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16 de novembro de 2020

Autoestima das mulheres negras: precisamos nos amar e descobrir nossa identidade

Nos tornamos oposição absoluta do que o projeto colonial predeterminou ao escolher abraçar, com cuidado e sensibilidade, nós mesmas. Mulheres negras que mesmo com um passado enraizado na dor, se levantam!
Autoestima das mulheres negras
Arte: Ina Gouveia

Respeitar a nossa trajetória e honrar a caminhada é algo que às vezes aprendemos a duras penas, como diz a expressão. Comumente, não conversamos sobre isso dentro de casa e tão pouco é visto como conteúdo para ser debatido dentro de escolas ou universidades. Numa sociedade capitalista e bélica, a gente normaliza comportamentos competitivos e somos estimuladas desde cedo (com o auxílio do sexismo, patriarcado e colonialismo) a nos compararmos umas com as outras. 

Volto a tocar em um tema muito caro para nós mulheres: o autoamor, pauta que tem um teor ainda mais espinhoso quando se trata das mulheres negras e os padrões hegemônicos impostos pela supremacia branca que nós nunca vamos corresponder. Digo nunca, pois por mais que uma mulher negra tenha traços finos, alise o cabelo, use um “dress code apropriado”, expresse suas ideias dentro do que o policiamento de tom legitime como “a negra educada e pacífica” e esteja num lugar social, epistêmico, estético, econômico e cultural “a altura” das pessoas brancas (o que se espera é que estejamos abaixo), nós continuamos sendo negras. 

Audre Lorde dizia algo extremamente valioso, “Se eu mesma não me definir, eu seria esmagada nas fantasias de outras pessoas e comida viva”. Essa frase deveria estar pregada num canto de fácil visão pra gente não perder o hábito, ou começar pelo menos, de se questionar os “porquês” e “para quê” de determinadas práticas e condicionamentos em nossas vidas. Ações essas que, se examinarmos com mais afinco, poderemos notar a influência em distintos campos, como profissional, saúde emocional e relacionamentos afetivos. 

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Uma autoestima equilibrada não é linear, e nem perfeita. Compreendo como um exercício, ou ritual, que escolhemos diariamente abraçar e investir nosso tempo e energia, sabendo que para construir uma base sólida de amor interior (como prefere bell hooks ao se referir à amor-próprio), é imprescindível profundidade no processo dolorido e transformador do autoconhecimento. Reconhecer nossos traumas, faltas e vazios e a partir daí optar em se tornar uma mulher inteira, não mais fragmentada ou uma metade à procura de outras metades, pode nos aproximar da liberdade, de boas escolhas alinhadas com o que sentimos e a integridade da mente, do corpo e do ser. 

Infância e afetividade negra

O sentimento de insegurança e não merecimento que acompanha muitas pessoas negras é uma importante questão e merece destaque. Fico extremamente tocada quando escuto de homens ou mulheres negras (alguns bem-sucedidos economicamente) afirmações como: “Eu nunca me imaginei na bancada de um grande programa de TV”, “Eu nunca me imaginei cursando medicina”, “Eu nunca me imaginei viajando o mundo”, “Eu nunca me imaginei liderando uma equipe”, “Eu nunca me imaginei recebendo um prêmio” “Eu nunca me imaginei ganhando esse salário”, etc. 

Na esfera afetiva sexual, nós mulheres negras já entendemos a perversidade da estrutura machista e racista que impõe solidão, preterimento e abandono. Trazendo o olhar da psicologia para nossa conversa, encontramos a raiz de tais condutas na infância. Como foi ser uma criança negra? Será que estamos prontas para olhar com coragem algumas feridas do passado que continuam ainda hoje inflamadas? Enquanto não tivermos confiança que somos realmente boas, capazes e merecedoras e que o mérito de tanta dedicação nos processos interiores é exclusivamente nosso (e não externo), vamos sempre achar que o outro é quem está fazendo um grande favor ao nos contratar, ao nos amar, ao aprovar nosso projeto e pagar um salário que por vezes é o mínimo já que possuímos talento e competência. 

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No texto “Vivendo de Amor”, bell hooks explica que expressamos amor através da união do sentimento e da ação. O sistema escravocrata e as divisões raciais (palco para diversas opressões e exploração) distorceram e impediram por muito tempo a nossa capacidade de amar. Diante da hegemonia dos brancos, a vida da população negra é permeada por questões políticas que explicam a interiorização do racismo e de um sentimento de inferioridade. Segundo a autora, essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir e consequentemente, de amar. 

“O amor precisa estar presente na vida de todas as mulheres negras, em todas as nossas casas (…) Raramente se preocupam em garantir mudanças na sociedade que nos permitam viver plenamente (…) As mulheres negras que escolhem (e aqui enfatizo a palavra “escolhem”) praticar a arte e o ato de amar devem dedicar tempo e energia expressando seu amor para outras pessoas negras, conhecidas ou não. Numa sociedade racista, capitalista e patriarcal, os negros não recebem muito amor. E é importante para nós que estamos passando por um processo de descolonização, perceber como outras pessoas negras respondem ao sentir nosso carinho e amor”. 

A vontade de amar representa um ato de resistência para pessoas negras.

Uma mulher negra que, em primeiro lugar, nutre um genuíno amor-próprio e se considera feliz ao acessar sua beleza e essência, é uma mulher revolucionária. “Creio que esse caos representa uma reflexão de seu interior, da falta de cuidado consigo própria. A partir do momento que acreditarmos, de preferência desde crianças, que nossa saúde emocional é importante, poderemos suprir nossas outras necessidades”, enfatiza bell. 

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Necessário pontuar que a rejeição pode até acontecer do lado de fora, porém se não nos abandonamos, acolhemos nossas demandas e cessamos padrões de autossabotagem, temos mais força interior contra as opressões e podemos nos doar com energia e vigor em práticas coletivas. Antes de exigir que os outros nos ouçam, precisamos ouvir nós mesmas e descobrir nossa identidade. 

Tornar-se negra

Ser negra numa sociedade branca e racista significa entender o nosso próprio processo de existência e formação enquanto sujeito, indivíduo na esfera singular e coletiva. A psiquiatra Neusa Santos Souza em sua obra “Tornar-se Negro”, aponta que saber-se negra é viver uma experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas perspectivas, submetida a exigências, compelida a expectativas alienadas, “Mas é também, e, sobretudo, a experiência de comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades”. 

Erguer nossa voz e falar é um gesto que cura, além de romper com a máscara do silenciamento que fez parte do processo colonial europeu por mais de trezentos anos e tinha como principal função implementar um senso de mudez e de medo. Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar? Não aceitamos mais a dominação e censura da Casa Grande.

“Nossa fala estilhaça a máscara do silêncio”, Conceição Evaristo.  

E pela boca não só a fala: ainda no período da escravidão, o ato de comer terra era uma prática utilizada por escravizados africanos para cometer suicídio. Hoje, ainda se morre pela boca através do genocídio nutricional, conhecido como nutricídio, onde pessoas negras e periféricas encontram nos alimentos cheios de agrotóxicos, transgênicos e ultraprocessados opções mais baratas de se alimentarem, do que em alimentos naturais e/ou orgânicos. Arrancar o colonizador da nossa mente, sentimentos, boca e estômago é vital. Não seremos fracas, doentes ou debilitadas como pretende esse projeto nacional. 

Ainda assim eu me levanto

Se colocar como prioridade e protagonista da sua narrativa não é egoísmo. É escolha assertiva de quem está consciente nesse mundo pouco desperto em que vivemos.
Minha sugestão é levantar as nossas cabeças com orgulho e construir uma base de autoamor firme. Não é a titulação da academia que vai me dizer se sou boa ou não. Não é o diploma, não é o cargo alto na empresa que me define, não é um alto número de seguidores que valida a minha existência.  Que a gente não dependa do que está fora, entretanto perceba que isso é uma consequência natural da lapidação, autorrespeito e confiança que estabelecemos conosco durante a jornada.

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Nos tornamos oposição absoluta do que o projeto colonial predeterminou ao escolher abraçar, com cuidado e sensibilidade, nós mesmas. Mulheres negras que mesmo com um passado enraizado na dor, se levantam! 

Deixando para trás noites de terror e atrocidade
Eu me levanto
Em direção a um novo dia de intensa claridade
Eu me levanto
Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.

Maya Angelou. 

Feminista decolonial, jornalista e ativista, Júlia sabe a importância de se afirmar como uma mulher negra. Consciência política também é se apropriar da própria narrativa, acolhendo ancestralidade e se abrindo para várias possibilidades, individuais e coletivas, no contexto de negritude. Seguidora leal dos ensinamentos de bell hooks e Lélia Gonzalez, a paulistana acredita que o mundo pode ser um lugar mais aprazível quando estamos munidas de amor-próprio, senso crítico, música e vontade diária de caminhar na contramão do pensamento patriarcal e capitalista.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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