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Foto de Carol Bonomi, mulher branca, com tatuagens, cabelos castanhos na altura dos ombros e óculos
14 de abril de 2025

Trabalho sexual e feminismos: entre o silenciamento e a resistência

Um tema sensível, mas necessário

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colagem digital com fundo vermelho tem mulher ao centro e imagens de frutas que remetem à vulva ao redor

Parece um sonho. Acompanho o trabalho d’AzMina há dez anos e, hoje, inicio minha coluna de opinião nesse projeto coletivo tão importante, que faz parte da história do ativismo feminista da última década. Muito prazer, eu sou Carol Bonomi. Sou mineira, feminista, cientista política, educadora, palestrante e pesquisadora. Nos últimos dez anos, dediquei minha vida à pesquisa acadêmica sobre trabalho sexual. No mestrado na Universidade Estadual de Campinas pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, investiguei a história política do movimento brasileiro de prostitutas. E trago essa pauta para cá, consciente de que ela desperta tensões, dúvidas e debates acalorados dentro dos feminismos.

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Feminismo bem informado

A “puta imaginada” e o silenciamento das prostitutas

O debate sobre prostituição nos feminismos não é novo; há pelo menos 40 anos é uma arena de disputa teórica e militante. Com a popularização das redes sociais, essa discussão ganhou novas dimensões nos últimos anos. 

Uma das maiores barreiras para compreender o trabalho sexual é o mito da “puta imaginada”, conceito discutido por Melissa Grant e Monique Prada. Essa representação estereotipada enxerga a prostituta apenas como vítima: uma mulher explorada, sem escolha, violentada e carente de salvamento. Essa narrativa ignora a diversidade das experiências e as vozes das próprias trabalhadoras sexuais, perpetuando estigmas e justificando políticas de marginalização da profissão.

A “puta imaginada” é um fantasma que paira sobre as discussões, silenciando mulheres reais e suas reivindicações. Mas essa imagem tem sido confrontada por quem vive o trabalho sexual. Hoje, vemos um aumento significativo da produção de conhecimento sobre o tema, com livros publicados por Monique Prada, Lourdes Barreto e Célia Gomes, que rompem com esses estereótipos. 

Trabalhadoras sexuais estão ocupando as redes sociais para compartilhar experiências, opiniões políticas e estudos. No entanto, suas vozes são frequentemente deslegitimadas. Elas são acusadas de “glamourizar” ou “romantizar” a prostituição, como se somente o sofrimento extremo conferisse legitimidade ao discurso.

Leia mais: “Não queira saber mais sobre prostituição do que as próprias prostitutas”

Quem pode falar sobre prostituição?

As relações de poder nos regimes de visibilidade determinam quem pode falar sobre prostituição. O lugar reservado é o da “prostituta sobrevivente”, aquela que escapou do trabalho sexual e pode relatar o horror que viveu. 

Se uma prostituta em atividade fala sobre sua realidade, é tratada como ingênua, explorada ou criminosa. Se ela é negra e pobre, só tem permissão para falar sobre extrema precariedade. Quem construiu um movimento político por décadas é jogada para escanteio. Esse silenciamento tem consequências graves.

O impacto político da exclusão

O impacto dessa exclusão também é visível na política institucional. O movimento de prostitutas desempenhou um papel histórico na promoção da saúde sexual e na disseminação do uso de preservativos nos anos 2000 — por meio de editais do Ministério da Saúde que permitiram a criação de associações por todo o Brasil. Ainda assim, hoje, suas representantes enfrentam dificuldades para serem ouvidas nos espaços de decisão. 

No atual governo Lula, por exemplo, conseguir reuniões ministeriais para abordar o tema é uma batalha constante. A falta de representação política abre caminho para ofensivas antitrabalho sexual.

O avanço das políticas antitrabalho sexual

Recentemente, assistimos a ataques legislativos que reforçam a precarização da prostituição. A mudança na lei do turismo sexual ampliou estigmas e pode criminalizar ainda mais as trabalhadoras.

Propostas de proibição de propagandas de sites de acompanhantes surgem sob o pretexto de proteger crianças e adolescentes, mas, na prática, dificultam a atuação segura das profissionais. Agora, o deputado Kim Kataguiri propõe incluir a prostituição no rol das contravenções penais, reforçando a violência policial contra essas mulheres.

Leia mais: “Para as mulheres, sexo sempre foi trabalho”, diz Silvia Federici

Prostitutas têm voz. Quem está disposto a ouvir?

Não podemos esquecer do primeiro encontro nacional organizado por prostitutas,  intitulado “Mulher da Vida, É Preciso Falar”, no ano de 1987. O silenciamento das trabalhadoras sexuais é uma prática histórica que persiste, agora travestida de discursos de proteção. Mas não há proteção na censura. Romper com essa lógica é urgente.

As trabalhadoras sexuais existem, falam e resistem. Elas precisam ser ouvidas. E o feminismo precisa decidir: vai continuar ignorando e silenciando essas mulheres, ou vai estar ao lado delas na luta por direitos?

REFERÊNCIAS

BONOMI, Carolina. Mulher da Vida, É Preciso Falar: Um Estudo do Movimento Organizado de Trabalhadoras Sexuais.
GRANT, Melissa. Dando uma de puta.
PRADA, Monique. Putafeminismo.
BARRETO, Lourdes. Uma puta autobiografia.
GOMES, Célia. Prostituta é comunidade

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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