logo AzMina
16 de janeiro de 2026

Aborto, luto e renascimento: três anos tentando sobreviver à maternidade impossível

Entre perdas, culpa e silêncio, uma mulher narra como abortos espontâneos e provocados marcaram seu corpo — e sua escolha de seguir viva

Nós fazemos parte do Trust Project

Colagem em tons de azul e rosa: uma jovem sentada abraça os próprios joelhos, cabeça inclinada e olhos cobertos por uma faixa violeta. Grandes asas de borboleta vermelhas surgem em suas costas, enquanto pequenas borboletas alaranjadas flutuam ao redor. O fundo lembra um quarto desfocado, com faixa azul no topo e área rosada na base.

Em 2025, finalmente vivi o primeiro mês de setembro dos últimos três anos em que maternidade e aborto não foram assuntos que me cortam visceralmente. Apesar de escrever esse relato aos prantos, às 4h de uma madrugada qualquer.

Em 2022, me vi em um processo que não desejo a nenhuma mulher. A experiência foi difícil, apesar do meu lugar de muito privilégio: uma mulher branca (mesmo não sendo vista dessa forma fora do Brasil), morando na Irlanda, onde o aborto é legalizado desde 2018.

Não dá conta de acompanhar as notícias? Deixe que a gente te ajuda!

Feminismo bem informado

Depois de alguns meses em um relacionamento onde as red flags eram constantes, me vi num quarto de hotel numa viagem entre amigas, em choque com um teste de gravidez positivo. Eu paralisei! Mas que sorte a minha ter ao meu lado amigas que anos atrás eram minhas companheiras numa palestra pró-aborto no país em que moramos. Tivemos aqui o privilégio de ver a luta e a vitória femininas pela causa.

Mesmo estando em um país que nos dá todo o apoio médico e psicológico para tal, a escolha de seguir ou não com a gravidez é difícil. Um agravante é que o cogenitor era um homem que se dizia feminista — um antropólogo com artigos científicos escritos sobre o tema – mas me culpou absurdamente quando tive um aborto espontâneo. 

A perda ocorreu na manhã anterior à consulta pra minha decisão de manter ou não a gravidez. E ele disparou: “Ué, por que você está chorando? Você já não queria mesmo!”

Tatuei uma borboleta para simbolizar o meu renascimento através da morte do meu filho.

Leia Mais: ‘Sem bebê, sem acompanhante, sem mãe’: meu aborto espontâneo e a violência que nos desampara

Meu mundo caiu mais uma vez

Em 2023, vi meu mundo cair de novo. Engravidei depois de muita pressão do genitor, que de alguma forma sabia do risco disso acontecer, apesar de usarmos camisinha. Além disso, eu estava totalmente fora do meu período fértil, ao menos era o que o aplicativo indicava, mas vi que app nenhum é capaz de prever o corpo feminino, não o meu.

E, mais uma vez, precisei passar pelo processo de escolha. Nossa, como foi difícil ter que lidar com aquela dor enquanto ainda estava elaborando os traumas de um ano atrás.

O homem que se dizia sensível ao assunto, religioso, e tinha todo o suporte familiar (apesar do vício em álcool), me deu as costas e me bloqueou em tudo pouco depois do aborto. Naquele momento, eu ainda fazia exames de sangue a cada dois dias para confirmar que o Beta-hCG estava baixando e logo voltaria a zero.

“Nossa, mas o processo ainda não se encerrou? Acho que não tenho mais nada a fazer aqui”, disse ele, na pressa de viver um novo amor, enquanto mais uma vez eu precisava renascer através da morte.

Tatuei não só uma libélula (liberdade e transformação), mas também uma arruda — símbolo da luta pela descriminalização do aborto no meu país, o Brasil. Se com todo o suporte profissional e de amigas (sim, mulheres) foi tão difícil e dolorido, imagina ter que fazer isso clandestinamente e sozinha?

Leia Mais: A criminalização do aborto também afeta quem sofre com aborto retido e espontâneo

Uma nova falha do método e a minha vida em risco

Em 2024, após poucos meses vivendo um relacionamento mais estável e maduro, me vi na sala da médica totalmente surpresa, recebendo o resultado positivo de gravidez. Eu estava investigando e tratando uma infecção urinária há algumas semanas. Mais uma vez o método contraceptivo falhou, e eu estava indo para a emergência da maternidade em que fui em 2022 e implorei pra não voltar em 2023. 

Fui internada imediatamente porque corria risco de morte. Quanta ironia! Mais uma vez, eu morria por dentro. Depois de dias em uma ala onde iam e vinham mães perdendo seus bebês, fui pra mesa de cirurgia para evitar que eu perdesse minha vida. 

Um tempo após constatar uma gravidez que não evoluiu – por motivos comuns, segundo os médicos -, fiquei me questionando, por semanas, meses, o porquê de tudo aquilo. “De novo? O que não aprendi ainda?”

O cogenitor esteve ao meu lado da melhor maneira que pode, apesar de pouco entender sobre os processos. Só por admitir o desconhecimento e estar ao meu lado em silêncio, de mãos dadas, me ajudou muito. E eu jamais vou esquecer disso!

Meus pais souberam pela primeira vez de uma gravidez minha, devido à gravidade do meu quadro. Eles viram a minha vulnerabilidade e até hoje não tocam no assunto, pelo tabu e por ser um tema tão doloroso na sociedade em que vivemos.

Uma cicatriz me lembra dessa perda todos os dias

Não precisei tatuar nada desta vez, a cicatriz da cirurgia na minha barriga me lembra todos os dias da minha história. Me lembra de mais um filho que não tive, sem ao menos poder escolher. Seria karma?

Ainda hoje me questiono, me culpo, e elaboro com muita terapia. Já precisei de medicação psiquiátrica e tudo mais que se pode imaginar. Tudo isso para renascer e ter dentro de mim, hoje, aos 36 anos, a quase certeza de que não serei mãe da forma tradicional. Meu relógio biológico apita, mas minhas dores gritam muito mais alto.

Para quem um dia achar que a decisão sobre abortar é simplista, deixo o meu “sinto muito, mas não é!” Na nossa sociedade machista e moralista (esse moralismo também está em nós), onde a maternidade é exaltada como divina e bela, pouquíssimas pessoas entenderão o peso dessa escolha. Que é subjetiva, única, intransferível e cheia de consequências que a mulher, somente ela, carregará pro resto da sua vida.

Na minha opinião, mulheres que decidem fazer um aborto, qualquer que seja o motivo, merecem e podem, sim, precisar do mesmo apoio e acolhimento daquelas que sofreram um aborto espontâneo.

Eu te vejo e compreendo sua dor! Não importam a sua escolha e o seu processo. Em algum lugar do mundo, há uma mulher em mim que chora por todas nós e tenta, por meio desse texto, fazer da minha dor algo bonito — dar força a outras mulheres. Você não está sozinha!

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Faça parte dessa luta agora

Tudo que AzMina faz é gratuito e acessível para mulheres e meninas que precisam do jornalismo que luta pelos nossos direitos. Se você leu ou assistiu essa reportagem hoje, é porque nossa equipe trabalhou por semanas para produzir um conteúdo que você não vai encontrar em nenhum outro veículo, como a gente faz. Para continuar, AzMina precisa da sua doação.   

APOIE HOJE