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27 de janeiro de 2020

Em vez de compartilhar notícias sobre abstinência sexual, indique Sex Education

Nesse cenário em que se incentiva o silêncio, vá na contramão e indique a série que ajuda os jovens a aprenderem e conversarem sobre sexualidade

Eu não tive aulas de educação sexual na escola, nem na infância, nem na adolescência. Algo bem parecido com o que vivem os jovens de hoje e que viverão pelos próximos anos, pelo visto. Acho que a primeira vez que ouvi a palavra clitóris foi com mais de 20 anos. Entender o conceito de consentimento, então… Só com quase 30. Isso não quer dizer que eu deixei de transar ou ter uma vida sexual ativa, muito pelo contrário. 

Com tanta desinformação, comecei minha vida sexual sem saber direito o que estava fazendo, sem conhecer meu corpo, meus limites e até meus direitos. Muita coisa não foi legal nesse caminho. E devo dizer: só não engravidei fora de hora por sorte, como muita gente que conheço. 

Claro que vendo a segunda temporada da série Sex Education, bem na semana em que a ministra Damares falava em tornar a abstinência sexual e a supressão de informação como política pública para jovens, eu só conseguia pensar: que alívio que existe uma TV que educa pra cobrir o vácuo deixado pelas escolas, famílias e pelo governo. 

Triste, né?

Se as coisas corressem bem, a ficção seria só um complemento, uma provocação que ajudaria pais e professores a trazerem temas para a mesa e puxarem as discussões. Mas do jeito que o Brasil – e o mundo – está, esse tipo de série passa a ser essencial. 

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No meio dos dramas de romances e amizades adolescentes, a série insere uma infinidade de debates essenciais sobre sexualidade, que os adolescentes (e não só eles) precisam acessar de alguma forma. Infecções sexualmente transmissíveis, consentimento, orientação sexual, masturbação, anatomia, fetiches… Tudo isso aparece ali no meio, naturalmente, enquanto fulaninho sofre de amor, ou ciclaninho tem dramas com a escola. 

A série não é uma aula. Os assuntos estão bem inseridos na história e vão surgindo de maneira divertida, mostrando inclusive o quanto sexualidade é uma coisa ampla, complexa e cheia de nuances. É normal ficar confusa, é normal ter vergonha, é normal um monte de coisas. Mas nem tudo é normal: preconceito, violência e abuso, por exemplo, não são.

Que mulher, assistindo, não se identificou e não se emocionou com a trajetória de Aimee? Ou como não é ótimo ver na tela vários personagens se entendendo bissexuais e tudo bem? 

É um retrato bem realista de sexualidade, sem tabu e sem vergonha. E também bem realista do mundo – tem gente de tudo quanto é etnia, de tudo quanto é orientação sexual, de tudo quanto é estilo. E toda essa diversidade aparece naturalmente, simplesmente está lá, entre todos aqueles personagens.

Mas acho que o mais bonito mesmo é como a trama acaba trazendo várias vezes uma solução bem simples para os dilemas sexuais dos adolescentes: na dúvida, pergunte. 

Acha que manda mal na dedada e sua namorada não está gostando? Pergunte a ela como gostaria. Quer fazer sexo anal, mas não sabe fazer a chuca? Pergunte para o seu namorado como fazer. 

Achei isso bonito. Porque no geral somos educados a não falar sobre sexo, a ter vergonha de tocar nos assuntos, e ficamos nos achismos e deduções, sempre com grandes chances de falha. E em um cenário como o atual, em que todo o incentivo é para o silêncio, fica mais lindo ainda que se incentive os jovens a conversarem. 

Então, faço uma sugestão: nos próximos dias, toda vez que tiver vontade de compartilhar uma notícia falando algum despropério sobre a política de abstinência sexual de Damares , contenha essa vontade de dar mais voz ao absurdo, e mande no lugar o link da série. Quem sabe assim você não ajuda mais adolescentes a chegarem até ela, levando informação no lugar de desespero?

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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