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15 de abril de 2021

O que revela a exclusão de mulheres na Mostra de Música Instrumental Paulista

Mulheres ficaram de fora da programação da Mostra de Música Instrumental Paulista em 2021 - e não são poucas as exímias instrumentistas no estado

por Paola Gibram*

Nesta semana houve uma polêmica em torno de uma “Mostra de música instrumental paulista” da qual foram excluídas todas as mulheres desta cena – e olha que não são poucas as exímias instrumentistas no estado. A majoritária presença de homens brancos, cis e privilegiados em uma mostra instrumental fomentada por dinheiro público suscitou um barulho nas redes sociais, mas também a reflexão sobre outras forma de exclusão aí embricadas. 

Diante da questão básica – não incluir mulheres em um evento musical em pleno ano 2021?! – também fiquei pensando sobre outras exclusões que considero de igual importância. Questionei, por exemplo, sobre a ausência de pessoas não brancas (neste caso, com algumas poucas exceções), não hétero, não cis, bem como a predominância de pessoas de uma classe social mais privilegiada – sem querer com isso dizer que todos ali tenham grana, estou falando de um padrão geral. 

Assim, pensando sobre o que define quem tem acesso a este e outros fazeres musicais e artísticos contemporâneos, pergunto: seria a técnica, o acesso à técnica e a possibilidade de exercer por muitas horas essa técnica o que define quem pode estar nos meios de música instrumental brasileira? Para muitas pessoas, em sua maioria homens que responderam às reclamações, este filtro seria algo natural, o que escancara o quanto uma crença em meritocracia e em parâmetros estabelecidos a partir da tecnocracia oprimem discretamente – mas já não tanto – todos os grupos de pessoas que não se encaixam neste padrão. 

Houve tentativa de deslegitimar as críticas a partir de argumentos como estes: de que é preciso estudar para se atingir um tal nível. Outros rebatimentos ecoaram no sentido de que “a arte já está tão fragilizada neste contexto atual, ser músico/artista no Brasil é tão difícil, não vamos criticar o que já está pendenga”‘. Isso tudo me fez, por sua vez, pensar no paralelo com a crítica que ocorre constantemente dentro das universidades públicas. 

Sabemos que o acesso às universidades públicas sempre foi definido pela meritocracia: até pouco tempo, entrava numa faculdade de medicina, direito ou engenharia – os cursos mais disputados, mas estendo a lógica, em outras medidas, a todos os cursos das universidades públicas – apenas quem podia se dedicar por muitas horas a seus estudos, quem teve acesso a escolas particulares, quem não precisava trabalhar ou ajudar familiares. A meritocracia criou um padrão de universidade branco e elitista. 

A questão da presença das mulheres tanto nas vagas estudantis como docentes coincidiu com os movimentos emancipatórios das mulheres, sobretudo dos anos 1960 e 70 (amigos da Mostra Instrumental, vocês estão, no mínimo, atrasados!). Mais recentemente, após os anos de governo do PT e muita luta estudantil, as universidades começaram a se reestruturar por programas de cotas e ações afirmativas. Programas que ocorreram após muita crítica, debate, enfrentamento e desconstrução. 

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A universidade pública está sempre prestes a implodir e é isso, justamente, que faz ela ser um lugar interessante, pois faz com que o conhecimento não fique estagnado em seus corolários, tradições colonialistas, círculos ecumênicos. Ainda que esteja sucateada pelo governo, ela não pode existir sem essas críticas. Deixaria de fazer sentido. 

Volto agora à música e às artes. Justamente estes momentos difíceis acabam sendo também propícios para a auto-implosão. Apesar de nós, mulheres instrumentistas, estarmos cansadas de nos repetirmos – afinal, não é a primeira vez que nos deparamos com este problema e o expomos aos quatro ventos – novamente foi afirmado que não será mais aceito sermos excluídas dos eventos de música. Aliás, a Mostra ficou muito mais conhecida pelas críticas e rebuliço das redes do que pelas apresentações musicais em si. 

Mas a crítica não pode parar, amigas, amigos, amigues. A música, as artes, assim como a universidade, precisam estar sempre em expansão, senão perdem seu sentido também. Que tipo de fazer musical é esse que define seus pares apenas por aqueles que conseguem atingir certo nível de técnica? Por aqueles que conseguem se dedicar por muitas horas a um instrumento, sem ser preciso que cuidem da casa, que trabalhem fora para sustentar a família, que tenham acesso a boas escolas de música? 

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A tecnocracia, para os fazeres musicais, soa para mim idêntica à meritocracia nas universidades – define padrões dominantes, exclui outras formas de fazer música, outras formas de pensamento e expressão. Será que estamos prontes para conversar sobre isso? Acho que muita gente já pensa, mas eu aproveito os momentos críticos no que eles têm de melhor – que é o abalo das estruturas para poder falar em transformação. E isso, caros amigos, as minas são muito boas em fazer.

*Paola Gibram é antropóloga, musicista e mãe. Tem formação em Ciências Sociais, mestrado em Antropologia Social pela UFSC e doutorado em finalização na mesma área pela USP. É autora de livro e artigos acadêmicos e atua como assessora e militante junto a coletivos indígenas da região Sul e Sudeste há 15 anos. Integra, como instrumentista, diversos  grupos de música popular brasileira na cidade de São Paulo, com os quais se apresentava constantemente antes da pandemia.  

Luisa Toller é musicista, educadora, colunista da Revista Azmina e mãe militante. Tem formação pela Unicamp e um mestrado sobre música e gênero concluído em 2018 na Eca-USP. É tricampeã do concurso de marchinhas Nois Trupica Mais Não Cai com composições feministas que viralizaram com webhits. Já desenvolveu atividades pedagógicas sobre desconstrução de estereótipos de gênero na Graded School, participou de mesas e palestras na Caixa Cultural, semana Delas na faculdade arquitetura da Mackenzie SP, comunicação da Puc-SP, jornalismo na UNB, Instituto Ruth Cardoso e na editora SM Educação. Além disso integra os grupos Meia Dúzia de 3 ou 4, Vozeiral e Bolerinho.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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