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O meu prazer é meu e ninguém pode me dar algo que já me pertence

por Helena Bertho
5 de fevereiro de 2019
A outra pessoa pode me dar estímulo, carinho, atenção, um monte de coisa. Mas como eu vou receber isso e as sensações que vão me causar, só depende de mim
Às vezes deixamos nas mãos dos outros a responsabilidade pelo nosso prazer. Foto: Unsplash

Já parou para pensar o quanto jogamos a responsabilidade pelo nosso prazer nas mãos dos outros? Principalmente nós mulheres, que somos educadas para ligar sexo a amor e amor a ter um homem que nos queira.

Eu até que não relaciono sexo a amor há muito tempo, mas ligava sim sexo a ter alguém que me quisesse e isso ser prova do meu valor. Era das que fazia sexo pra agradar e fingia orgasmo, mas raramente tinha um acompanhada – sozinha sempre foi fácil.

Depois de uma transa sem final feliz, às vezes me pegava pensando: não me chupou direito, ou o ritmo era ruim, ou o pau era grande/pequeno/fino/grosso demais. E projetava que um dia encontraria alguém que me fizesse gozar loucamente.

Sou a única? Aposto que não!

Quantas vezes já não ouvi amigas falando que “fulano metia bem”, “ciclano tinha pau fino”, “fulana faz maravilhas com a boca”, “xislana é que sabia como uma mulher sente”, “beltranx foi o melhor sexo do mundo”…

Ok, não vou negar, desempenho e fatores físicos existem. Sexo é troca, senão chama masturbação e não dá pra isentar os outros, principalmente os homens, pela falta de interesse, esforço e dedicação.

Mas, sempre que eu falava disso na terapia, ouvia da minha psicóloga (uma entidade, praticamente): “o seu prazer é seu, Helena, ninguém pode te dar o que já te pertence”.

E eu lá entendia o que ela queria dizer com isso? Levei anos para conseguir dar sentido a essa frase.

O que você realmente quer quando transa?

Nos últimos tempos, solteira, eu tenho aprendido a procurar sexo quando estou com tesão. Mas não é por isso que as pessoas transam?

Devia ser. Mas por muito tempo, eu procurava sexo quando estava com a autoestima baixa. Pra me sentir desejada.

Sou só eu? Espero que sim, mas imagino que não.

Conversando com uma terapeuta tântrica, ela me disse que a maior parte das pessoas busca no sexo outras coisas que não estão diretamente ligadas a ele: autoestima, carinho, amor, autodestruição, afeto, manter a família…

Muitas vezes, o prazer nem está em mente quando vamos transar.

Então, eu comecei esse movimento de parar e pensar: o que eu quero agora? É realmente transar? Ou só estou querendo sentir que alguém gosta de mim? Se a resposta for essa, melhor ir encontrar uma grande amiga e bater um papo.

Sim, pleno 2019 e tem mulher falando que aprendeu a dizer não, shame on me. Mas antes tarde do que nunca, né?

Equilibrando egoísmo, troca e entrega

Ao mesmo tempo, comecei também a olhar mais para o meu corpo, entender como ele funciona e as sensações que me dão prazer. E também prestei atenção no meu desejo: o que me excita? O que me dá arrepios? Você consegue responder essas perguntas sem pensar? Vale à pena refletir sobre.

E assim, aos poucos, as transas foram virando algo novo pra mim.

Claro, sexo é troca. Ver e sentir o tesão da outra pessoa me enche de tesão, então nunca deixei de querer agradar. Mas dá para sentir isso e ainda prestar atenção nas minhas próprias sensações e querer ser agradada. Principalmente, aprendi a aceitar receber prazer.

Mas, o mais importante, é que nesse movimento todo, o que eu entendi é que o outro não está me dando prazer. A pessoa está me dando estímulo, carinho, etc. Mas se eu não estiver pronta ou aberta para receber, não vou sentir nada.

Porque o prazer é meu, sou eu que tenho que me dar isso.

Entender isso facilitou muito as coisas. Hoje sou capaz de dizer “não tô afim” e nem começar uma transa ruim. E sou capaz de dizer “estou muito afim” e gozar de muitas formas diferentes, com desempenhos até medianos das outras pessoas. Tamanho do pau, da língua, formato do corpo, etc, etc, etc são só alguns dos fatores envolvidos ali.

Além disso, isso tirou um peso enorme do sexo. Se o meu prazer é meu, o da pessoa com quem estou também é dela. E eu não posso dar isso a ela. Posso dar carinho e estímulos, mas o que ela vai sentir, não cabe a mim totalmente. Saber disso, deixa tudo mais simples para mim – inclusive, é um pouco prepotente achar que sou eu que dou o orgasmo ao outro, né?

Costumava dizer que invejava como homem conseguia gozar em toda transa. Hoje não invejo ninguém mais, estou muito feliz com a minha capacidade de gozar.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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