tudo parece amortecido. Começam perpetuando livros de pessoas transfóbicas porque precisam separar a autora da obra; assistindo a uma série que tira sarro da existência trans; deixando uma piada problemática passar batida; não educando um familiar por achar que é perda de tempo. Por fim, veem uma notícia como essa passar pelo seu feed e não percebem o peso que tem, por conta da frequência com que se repete.

Escolher apenas casos de violência como o da Patty para representar nossa existência nas mídias é uma conta que recai sobre jornalistas cis que insistem em perpetuar uma narrativa de marginalização. Dar essas notícias sem contextualização ou responsabilidade é contribuir para a estrutura que nos agride e reforçar estereótipos.

Nós queremos ser notícia  pelo nosso trabalho, por nossas conquistas, nosso talento. 

A gente quer e merece mais.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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