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10 de maio de 2021

Quantas vezes você já pediu desculpas por ser você?

Ter uma boa base emocional pode ajudar a resgatar nossa essência
desculpas
“Criei a expressão ʽVai lá e Shonda Rhimesʼ, uso comigo e com amigas quando quero dizer: vai lá e arrasa, vai lá e enfrenta com coragem”

Dia desses, rolando o feed do Instagram, vi a postagem de uma figura pública pedindo desculpas para a audiência por estar falando sobre cinema. Era domingo de Oscar e ela estava contando o porquê de ter gostado de determinado filme da competição, uma mulher que comumente produz críticas interessantes. Achei algo tão habitual, escrever o que se pensa numa rede social, que não entendi o motivo dela se desculpar antes mesmo de emitir a opinião. Fiquei tão espantada por ser uma mulher com mais de 60 anos, reconhecida nacionalmente pelo trabalho intelectual, etc., que imediatamente percebi como isso tomou um aspecto ʽnaturalʼ, em especial, para nós mulheres: pedir desculpas por sermos nós mesmas.

Não só natural como extremamente prejudicial para o nosso emocional, psicológico e físico. E desde quando o patriarcado misógino, racista e homofóbico quer nos ver seguras e insubmissas?  A historiadora Silvia Federici há anos pesquisa e se debruça sobre a temática da violência contra as mulheres, suas origens e de que maneira somam-se novas e perversas formas de exploração. Continuamos sendo acusadas, presas, perseguidas e brutalmente mortas diariamente. 

Se para nós foi imposto o papel da bruxa (termo pejorativo criado no século 16 por quem as perseguia e não pelas próprias mulheres), pois a caça à essa figura simbolizava o medo do poder das mulheres,  ainda  hoje queimamos nas fogueiras através da demonização da sexualidade feminina, a repressão dos nossos corpos e desejos (colocados a serviço da satisfação sexual e social masculina), das dúvidas acerca de nossas potencialidades e na desvalorização do sentir, algo vinculado unicamente a energia feminina (Yin, na filosofia chinesa que é indissociável do Yang). 

“A caça às bruxas instituiu um regime de terror contra todas as mulheres, do qual emergiu um novo modelo de feminilidade a que as mulheres tiveram de se conformar para serem socialmente aceitas durante o desenvolvimento da sociedade capitalista: a feminilidade assexuada, obediente, submissa, resignada à subordinação ao mundo masculino, aceitando como natural o confinamento a uma esfera de atividades que foram completamente depreciadas no capitalismo”, escreveu Federici. 

Trazendo à baila esse breve resgate histórico, sem esquecer que o período da escravidão marcou mulheres negras e indígenas como corpos desprezíveis de cuidado, afeto e direitos, fica evidente que é preciso uma forte mobilização para que a gente tenha consciência do nosso próprio valor como ser humano. Nas palavras de Audre Lorde, “Em um mundo de possibilidades para todas nós, nossas visões pessoais ajudam a estabelecer as bases para a ação política”. 

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O movimento feminista atual dá conta disso? Para onde somos direcionadas quando nos unimos politicamente? Um feminismo munido de arrogância acadêmica, que utiliza palavras difíceis e não envolve as particularidades de mulheres não brancas, trans, lésbicas, orientais, deficientes, gordas, pobres, mulçumanas… Esse feminismo estimula nossa autenticidade ou escolhe desviar da pluralidade que nos torna únicas e, de certa maneira, reverbera a opressão que nos faz pedir desculpas todas as vezes que não cumprimos o que a sociedade espera da gente?

Olhando para as gerações anteriores na própria família, quantas mulheres foram silenciadas e tratadas como invisíveis dentro de casa, às vezes por uma questão de sobrevivência, enquanto criavam os filhos e cuidavam da rotina domiciliar para que os parceiros seguissem com a função de provedores? Sem falar das muitas famílias de mães solo que se viravam como podiam para conciliar as demandas. Alguns aspectos mudaram sim, porém seguimos com dificuldades para romper as amarras socias, familiares, econômicas e psicológicas que nos impossibilitam de assumir a mulher fenomenal (benção Maya Angelou), humana e possível, que existe em cada uma de nós. 

Vai lá e Shonda Rhimes!

As séries norte-americanas Grey´s Anatomy, Scandal e How to Get Away With Murder têm em comum o nome Shonda Rhimes por trás da criação e produção executiva. Shonda é uma mulher negra, roteirista, dona da produtora ShondaLand, milionária e como a própria se intitula, PUD: primeira, única e diferente. Recentemente li ʽO ano em que disse simʼ, seu bestseller que revela um pouco do processo criativo e algumas de suas vulnerabilidades. Com aparência de autoajuda, o livro é mais um franco relato, muito bem escrito, do que uma receita de bolo para o sucesso pessoal; não acredito em fórmulas prontas e rígidas, recomendo qualquer leitura sempre com interpretação e pensamento crítico. 

Shonda passou mais de um ano dizendo sim para tudo, convites e situações que anteriormente a intimidavam. Ao relatar as experiências, ela narra como percebeu o quanto a autossabotagem prejudicava e o processo turbulento de mergulhar dentro si para se salvar e aplaudir seu verdadeiro eu. Se Grey’s Anatomy não tivesse tantas temporadas, eu toparia conhecer a personagem Cristina Yang, criada por Shonda e que revela muito do que ela gostaria de fazer na própria vida, mas não dava conta até então. 

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Quantas vezes nos sentimos inadequadas, infelizes e culpadas em variadas situações do cotidiano? Nos distanciamos, às vezes nem mesmo sabemos quem realmente somos, da nossa essência através das máscaras sociais (boazinha/salvadora/fodona) tentando nos encaixar em estereótipos, relações e espaços que nada tem a ver com a gente, e no fundo até sabemos que aquilo não faz sentido. Sufocamos nossas emoções e como consequência, a ginecologia emocional está aí para explicar, o corpo sente e podemos desencadear sérias questões psicológicas (depressão/fadiga crônica/síndrome do pânico/crises de ansiedade) e físicas. Ao terminar a leitura, criei a expressão ʽVai lá e Shonda Rhimesʼ, uso comigo e com amigas quando quero dizer: vai lá e arrasa, vai lá e enfrenta com coragem (dá para adaptar com nossos próprios nomes).

Desculpas para que(m) ?

O peso das instituições família & religião ainda moldam o comportamento, e até direcionam (ou impõem) caminhos específicos, de muitas pessoas. Estamos longe do que seria uma sociedade equilibrada emocionalmente e que aceita a escolha do próximo como algo intrínseco ao seu direito de existir e viver da forma que bem entender. Sem precisar dar satisfação ou ser submetido ao jugo moralista e repressor que tais núcleos costumeiramente se pautam. Construir uma boa base emocional na vida adulta para que a gente tenha mínimas condições de lidar saudavelmente com nossas emoções, amores e adversidades é, na minha compreensão, o básico necessário para acessar o amadurecimento e, talvez, as condições para bancar nossas escolhas reais. 

Aprendemos ainda na infância a anular a nossa subjetividade, desenvolvendo apego e controle, a fim de caber numa ideia atrapalhada de perfeição ou mesmo ʽo mundo ideal (nascer, crescer, casar, procriar, morrer)’ para que o outro nos aceite. Anos depois, algumas conseguem arregaçar as mangas e com muito trabalho, e terapia, nos (re)descobrimos como protagonistas de nossas histórias.

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Fácil? Não. Dá pra tentar? Sim.  Por mais solitário que seja o caminho do autoconhecimento, e precisamos dessa solitude, lembre-se que não estamos sozinhas. Rede de apoio, profissionais especializados e bons (seletos) amigos podem auxiliar. 

Para teórica bell hooks amor significa ação, então, nada melhor do que calibrar o nosso amor interior com práticas que possibilitem estar em paz e cada vez mais alimentadas de nós mesmas.  Não precisamos pedir desculpas por nada. Não peço desculpas por me amar e saber o meu valor, por fazer o que intuo ser melhor para mim, pelos meus gostos pessoais, por não tolerar abusos, pelas minhas opiniões e crenças, pela forma como me visto, por quem eu escolho me relacionar, pelas minhas particularidades que me tornam completa, por buscar a minha verdade (por mais que desagrade quem quer seja), por tomar iniciativas que me conectem com o que eu busco, por me afastar, por mudar, por estar aberta, por ir embora, por me escolher e por seu eu. 

Normalizem suas vidas, pessoal, escreveu Shonda Rhimes.  Normalizem também aceitar o que dão ou não conta de fazer, a Mulher Maravilha é uma fantasia. 

Temos tanto pavor da morte, e da tristeza de conviver com a saudade, porém nos anestesiamos por diferentes razões. Celebrar a vida em vida, com presença, é algo que nunca deveríamos esquecer. 

Ter orgulho, paciência e carinho, primeiro, com a gente, requer um preço a se pagar. 

A gente nunca vai estar só se nos encararmos como uma boa, fiel e segura companhia.

Ser leal à nossa intuição, sem pressa, sempre dançando ao sol.

Feminista decolonial, jornalista e ativista, Júlia sabe a importância de se afirmar como uma mulher negra. Consciência política também é se apropriar da própria narrativa, acolhendo ancestralidade e se abrindo para várias possibilidades, individuais e coletivas, no contexto de negritude. Seguidora leal dos ensinamentos de bell hooks e Lélia Gonzalez, a paulistana acredita que o mundo pode ser um lugar mais aprazível quando estamos munidas de amor-próprio, senso crítico, música e vontade diária de caminhar na contramão do pensamento patriarcal e capitalista.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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