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11 de outubro de 2018

Mulheres na arte e a maldição do ‘isso deve ter dedo do seu namorado’

Eu e tantas outras mulheres já tivemos autorias questionadas, confundidas e até mesmo destinadas a outros homens
Crédito: Beatriz Calil

Caras leitoras (e leitores), desculpem minha ausência, estive concluindo um mestrado.

E como já comecei o texto em clima de divã, introduzo o tema da vez com uma história pessoal: era 2007, eu cursava o segundo semestre de música na Unicamp e colegas me chamaram para dirigir um show. No dia da apresentação, um arranjo que fiz de “Berimbau” (de Baden Powell e Vinícius de Moraes) agradou tanto um amigo que seu elogio foi “isso deve ter dedo do seu namorado”.

Me lembrei deste fato recentemente ao receber em minha casa o livro “Pequeno Guia de Incríveis Artistas Mulheres (que sempre foram consideradas menos importantes que seus maridos)”, da Beatriz Calil (editora Urutau).

Li o título e antes mesmo de abrir o livro, uma coisa me pegou: eu, mulher artista em 2018, tenho essa e tantas outras histórias em que minhas autorias foram questionadas, confundidas ou até mesmo destinadas a outros homens.

Antes de culpar aquele amigo por ter elogiado meu arranjo daquela forma – e tantas outras pessoas que já fizeram algo parecido – penso que uma coisa é fato:

um histórico de apagamentos existe e persiste, e questiono: o que fazemos para mudá-lo?

Paremos um pouco para pensar quantas mulheres pintoras, escultoras, dramaturgas, escritoras e compositoras conhecemos. E ainda: a quantas destas ainda nos referimos como “mulher/amante/irmã/filha/mãe de fulano”?

Lançado há três meses, a capa do guia de Beatriz Calil é provocativo: apaga as imagens dos homens artistas com quem essas mulheres se relacionaram e as coloca em evidência.

 

 

Assim, podemos saber de onde são, que formação e trajetória tiveram e conhecer algumas de suas obras.

Camille Claudel, Zelda Fitzgerald, Françoise Gilot, Jeanne-Claude, Lee Krasner, Dorothea Tanning e Gabriele Munter estão nas páginas – entre outras.

Deu curiosidade?

Não pretendo resumir tais histórias aqui, pois acredito que a pesquisa é um ótimo caminho para a assimilação de um novo conteúdo.

Por isso, pensei em sugerir: busquem na internet.

Mas esse spoiler eu vou dar:

 

Como despatriarcalizar os algoritmos?

Comecemos pelas nossas cabeças.

Sorte para nós.

PS: aproveitando o tema, fizemos uma playlist só de compositoras latino-americanas do século 20. Se liga:

 

Luisa Toller é musicista, educadora, colunista da Revista Azmina e mãe militante. Tem formação pela Unicamp e um mestrado sobre música e gênero concluído em 2018 na Eca-USP. É tricampeã do concurso de marchinhas Nois Trupica Mais Não Cai com composições feministas que viralizaram com webhits. Já desenvolveu atividades pedagógicas sobre desconstrução de estereótipos de gênero na Graded School, participou de mesas e palestras na Caixa Cultural, semana Delas na faculdade arquitetura da Mackenzie SP, comunicação da Puc-SP, jornalismo na UNB, Instituto Ruth Cardoso e na editora SM Educação. Além disso integra os grupos Meia Dúzia de 3 ou 4, Vozeiral e Bolerinho.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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