logo AzMina

Antirracismo é prática diária, quais são as suas?

por Júlia de Miranda
3 de junho de 2020
Uma boa estratégia das manifestações dos EUA que pode ser aplicada aqui é a do cordão humano feito por pessoas brancas somando na luta antirracista. Topam?
práticas antirracistas
Manifestação em São Paulo contra o genocídio da população negra (Foto: Júlia Nagle)

Em meio à pandemia de covid-19, protestos contra o racismo e a brutal violência policial levaram milhares de manifestantes às ruas dos Estados Unidos.  O momento pede ação, não há mais possibilidade de mediação racial da forma como se apresenta a conjuntura. Acompanhamos por meio da hashtag #blacklivesmatter vídeos e fotografias que carregam não só a força imagética, mas também narrativas negras norte-americanas que têm como gatilho a violência contra a população que compõe 13,4% do país. 

Nos últimos dias, pelo menos 40 cidades impuseram toque de recolher (entre elas Chicago, Los Angeles e a capital Washington), num país que se mantinha até então em quarentena diante dos mais de 100 mil mortos pelo coronavírus. O assassinato, filmado, do segurança George Floyd, homem negro asfixiado covardemente por um policial branco (imobilizado com a ajuda de outros agentes) em Minneapolis, está balançando as estruturas de um território com histórico racista datado de séculos.

A revolta dos manifestantes que ocupam as ruas de todo país aponta para a falta de controle das autoridades locais diante da insurgência do povo (negros, não-brancos e brancos) que não estão mais dispostos a tolerar (negres nunca aceitaram) a estrutura genocida que mata vidas negras, vítimas de uma necropolítica (conceito do filósofo camaronês Achille Mbembe que define o conjunto de políticas de controle social que o Estado usa para definir quem vive e quem morre) vigente nos EUA e também por aqui. 

O caso de Floyd foi mais um de uma longa lista de negros mortos pela polícia durante abordagens violentas. Em 2014, o assassinato de Eric Garner em Nova York parou o país e deu origem ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), em ação que se tornou a maior articulação política dos negros norte-americanos da atualidade. 

Política que desvaloriza vidas negras

Thiago Amparo, advogado e professor da FGV, explica que tais atitudes da polícia não são somente um desvio de conduta, mas a reencarnação da própria função de controle social para as quais as polícias foram criadas. A gênesis de tal sistema está relacionada com a escravidão tanto nos EUA quanto no Brasil. 

Estamos falando de um racismo estrutural presente no modo de atuação da polícia que causa a desvalorização de vidas negras e o controle ostensivo e forte, em territórios periféricos, uma nítida abordagem agressiva quando se trata desta população. 

Somos educados para acreditar que pessoas negras são criminosas, essa é a verdade. Homens negros, e pessoas negras em geral, são representados excessivamente nos noticiários, e fora deles, como criminosos. Em nossas terras tupis contabilizamos a morte de 1 negro a cada 23 minutos (dados da ONU), um genocídio em curso e que só se aprofunda: o assassinato de jovens negros cresceu 429% em 20 anos, mostra estudo da Fundação Abrinq do ano passado, baseado em dados do Ministério da Saúde.

Leia mais: A raiva das mulheres negras: a energia que move nosso ativismo

O movimento negro e ativistas dos direitos humanos denunciam essa realidade desde sempre no Brasil. Manifestantes saíram às ruas em protesto pela violenta morte do adolescente João Pedro e de tantas outras crianças negras e periféricas que foram mortas em operações policiais: Kauê, Kauã, Kauan, Jenifer, Ágatha, Ketellen – a lista é grande. 

O Brasil aparece no ranking da ONU como o sétimo país mais desigual do mundo e, no quesito raça e classe, são os corpos negros que compõem a lista dos mais pobres, encarcerados, mortos e analfabetos. A elite (branca) brasileira ainda hoje tenta nos negar todo e qualquer direito, por isso a caminhada é complexa. 

Como diz a filósofa Djamila Ribeiro: “Tá na hora do Brazil com Z conhecer o Brasil com S” e finalmente tomar coragem de mexer na ferida da escravidão, ainda aberta, sabendo dos incômodos, dores e mudanças de privilégios que isso irá gerar. A sociedade brasileira está disposta a fazer esse debate e discutir os privilégios de raça, gênero e classe que sustentam as desigualdades desse país? 

Estratégias de resistência

Essa realidade une as forças de luta do movimento negro brasileiro ao norte-americano no enfrentamento ao racismo. Temos diferenças históricas de características e trajetórias (lá a população negra é minoria e aqui é 56%, por exemplo), mas isso nunca nos dividiu, pelo contrário, trocamos experiências e estratégias de resistência. 

A historiadora Raquel Barreto nos lembra que a maior experiência de liberdade e insubordinação negra nas Américas foi no Brasil e chamava-se Quilombo dos Palmares. 

Temos um objetivo em comum, ainda que tenhamos histórias e culturas distintas – e isso deve ser levado em conta nas nossas estratégias de guerrilha. Sabiam que o Brasil é o país que mais mata ativista? Pois é, o buraco é muito mais embaixo. 

Leia mais: Autocuidado como prática revolucionária – ainda mais no caos

Agora, o bom exemplo de estratégia que pode ser aplicada nas nossas manifestações é o cordão humano, ou escudo, feito por pessoas brancas somando na luta antirracista. Topam? Tá na hora de colocar a mão na massa porque antirracismo é prática diária, quais são as suas?

E cara gente branca, não fiquem na espera de que nós vamos ensinar “como ser um bom aliado”, não é nossa obrigação educar vocês. Estudem, ouçam o movimento negro, leiam pensadores e intelectuais negros, ouçam artistas negros, conheçam as histórias dos líderes e abolicionistas negros. Optem por sair da zona de conforto. Lembrem-se que quem fica neutro em situações de injustiça escolhe o lado do opressor. 

VIDAS NEGRAS E PERIFÉRICAS IMPORTAM! 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente, já ganhou prêmios e tem mais de quatro anos de impacto na vida de milhares de mulheres. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo sério e responsável que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e livre para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

Apoie o jornalismo em defesa da mulher