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22 de fevereiro de 2021

Dilema eterno de uma mãe sem descanso

Não sabe o que fazer quando a cria dorme? Você não está louca, está sobrecarregada

Cuidar de um bebê é extenuante duma tal maneira, que parece que você se acostuma a não ter mais nem 5 minutos livres. Quando a adorável criaturinha que você mais ama no mundo fi-nal-men-te dorme – especialmente quando isso acontece fora de hora ou por alguns minutos a mais que o habitual –, você pode se pegar andando dum lado pro outro sem saber o que fazer ou até estressada, por não conseguir decidir como aproveitar esse precioso tempo de paz da melhor forma possível.

“Ufa! Dormiu! Vou aproveitar pra arrumar as roupas dela, que a cômoda tá o caos! Não… Posso fazer isso enquanto olho ela brincando com aqueles negócios de encaixar. Vou aproveitar pra arrumar meu armário, o que não dá pra fazer com ela junto, porque ela puxa tudo pra fora dos cabides. Ah! Mas eu só faço tarefas domésticas! Vou aproveitar esse tempo pra mim, fazer aquela bendita esfoliação no rosto! Não… Não tô afim de fazer isso agora. Já sei! Vou assistir àquela nova série que quero ver há tempos! Ai, que fútil! Só falo de bebê e vejo série, preciso voltar a ler mais pra acordar este cérebro de lactonta*…”

Então, antes que você possa terminar o raciocínio, o bebê acorda e você quase – mas só quase mesmo, assim, de raspão – agradece por não ter mais que decidir o que fazer. Afinal, um bebê desassistido é sempre urgente e se sobrepõe a tudo. 

Sua vida tá no modo sobrevivência. Dá até vontade de fazer um discurso fodão pras amigas que planejam ser mães: “ouçam a voz da experiência… Escolha enquanto ainda pode, porque depois que o bebê nasce, você não tem mais escolha”. 

Mas você sabe que não é bem assim. Primeiro, porque quem disse que é a mãe quem sempre tem que se responsabilizar mais pelos cuidados do bebê? (Só que na prática, pra maioria delas é assim, inclusive pra você, mesmo do alto dos seus anos de militância feminista). Segundo, porque, no fundo, você acha seu bebê tão maravilhoso, a melhor coisa que já te aconteceu, que não conseguiria convencer suas amigas a não serem mães. Ou conseguiria, mas não quer. Afinal, você precisa de mais gente que te entenda!

“Já sei! Vou aproveitar pra escrever esta brisa doida quando ela dormir de novo! Minha linda, eu te amo mais que tudo, mas você podia dormir um pouco mais, né? (Tipo umas 12 horas seguidas à noite, mais duas sonecas de 2 horas cada de dia). Vamo brincar de contar carneirinhos? Cadê a mulher maravilha quando a gente precisa dela?!”

*Expressão muito usada informalmente, na bolha materna que habito, pra se referir às dificuldades de concentração ou de memória que muitas mães enfrentam no período da amamentação, devido ao enorme gasto de energia com a lactação. Condição que é perfeitamente comum e desaparece gradualmente com a diminuição da demanda por parte do/a bebê – dizem, né? Ainda estou esperando meu cérebro de volta, mas acredito nas amigas mães mais experientes. Afinal, se não nelas, em quem vou acreditar?

Bruna é uma jornalista e escritora paulistana. Pesquisa literaturas e feminismos na USP e faz parte da coletiva Circular de Poesia Livre. Escreve desde que aprendeu a combinar as letras e publicou os livro de poesia “entranhamento” e “algo a declarar.;'”.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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