
Desde 2020, venho me deparando com perfis e vídeos que falam sobre um suposto “vício em pornografia”. Estranhei o termo e fui consultar se havia alguma atualização recente nos manuais de diagnóstico da psiquiatria. Não encontrei nada. O que apareceu foram estudos inconclusivos, quase sempre marcados por limitações metodológicas: ausência de definições consensuais, recortes geográficos restritos, dificuldades em estabelecer causalidade e indicadores pouco robustos sobre o que seriam, afinal, os tais “sintomas”.
Desde então, o tema tem me chamado atenção. Passei a acompanhar alguns perfis-chave para analisar a evolução desse discurso. Queria entender como ele afeta o cotidiano de quem trabalha com sexo, pessoas agora frequentemente nomeadas como parte do problema, rotuladas como gatilho ou causa do vício. As redes sociais, nesse contexto, tornaram-se espaços de violência simbólica e verbal, onde trabalhadoras e trabalhadores sexuais enfrentam ataques morais que intensificam sua precariedade e comprometem sua saúde mental.
O “vício em pornografia” se converteu em discurso normativo: virou diagnóstico informal, gerou comunidades digitais, gurus, clínicas e, sobretudo, mercados de cura. Houve um aumento significativo desses perfis, e mesmo com a ausência de respaldo científico não impediu que o termo se popularizasse.
Do desejo regulado à ideia de autoconhecimento
Esse processo está longe de ser novo. A sexualidade sempre foi um território de disputa entre moralidades, normas e saberes sobre o que se pode e o que se deve fazer com o próprio corpo. Figuras como a criança masturbadora, a mulher histérica ou a homossexualidade tratada como desvio ilustram como o desejo foi sistematicamente capturado e regulado por discursos médicos, jurídicos e pedagógicos. E converteu experiências íntimas em objetos de vigilância e intervenção.
Na década de 1970, esse cenário sofre reconfigurações profundas com o avanço da chamada revolução sexual. Impulsionada por lutas feministas, pelo acesso ampliado à pílula anticoncepcional e pelo reconhecimento do prazer como direito, essa transformação consolidou novas formas de vivenciar e reivindicar a sexualidade. A masturbação, especialmente para pessoas com vulva, deixou de ser tabu e passou a ser compreendida como prática de autoconhecimento e emancipação, rompendo com a lógica que subordinava o sexo exclusivamente à reprodução e à heterossexualidade normativa.
Nesse contexto, emergiram também as sex wars (guerras sexuais), que revelaram divergências entre feministas: enquanto algumas denunciavam a pornografia como forma de violência contra as mulheres, outras reivindicavam a autonomia para produzir, consumir e performar sexualidades dissidentes. Essas ambivalências persistem até hoje.





Mercados sexuais x pornografia vilã
De um lado, vemos a expansão dos mercados sexuais voltados para o prazer feminino. Sextoys (brinquedos), cosméticos sensuais, lingeries e cursos de sexualidade positiva impulsionaram o consumo entre mulheres cisgênero, posicionadas como consumidoras centrais. Esse processo se intensificou durante a pandemia, com o isolamento social e o fortalecimento dos discursos de autoprazer. Muitas mulheres passaram a empreender nesse setor, monetizando conteúdos, produzindo erotismo ou atuando como consultoras, práticas que ajudaram a gerar renda num cenário de precarização econômica.
De outro lado, surgiu um contra-movimento: perfis que prometem “curar” a masculinidade da sua “toxidade” por meio da abstinência sexual, da disciplina corporal e da renúncia à pornografia. A pornografia, aqui, é nomeada como a grande vilã de uma masculinidade “desorientada”, responsável pela ansiedade, disfunções, relações fracassadas. Esse discurso, porém, realiza um deslocamento perigoso: ressignifica o homem agressor como um homem adoecido. Individualiza e medicaliza comportamentos que são, na verdade, expressões de uma estrutura social de poder e desigualdade de gênero.
Nos discursos sobre “vício em dopamina”, “desintoxicação da masturbação” e “perigos do sextoy”, vemos essa nova gramática moral se instalar. Masturbação, especialmente quando associada ao prazer feminino ou ao uso de tecnologias sexuais, volta a ser nomeada como problema: causa de ansiedade, falha de concentração, vício. Em contrapartida, pouco se fala dos benefícios bem documentados da masturbação: redução do estresse, melhora do sono, aumento do conhecimento corporal e fortalecimento da autoestima. Esses dados são facilmente encontrados em revisões sistemáticas da literatura médica (veja, por exemplo, Brody & Krüger, 2006; Prause & Pfaus, 2015).
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Novas normas, novas vergonhas?
Como lembrou Gayle Rubin (2017), há uma constante produção de hierarquias sexuais que determina o que é considerado bom, saudável e aceitável e o que deve ser punido, curado ou eliminado. Nos discursos contemporâneos, essa hierarquia é reconfigurada não somente por normas religiosas ou legais, mas por linguagens terapêuticas, algoritmos e espiritualidades adaptadas ao mercado.
E essa espiritualidade performada ganha cada vez mais espaço: perfis de terapias alternativas falam de “formas conscientes de excitação”, prometem “sexualidades curadas”, misturam práticas ancestrais, biohacking (hackear o próprio corpo) e retórica da reconexão. Em nome do bem-estar e do equilíbrio, produzem novas normas, novas vergonhas e novas segmentações sexuais. São terapias que não têm validação científica, mas se impõem pela estética, pela autoridade carismática e pela performance de autenticidade.
Como observou Jane Russo (2013), estamos diante de uma intensificação da farmacologização da sexualidade, agora ampliada por terapias sem evidência, mas com grande penetração digital. A sexualidade, em vez de um espaço de descoberta e negociação, torna-se um campo de autovigilância e aperfeiçoamento: um “projeto” a ser constantemente corrigido.
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Moralismos que se passam por cuidado
Em tempos de retrocessos políticos, censura às expressões sexuais nas plataformas e ameaças aos direitos reprodutivos, precisamos olhar com atenção para esses novos moralismos maquiados de autocuidado. A retórica do “vício sexual” dissemina desinformação e reativa antigos mecanismos de controle e vergonha, agora sob o disfarce da ciência ou da espiritualidade empreendedora.
Precisamos defender o sexo como campo de autonomia, desejo e invenção. E isso exige resistir às tentativas de patologizar o prazer, espiritualizar o sofrimento sexual sem crítica, e produzir novas formas de culpabilização. Tudo isso que somente reforça desigualdades históricas. Como ensinou Foucault, não se trata somente de falar de sexo, mas de disputar os regimes que tentam dizer o que o sexo deve ser.
