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O carnaval e a criminalização da cultura negra

por Júlia de Miranda
17 de fevereiro de 2020
É nessas épocas de festejos que bebem diretamente nos símbolos afro que se escancara o racismo estrutural
As mulheres do Ilú Obá de Min durante apresentação no carnaval de São Paulo (Foto Gustavo Luizon)

Amantes do carnaval, uni-vos! Chegou a hora da festa mais popular do território Tupiniquim. Não pode ver um bloco que já quer entrar? Bora! Mas antes fica o convite para um papo crítico sobre a conjuntura racista que cerca o Brasil não apenas na folia, mas todos os dias do ano.

Aquela máxima de que o Brasil só funciona depois do carnaval, goste você ou não, é real e bom já considerar um segundo réveillon na quarta-feira de cinzas. Tudo só engata mesmo a partir daí.

Uma data importante no calendário nacional, que movimenta a economia do país (R$ 8 bilhões em atividades ligadas ao turismo em 2020, segundo estimativa da Confederação Nacional do Turismo), reúne multidões nos blocos, cortejos e desfiles feéricos na Sapucaí.

Sem esquecer que é um período onde se escancara mais uma vez o gritante racismo estrutural presente, camuflado no falso mito da democracia racial, na nossa sociedade. Nada muito diferente do que a população negra enfrenta diariamente.

É nessas épocas de festejos que bebem diretamente nos símbolos afro – como carnaval, samba, maracatu, frevo, a festa de 31 de dezembro na praia, etc. – que explode a violência do preconceito racial que nega a todo custo o fato da cultura brasileira ser negra.

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No movimento de “botar o bloco na rua”, lamentavelmente ainda presenciamos situações onde o povo preto é zombado, seja nas blackfaces e/ou vestimentas depreciativas. Fica o recado: gente negra não é fantasia de carnaval. Sem contar a cultura apropriada (quem se lembra do caso da famosa marca que estampou uma modelo branca “fantasiada” de Iemanjá?) e a exploração sexista que pesa a mão de maneira impiedosa sobre as mulheres negras.

Intelectual e antropóloga, Lélia Gonzales, referência preciosa do feminismo negro, manteve uma relação intensa com o carnaval. Em seu conhecido artigo “Racismo e sexismo na cultura brasileira” de 1980, a temática é totalmente atual.

Lélia comenta: “É nos desfiles das escolas de primeiro grupo que a vemos em sua máxima exaltação. Ali, ela [mulher negra] perde seu anonimato e se transfigura na Cinderela do asfalto, adorada, desejada, devorada pelo olhar dos príncipes altos e loiros, vindos de terras distantes só para vê-la. Estes, por sua vez, tentam fixar sua imagem, estranhamente sedutora, em todos os seus detalhes anatômicos; e os ‘flashes’ se sucedem, como fogos de artifício eletrônicos. E ela dá o que tem, pois sabe que amanhã estará nas páginas das revistas nacionais e internacionais, vista e admirada pelo mundo inteiro (…) Pois o outro lado do endeusamento carnavalesco ocorre no cotidiano dessa mulher, no momento em que ela se transfigura na empregada doméstica.”

Durante 15 anos, a performance da mulata Globeleza invadiu o imaginário e as casas de todo o país na vinheta que exibia a modelo Valéria Valenssa numa função superexpositiva e objetificada de seu corpo. A palavra “mulata”, inclusive, é de cunho machista e racista e deve ser extinta do nosso vocabulário. Estamos falando de um termo pejorativo que se remete à impureza e mistura imprópria de raças. Lembrando que a louvada miscigenação no Brasil teve origem nos estupros cometidos pelos colonizadores no período da escravidão.

Gleicy Ellen eleita Deusa do Ébano 2020 na 41ª Noite da Beleza Negra (Foto Gabriel Oliveira)
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No livro “Quem tem medo do feminismo negro?”, a filósofa Djamila Ribeiro também fala desse assunto. “Não aceitamos ter nossa identidade e nossa humanidade negadas por quem ainda acredita que nosso único lugar é aquele ligado ao entretenimento via exploração do corpo (…) Não aceitaremos mais nosso corpo narrado segundo o ponto de vista do eurocentrismo estético, ético, cultural, pedagógico, histórico e religioso.”

Djamila também acrescenta que não podemos mais aceitar que mulheres negras sejam relegadas ao papel da exotização, seja nos ritos carnavalescos ou em qualquer outra situação.

Para alcançarmos uma visão crítica e insterseccional sobre questões importantes do cotidiano é necessário contar com boas doses de consciência. Primeiro sobre quem nós somos e de que forma ocupamos politicamente os espaços que frequentamos.

Os processos de descolonização do pensamento são complexos, um misto de dor com assumir novos saberes, num ato de cuidado e cura com a nossa história. Aquela que não é contada na escola e que anula o negro e indígena nomeando-os como “o outro”, o excluído ou sujeito dominado criado pelo discurso de poder.

A criminalização das pessoas pretas

Conhecida popularmente como “lei da vadiagem” (no Código Penal de 1890), era aplicada para proteger os indivíduos partidários “da moral e dos bons costumes”, ainda no século 19, e visava perseguir as camadas mais pobres e negra na prática da higienização social (soa familiar, não?). Condutas como mendicância, embriaguez e a prática da capoeira (tidos como vadios) eram punidas no combate à ociosidade e marginalização.

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E não parou por aí: a criminalização da cultura negra transpassa séculos mirando as religiões de matriz africana, as vestimentas e adereços de resistência do povo preto, os quilombos, hábitos e costumes e estilos musicais que descendem do cosmo negro.

Tudo que não passa pelo processo de embranquecimento é tido como algo marginalizado (e criminalizado). Aconteceu com o samba, rap, hip hop, blues, jazz e recentemente o funk (alô Rennan da Penha). A falha justiça dos homens e a elite brasileira encrencam com pobre/preto/ favelado, um combo muito indigesto e que é representado excessivamente nos noticiários e programas de entretenimento como algo feio e criminoso.

Então, neste feriado de carnaval é tempo de celebrar a cultura da mesma forma que questionamos as opressões vigentes no cotidiano das minorias. É tempo de nos aquilombar, como aconselha Conceição Evaristo.

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Trabalhamos para combater o racismo e nos abrimos para os aliados que podem somar com sua escuta ativa, fala e prática antirracista. Repito: gente negra não é fantasia de carnaval. Estereótipo racista é ultrapassado.

Blocos como o Ilê Aiyê, em Salvador, e o Ilu Obá de Min e Ilu Inã, em São Paulo, que vivenciam e honram nossa ancestralidade negra, são pontos de luz onde nos afirmamos como potência afro-brasileira. Essa que tentam, mas nunca vão extinguir de nós.

“O aplauso é importante para o nosso Ori”, assegura a intelectual e escritora Carla Okatirene, homenageada especial da 41ª Noite da Beleza Negra, realizada pelo Ilê Aiyê na Bahia em 2020. Respeitem nossa humanidade.

Ubuntu.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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