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6 de maio de 2021

Por que as mães reclamam?

Motivos para reclamar não faltam, fiz uma lista para que todo mundo entenda!
mães reclamam

Porque desde o momento em que descobrem que nascemos com vulva nos preparam para cuidar de outrem.

Porque quando entramos na vida adulta espera-se que encontremos um grande (e único) amor e façamos filhos, não sexo.

Porque quando queremos engravidar e não conseguimos, somos vistas com olhares de piedade como se fôssemos menos capazes. Porque os tratamentos são caros. 

Porque quando engravidamos e não queremos ser mães não temos nenhum direito assegurado para interromper a gestação ou até para entregarmos o bebê para adoção após o parto.

Porque quando queremos adotar encontramos equipes despreparadas e um sistema burocrático e moroso. 

Porque, se somos um casal de mães lésbicas, insistem em escolher apenas uma das mulheres para ser considerada “mãe”.

Porque quando engravidamos muitos parceiros desaparecem. Porque somos mais de 11 milhões de mães solo no Brasil e sofremos preconceito, além de faltarem políticas públicas que nos ofereçam uma rede de apoio real.

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Porque quando estamos grávidas e queremos ter acompanhamento pré natal, parto e pós parto respeitosos, são poucos os profissionais disponíveis e os valores cobrados não são acessíveis a grande parte da população.

Porque uma em cada quatro mulheres brasileiras que pariram sofreu violência obstétrica e não há nenhuma legislação federal sobre o tema (lembrando que o racismo estrutural faz com que mulheres negras sofram mais V.O.).

Porque se queremos amamentar também são poucos profissionais preparados e interessados em colaborar. Porque se não queremos amamentar somos consideradas egoístas ou desinformadas (lembrando que o “meu corpo minhas regras” vale pra tudo).

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Porque quando nos tornamos mães somos julgadas por TODAS as nossas escolhas (“neurótica”, “relaxada”, “consumista”, “desinformada”, “controladora”, “radical”, “apegada” e por aí vai) por amigos, pela família, pela vizinha, pelas pessoas que cruzamos na rua e às vezes por outras mães, afinal, fomos criadas para a competição. (Porque juntas somos um perigo)

Porque muitos desses julgamentos nos afetam, gerando a famosa culpa materna que nos persegue diariamente e faz com que nos sintamos mal pelo fato óbvio de que não podemos dar conta de tudo. 

Porque o cuidado diário de um bebê consome nossa saúde física e emocional absurdamente e quase ninguém vê. 

Leia mais: Um retrato das mães solo na pandemia

Porque raramente somos acolhidas na volta ao trabalho com a compreensão de que estamos nos separando do que foi nosso “único projeto de vida” por alguns meses (além do amor e da saudade). 

Porque se queremos continuar amamentando, mais uma vez, somos julgadas por chefes, colegas e familiares. 

Porque muitas de nós decidimos empreender para conseguir dividir melhor o tempo entre as crias, a casa e o trabalho. E porque ser chefe, contadora, coordenadora de comunicação, criadora de conteúdo e operária nas poucas horas em que conseguimos trabalhar é impossível.

Porque diariamente as mulheres fazem 4 vezes mais tarefas domésticas que os homens.  Porque sempre estivemos exaustas com a falta de parceria e divisão dessas tarefas. Quando há uma criança ou mais em casa o trabalho aumenta e a desigualdade também. Porque estamos cansadas de planejar as compras do mercado e decidir o que todas vão comer durante a semana. Porque não aguentamos mais lavar a maior parte (quando não toda) da louça. Porque faxinar dá trabalho e manter a casa limpa e arrumada não é nossa obrigação. Porque quando temos parceiros que dividem essas tarefas parece que somos sortudas, mas ainda falta se preocupar com a escolha da escola, pediatra, dentista, oftalmologista, vacinas, cortar unhas, cabelo, comprar sapato, ver pijama quentinho pro inverno. 

Porque as redes sociais das mães são cheias de informações sobre saúde, desenvolvimento, brincadeiras, educação, nutrição e receitas. Queremos parceiros envolvidos em tudo isso. E queremos nossos interesses pessoais de volta. 

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Porque o ensino público segue sendo sucateado. Porque acham o suficiente para o desenvolvimento de bebês que as creches sejam em prédios fechados com brinquedos de plástico e comidas cheias de açúcar (se é “de graça” não reclame!). Porque desviam dinheiro de merenda escolar e até mesmo do aluguel desses espaços para as creches. Porque as pautas voltadas para primeira infância não são prioridade. Porque diversos parquinhos e praças públicas estão abandonados e sem manutenção. Porque os profissionais da educação são mal pagos e desvalorizados, quando na verdade estão também sobrecarregados com turmas grandes.

Porque as crianças sempre são vistas como “o futuro” e nunca como “o agora” (precisamos urgentemente tratar as crianças como sujeitos).

Porque acolher frustrações e ensinar limites para nossos filhos e filhas é muito desafiador. 

Porque quando somos mães de crianças com alguma deficiência percebemos o quanto falta para termos políticas e educação inclusivas de fato. 

Porque nossas crianças e adolescentes LGBTQIA + existem e merecem respeito. 

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Porque nós, mães de crianças e adolescentes negros, queremos poder viver sem medo de perdê-los nesse país onde o racismo mata. 

Porque estamos há mais de um ano vivendo numa pandemia e somos invisíveis. Temos que trabalhar, administrar a casa (que tem demandado mais, visto a quantidade de horas e dias que passamos nela), cuidar das crianças, acompanhar aula online ou presencial com ensino híbrido, participar das reuniões de conselho, expor nossas opiniões, entrar em embates com professoras e amigas em redes sociais caso sejamos a favor da reabertura das escolas (porque, mais uma vez, a rivalidade feminina é interessante para o patriarcado). 

Porque algumas de nós não podemos fazer lockdown e nossos filhos estão com nossas mães ou vizinhas. Porque nem sempre temos dinheiro para dar conta da alimentação que antes era garantida na escola. 

Porque temos que ter internet boa e vários dispositivos de qualidade. Porque temos que alfabetizar, ensinar matemática, arrumar massinha, argila, canetas coloridas, fazer guerra de almofadas, boliche e pão caseiro em família. 

Porque temos que ter bom humor e sabedoria emocional para acolher as demais crises das pessoas que moram com a gente. 

Porque se as crianças estão com alguma defasagem no desenvolvimento a culpa é nossa, já que liberamos muito mais telas no último ano. 

Porque se não cuidamos do nosso corpo e da nossa pele esse é o real motivo por estarmos péssimas. Afinal, o autocuidado é fundamental! 

Porque não temos tempo nem dinheiro para pagar a terapia. E se temos, pagamos primeiro a das crianças. 

Porque mãe não “é tudo igual”, mas todo dia nos jogam nesse balaio. 

Porque não temos tempo para nos mobilizarmos politicamente. Porque é interessante para o sistema capitalista e patriarcal que as mães sigam excluídas da sociedade trabalhando de graça criando nova mão de obra. 

Apesar disso tudo, tem sido sonhada e discutida a (r)existência de um sindicato de mães e cuidadoras. Tem mães eleitas querendo dar visibilidade a muitas dessas pautas. Tem mães reunidas em grupos de estudos, leitura, conselhos de escola e muitos (muitos mesmo!) grupos de whatsapp que nos fazem sentir que não somos loucas e nem estamos sozinhas. 

Porque tem uma mãe escrevendo esta coluna às duas e meia da manhã.

E porque precisamos ser lidas e ouvidas por pessoas que não sejam mães.

Luísa Toller lançou no último mês de março um vídeo com sua música “Mãe na Pandemia”, gerando identificação em muitas mulheres, inclusive na atriz e cantora Júlia Tizumba, que por sua vez gravou um novo vídeo e viralizou nas redes sociais. 

Júlia convidou, então, Luísa e a musicista Neila Kadhí para produzirem uma nova versão da canção. O single foi lançado dia 06/05 em todas as plataformas digitais com a parceria do selo Colmeia22 e distribuição da Altafonte Brasil. Ouça!

Luisa Toller é musicista, educadora, colunista da Revista Azmina e mãe militante. Tem formação pela Unicamp e um mestrado sobre música e gênero concluído em 2018 na Eca-USP. É tricampeã do concurso de marchinhas Nois Trupica Mais Não Cai com composições feministas que viralizaram com webhits. Já desenvolveu atividades pedagógicas sobre desconstrução de estereótipos de gênero na Graded School, participou de mesas e palestras na Caixa Cultural, semana Delas na faculdade arquitetura da Mackenzie SP, comunicação da Puc-SP, jornalismo na UNB, Instituto Ruth Cardoso e na editora SM Educação. Além disso integra os grupos Meia Dúzia de 3 ou 4, Vozeiral e Bolerinho.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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