
O que nasce de um contexto de crise?
A Transmídia nasceu desse lugar — e eu faço parte dessa história desde o início. Demos o primeiro passo durante a pandemia de Covid-19, em uma reunião virtual que juntou jornalistas, comunicadores e designers trans. Naquele momento, não estávamos exatamente fundando uma organização. Estávamos criticando o jornalismo.
Eu carregava incômodos acumulados, assim como outras pessoas que estavam ali. Questões básicas sobre corpos trans seguiam sendo tratadas com superficialidade, estigmatização ou simplesmente ignoradas pela mídia. Para mim, essa ausência de aprofundamento nunca foi apenas uma falha narrativa, mas também uma falha na garantia de direitos. Informação, para pessoas trans, muitas vezes é ferramenta de sobrevivência.
No meio desse processo coletivo, eu também atravessava um processo muito pessoal, que mais tarde registrei no primeiro Divã que escrevi para AzMina sobre o meu diagnóstico de HIV. Enquanto discutíamos jornalismo, direitos e representação, eu também estava me reorganizando internamente, revendo minhas próprias expectativas, dores e formas de existir no mundo. Percebi que não era possível dissociar uma coisa da outra.
A maneira como a mídia nos trata impacta diretamente nossa subjetividade. E foi nesse atravessamento que comecei a olhar para o jornalismo de outro jeito. Passei a me perguntar: que tipo de comunicação eu quero construir? Que linguagem acolhe em vez de afastar? Que narrativa inclui em vez de tolerar? Qual escuta antes de falar?
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A organização foi um caminho para continuar existindo
Aquela reunião, que começou como crítica, foi também um espaço de respiro coletivo em meio a uma crise sanitária, política e social. Para mim, era uma tentativa de continuar existindo em um cenário atravessado por medo, isolamento e incerteza. A conexão pelas telas não era só sobre trabalho ou projeto. Era sobre permanência — externa e interna.
Nesse primeiro momento, nos organizávamos sob o nome Arroboboi — uma saudação a Oxumarê, orixá que nos ensina sobre movimento, ciclos, transformação e sobre a importância das pausas. Foi exatamente isso que vivemos.
Quando o período mais intenso da pandemia passou, a retomada da vida presencial e as demandas individuais cobraram um preço alto. Eu senti esse impacto também no meu processo pessoal. O ciclo desacelerou. O projeto entrou em pausa. Mas entendi que as pausas não são fracassos, são parte da continuidade.
Algum tempo depois, Caê Vatiero propôs uma nova reunião com pessoas que ainda demonstravam interesse em manter viva aquela ideia inicial da Arroboboi. Eu estava entre elas. Esse reencontro trouxe novas pessoas e um foco mais definido. Já não era apenas sobre criticar o jornalismo, mas sobre construir outras possibilidades de produção jornalística feitas por pessoas trans — com outra ética de cuidado.
Mudança de nome aponta o nosso sonho
Foi nesse movimento que transformamos a Arroboboi em Transmídia. O novo nome passou a refletir um sonho coletivo que também é meu: construir uma mídia trans, comprometida com a produção de conteúdo diverso, mas fundamentada no jornalismo como ferramenta política, social, pedagógica e também afetiva.
Ao longo desse percurso, entendi que pautas profundas e investigativas são fundamentais, mas que, para determinados grupos, o acesso a informações práticas podem ser transformadoras. Informações sobre como alterar o nome no título de eleitor, políticas de cotas para pessoas trans em universidades ou sobre acesso a serviços públicos.
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Mas entendi também que não basta informar. É preciso comunicar de forma responsável, inclusiva e acolhedora.
Começamos a ocupar espaços importantes. Participamos de impulsionamentos promovidos pelo Google e contamos com o apoio da Énois — organização que compartilha uma diretoria com a Transmídia e que foi fundamental para a nossa consolidação. Dentro do terceiro setor e do jornalismo independente, aprendi que a existência de uma organização depende de redes de apoio, mas também de redes de afeto.
Quando ganhamos nosso primeiro edital, produzimos uma cartilha sobre combate à desinformação, problema que historicamente atravessa as narrativas dos corpos trans. Produzir materiais que enfrentam esse fenômeno é também disputar o direito de existir com dignidade e com acesso à informação de qualidade.
Com o fortalecimento do projeto, definimos oficialmente o grupo gestor e fundador da Transmídia, formado por mim, Caê Vatiero, Agatha Lotus e Hela Santana. A formalização trouxe novas responsabilidades e desafios.
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Temos de atravessar barreiras constantes
À frente de uma organização trans, nós quatro precisamos atravessar barreiras institucionais constantes, manter esse trabalho ainda exige vencer resistências em diferentes espaços de financiamento. Persiste a dificuldade de compreender que pessoas trans existem em todas as camadas sociais e que iniciativas voltadas para essa população não são nichos isolados, mas parte de um debate estrutural sobre direitos, comunicação e democracia.
Existe também o peso cotidiano de carregar nossos corpos em espaços institucionais que operam sob lógicas cisnormativas. A gestão, nesses contextos, exige de mim competências técnicas, mas resistência emocional, política e coletiva.
O que sustenta a continuidade da Transmídia, para mim, é essa missão compartilhada. Construir uma produção jornalística voltada para pessoas trans é construir memória, acesso, representatividade e mudança social. É transformar não apenas o que se comunica, mas a forma como se comunica.
Carrego comigo a lembrança da nossa primeira reunião e o nosso último planejamento estratégico. Nos encontramos presencialmente, com nosso primeiro kit institucional, cafés da manhã compartilhados e almoços que misturavam planejamento e afeto.
Entre uma tela e uma mesa compartilhada, existe uma história que eu sigo construindo. A Transmídia nasceu da crise, mas permanece como espaço de criação, cuidado, produção de futuro. E eu também.
