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19 de outubro de 2020

Por que o feminismo pode nos ajudar a envelhecer em paz?

O compromisso pessoal e político com o feminismo pode nos aproximar da nossa verdadeira essência e dar um corte nas ideias etaristas e sexistas que insistem em nos assombrar

Sabe aquela listinha de “filmes preferidos” que a gente costuma fazer em determinado momento da vida? Então, o tempo passa e a forma como compreendemos o mundo, nossas necessidades e comportamentos se transformam. Já faz alguns meses que tenho feito o prazeroso exercício de rever algumas dessas produções elencadas por mim como “os melhores filmes”, e que na época me afetaram de alguma maneira.

Hoje, com um olhar e prática feminista, interseccional e decolonial, não tem como não traçar análises mais críticas do que quando eu era adolescente. Um simples sentar para reassistir clássicos como “Beleza Americana”, “Encontros e Desencontros”, “Forrest Gump” e “Casa Blanca” tem movimentado profundas reflexões; deixo registrada a minha saudade de ir ao cinema e depois sentar num restaurante ou bar com amigos para comentar o que se viu, aguardamos a vacina contra o Covid-19.

Final de semana maratonei a aclamada trilogia do diretor Francis Coppola “O Poderoso Chefão”, e não vou me estender aqui sobre as complexidades ali narradas numa ambientação extremamente masculina, hétero, cis e branca, mas o I e II integram até o momento minha listinha de favoritos. Depois da emoção de rever uma obra tão poderosa e observando com mais afinco o papel das personagens femininas, mirei numa notícia de bastidores que eu não tinha conhecimento até então: a atriz Diane Keaton e o protagonista Al Pacino iniciaram um romance durante as gravações e o envolvimento, entre idas e vindas, dizem que durou cerca de 20 anos.

Tanto Diane quanto Al Pacino nunca se casaram, e essa informação de que ele possivelmente seria um bon vivant hedonista, um homem que gosta de aproveitar a vida com liberdade, amigos e mulheres sempre rondou as grandes mídias sobre celebridades internacionais e isso, diante do machismo estrutural, nunca foi posto como algo pejorativo ou que não fosse natural do masculino, afinal, a eles é dado total direito de escolhas sem muito julgamento.

Fiquei curiosa e fiz uma breve pesquisa Google sobre a “solterice” de Diane, uma jovem senhora de 74 anos e mãe solo de dois filhos adotivos. Em todas as entrevistas é recorrente a pergunta “Por que você está sozinha?”, curiosidade que denota que possivelmente “falta algo” ou “tem alguma coisa errada com essa mulher que não conseguiu um marido”. Sabemos que a instituição casamento no tradicional molde cristão, opressivo e dependente não é garantia alguma de felicidade para nenhum dos lados.

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Nunca vi Al Pacino respondendo uma questão tão invasiva como essa, pois o patriarcado é livre de papas na língua e não poupa nem quem está próximo ao topo da pirâmide social como Keaton, uma mulher branca, cis, magra, rica, famosa e bem-sucedida. A razão de tal escolha só diz respeito a ela, entretanto é extremamente relevante o potencial do pensamento político feminista como algo que muitas mulheres brancas e de reconhecimento global poderiam ajudar (claro, se for de maneira sincera e consciente) a reverberar nos ambientes de grande alcance que elas ocupam.

A senhora Diane poderia ser esse ícone de talento, estilo e também aproveitar a fala como um lugar para exercer uma postura ativa contra o etarismo e todos os preconceitos e exclusões que somam no pacote.

Cabelos brancos & bell hooks 

Perante todos os privilégios elencados que Daiane Keaton possui, reflito se o “direito” de escolher estar só pode ser exercido pelas mulheres negras, indígenas, com deficiência, periféricas, gordas, lésbicas, transexuais, o “fora do padrão” aceitável pela nossa sociedade ou, se essa solitude (arrisco dizer que entre as minorias pode ser transformada em solidão, principalmente para as mais velhas), seria um preterimento natural imposto como “a única alternativa” para quem chega à casa dos 60 anos. 

O discurso mainstream da vez, e uso esse termo justamente pela possibilidade de ser algo raso, e na atual conjuntura de isolamento social, se abre para novos hábitos em relação à beleza e bem-estar feminino. Vemos cada vez mais mulheres de distintas gerações assumindo os fios brancos e estampando capas de revistas que se autointitulam “feministas” (sempre bom questionar tais publicações brasileiras que mantém na chefia apenas mulheres branca-padrão), só que me pergunto se essa autoaceitação por parte de muitas de nós é genuína (e para isso precisamos de processos de autoconhecimento que levam tempo), ou se surge camuflada como uma mercadoria efêmera que na próxima temporada será esquecida.

A provocação é justamente para que a nossa visão crítica e o senso de estar bem na própria pele sejam construídos dia após dia, para que seja possível romper de forma eficaz com todas as normas rigorosas pré-estabelecidas que a indústria da moda e beleza exigem e que às vezes, sem querer, a gente ajuda a disseminar. O ódio ao próprio corpo, aos traços naturais e de personalidade tão únicos que repreendemos em nós mesmas, precisam de atenção e de uma saudável e real autoconfiança.

Não sou contra os procedimentos estéticos ou certas tendências fashions, mas é bom se perguntar: isso faz sentido? Estou permitindo me enxergar sem as amarras patriarcais, sexistas e coloniais? Minha beleza está dentro e fora?

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A teórica bell hooks em seus livros costuma oferecer estratégias construtivas para mudança, todavia ressalta que a obsessão da nossa nação em julgar mulheres de todas as idades com base em aparência física não foi eliminada, ainda está arraigada em nossa imaginação cultural. “Criticar imagens sexistas sem oferecer alternativas é uma intervenção incompleta. A crítica em si não leva à mudança. De fato, muita crítica feminista à beleza somente deixou mulheres confusas quanto à escolha saudável que deveriam fazer. Como mulher de meia-idade que hoje engorda mais do que jamais engordei na vida, quero trabalhar para eliminar quilos sem aderir ao auto-ódio do corpo sexista para isso” escreve na publicação “O feminismo é para todo mundo, políticas arrebatadoras”.

bell, com seus 68 anos recém completados, acredita que a rígida rejeição feminista dos desejos femininos por beleza enfraqueceu as políticas do movimento. Ela relata que ainda que essa estética seja mais incomum, é frequentemente apresentada pela mídia de massa como a maneira de pensar das feministas. “Não seremos livres até que as feministas retornem à indústria da beleza, retornem à moda e criem uma revolução contínua e sustentável. Não saberemos como amar o corpo e a nós mesmas”. 

Ódio contra mulheres vs. envelhecer em paz

Recentemente tive acesso ao conteúdo pesquisado pela psicóloga e professora da UNB Valeska Zanello, responsável por um extenso estudo sobre o que se passa nos grupos de Whatsapp masculinos e que revela algo não tão inédito, porém escrachado e assustador: o alto grau de masculinidade nociva e a misógina que muitos homens alimentam entre si (Brasil é o 5º país no mundo que mais mata violentamente mulheres). O que Valeska concluiu foi que o tema mais recorrente nesses grupos é a objetificação sexual interseccionalizada em: lipofobia, o ódio à gordura, hipersexualização dos corpos negros e o etarismo, ódio à velhice. Ou seja, nesse julgamento somos descartáveis e nenhuma mulher tem valor, afinal todas vão envelhecer em algum momento. 

A psicóloga explica que esse comportamento asqueroso reproduzido por muitos homens vai de encontro com a metáfora que a própria nomeou de “prateleira do amor”, espaço onde nós mulheres estamos localizadas e temos nossa relação subjetiva medida por um homem que nos escolha. Parece piada, mas fomos todos educados para acreditar que os homens possuem a capacidade de nos avaliar fisicamente, psicologicamente, moralmente e espiritualmente, autorizados a julgar qual o valor e respeito que merecemos.

Se não cortarmos a raiz dessa erva daninha capaz de ferir e adoecer muitas mulheres (ginecologia emocional está aí para auxiliar na caminhada), vamos nos distanciar cada vez mais da mulher maravilhosa que podemos construir e ser. Uma breve notificação de que os homens precisam se curar (amadurecer) e isso é responsabilidade deles e não da companheira, fica a dica o documentário nacional “O silêncio dos homens”.  Nós somos muito prejudicadas com o patriarcado e o masculino não fica pra trás nesse quesito, homens como aliados são bem-vindos no feminismo. 

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Nosso compromisso pessoal e político deve ser primeiro com a nossa existência, não é egoísmo, é amor interior. Meu instinto de sobrevivência nesse mundo cão intui que para ser uma mulher inteira e que sente orgulho das escolhas e jornada trilhada, eu vou precisar me escolher ao invés de algo externo. E nessa “prateleira do amor” eu salto para o solo firme, pois não sou bibelô de ninguém que queira ter o controle da minha liberdade. 

Liberdade pra ser mulher, liberdade pra ser quem eu quiser e para envelhecer em paz. E isso é edificado inicialmente dentro de cada uma de nós. Sueli Carneiro me ensinou que nossa humanidade é inegociável.

Eu adoraria tomar um café com a Diane Keaton e conversar sobre as incríveis mulheres feministas que fazem parte das nossas vidas.

Feminista decolonial, jornalista e ativista, Júlia sabe a importância de se afirmar como uma mulher negra. Consciência política também é se apropriar da própria narrativa, acolhendo ancestralidade e se abrindo para várias possibilidades, individuais e coletivas, no contexto de negritude. Seguidora leal dos ensinamentos de bell hooks e Lélia Gonzalez, a paulistana acredita que o mundo pode ser um lugar mais aprazível quando estamos munidas de amor-próprio, senso crítico, música e vontade diária de caminhar na contramão do pensamento patriarcal e capitalista.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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