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Giulia Santos
4 de abril de 2025

Eu não sou só um corpo grávido

“Eu amo meu bebê... O que incomoda é como as pessoas me tratam, como se houvesse uma regra que dita o que posso ou não fazer, como devo ou não me sentir”

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colagem digital mostra mulher grávida de perfil, enquanto outras duas mulheres olham para ela e parecem falar sobre ela

Descobri que estava grávida e, de repente, parecia que meu nome tinha sido apagado. Meu rosto, minha história, minhas vontades, nada disso importava mais. Eu era só “a grávida”.

Saí para encontrar alguns amigos. Eles estavam com outras pessoas, e achei que seria um bom momento para relaxar. Mas assim que cheguei, começaram os sussurros, as risadas, os olhares. E, pior, os gritos. “Grávida, grávida, grávida!”. Me senti uma atração de circo.

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Feminismo bem informado

Tentei ignorar, fingir que não ligava. Mas a verdade é que estou sensível. É como se, desde que soube da gravidez, o mundo tivesse decidido que minha única identidade agora é essa. Antes de mim, vem a barriga. Antes do meu nome, vem o rótulo.

Por mais que eu tente seguir a vida normalmente, sinto que tudo ao meu redor mudou. Não porque eu mudei, mas porque as pessoas mudaram a forma como me enxergam. Meu corpo, que sempre foi meu, agora parece público. Meu espaço, que sempre foi meu, agora é invadido por olhares, perguntas e suposições.

Regras invisíveis

Teve um momento da noite em que estava dançando, curtindo o show, tentando me distrair. Pela primeira vez naquela noite, eu me senti bem. Mas, de repente, me pegaram pelo braço e me afastaram, me colocaram de lado, como se eu não pertencesse mais ali. Como se, por estar grávida, eu não pudesse mais fazer parte daquele espaço. E o simples ato de existir e me divertir fosse um problema para os outros.

Me senti limitada, parecia que a gravidez tinha me tirado o direito de me divertir, de estar presente, de fazer as coisas que gosto. De alguma forma, eu devo me encaixar em um papel que os outros decidiram para mim.

A gravidez não me incomoda. Eu amo meu bebê, sei que minha vida está mudando, e estou pronta para isso. O que me incomoda é a forma como as pessoas me tratam, como se agora houvesse uma regra invisível que dita o que posso ou não fazer, como devo ou não me sentir.

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Um corpo carregando outro

Antes, eu era vista como alguém com sonhos, vontades, opiniões. Agora, sou apenas como um corpo carregando outro corpo. As pessoas comentam sobre mim como se eu não estivesse ali, e minha existência tivesse sido reduzida a uma fase, a uma condição. Como se eu não fosse mais dona de mim mesma.

Sinto que minha identidade foi arrancada de mim. Mas eu sou mais do que isso. Eu sou mais do que uma barriga crescendo. Eu sou mais do que os olhares curiosos, os comentários invasivos, os risos abafados. Eu sou mais do que a preocupação alheia sobre o que devo comer, vestir ou fazer.

Eu ainda sou eu. Ainda sou a pessoa que ri alto, que gosta de dançar, que ama estar cercada de amigos. Ainda sou a pessoa que sonha, que sente, que vive.

Eu não sou só uma grávida.

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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