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mulher indigena com colares e arco na cabeça, cabelos pretos lisos e longos
19 de maio de 2025

O jornalismo indígena existe e resiste

No 1º Encontro dos Indígenas Jornalistas do Brasil, comunicadores de mais de 30 povos reafirmam: nunca mais um jornalismo sem a nossa presença

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Colagem digital com jornalista indígena segurando microfone, em fundo com grafismos ancestrais, escrita à mão e texturas em azul. A arte representa o protagonismo indígena na comunicação, com estética de resistência e identidade.

Por muito tempo, seja em nossa caminhada acadêmica ou já no mercado de trabalho, nos sentíamos sozinhos. Esse sentimento, envolto em algumas lágrimas e vozes embargadas, marcou o início do Iº Encontro dos Indígenas Jornalistas do Brasil, promovido pela Articulação Brasileira dos Indígenas Jornalistas (Abrinjor), em Brasília. 

Nunca falei aqui n’AzMina das dificuldades do indígena no meio acadêmico e no mercado de trabalho, que são muitas também. O corpo-território indígena enfrenta inúmeros desafios em qualquer espaço que ocupa; não seria diferente no meio jornalístico e demais áreas que englobam a comunicação, cheio de egos e vaidades. Como bem disse a parente Sônia Kaingáng: “nesse encontro, que tiremos os nossos sapatos”. 

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Feminismo bem informado

Os indígenas são os que recebem menores salários em comparação a pessoas brancas, menos 10,3% em média, segundo uma pesquisa, divulgada em 2017 pela BBC. Enquanto a queda salarial entre brancos e pessoas pardas é de 3,3%, e fica em 5,5% para pessoas pretas.

Reconhecimento é urgente e necessário

A Abrinjor surge em um contexto onde a valorização e reconhecimento do indígena jornalista são urgentes e necessários. Vemos que apesar da tutela ter acabado constitucionalmente em 1988, ela segue indiretamente nas redações, na televisão e outros meios de comunicação. 

Quem fala pelo indígena não é indígena, quem escreve pelo indígena também não é indígena. São os jornalistas indigenistas ou os antropólogos não indígenas. A capacidade do indígena falar por si, ser porta-voz de seu povo, ou de sua comunidade é sempre colocada à prova. Seja na condição de profissional jornalista ou como entrevistado. 

Diante de muitos desabafos e choros, o encontro também foi um espaço de acolhimento, de aprendizado e de muita reflexão. Éramos dezenas de indígenas de uma rede composta por mais de 50 membros (entre formados e formandos) pertencentes a mais de 30 povos diferentes. Somos majoritariamente mulheres e representamos todos os biomas brasileiros. Isso é histórico e cheio de significado, de uma forma que as palavras não conseguem dizer. 

Leia mais: Indígenas conectadas: a internet para quebrar estereótipos

Poranga Marandúa, uma notícia boa

Poranga Marandúa, o nome de nosso encontro, significa “notícia boa”. Esse nome foi escolhido em homenagem a Andreza Baré, primeira indígena a ingressar no curso de Jornalismo em 1998. Andreza estava ali conosco, ajudando a pavimentar uma estrada que ela e outras parentes – às quais carinhosamente chamamos de anciãs do jornalismo indígena – começaram a construir. 

O jornalismo indígena existe e resiste. Não é apenas mais uma editoria, assim como não é “jornalismo ambiental”. É posicionado, tem compromisso com os interesses dos mais de 305 povos indígenas do Brasil e seus territórios e é diverso em suas pautas. Um jornalismo humano, solidário e plural em sua forma de ser, de escrever, de narrar… assim como nós somos. 

Nós fugimos de um modelo engessado das redações tradicionais e coloniais, mas somos capazes de produzir qualquer tipo de matéria, pois temos competência, compromisso com a ética e a verdade e bagagem para tal. 

Leia mais: Qual a consciência indígena que queremos?

Nunca mais um jornalismo sem a nossa presença

“Nunca mais um jornalismo sem a nossa presença” foi a frase motivadora desses cinco dias na capital federal. Muitos rios de saberes se encontraram, confluíram e descobriram a força de seguir em frente para desaguarem em um grande mar, saindo da penumbra da invisibilidade imposta.

Nunca estivemos sozinhos, sempre fomos acompanhados de nossa ancestralidade, de nossos saberes, de nossas ciências e, agora, de várias outras potências do fazer jornalístico. O que fazemos é um jornalismo plural, horizontal, acolhedor, representativo e revolucionário.

Um dos grandes resultados dessa coletividade é a elaboração do Manual de Redação do Jornalismo Indígena, com a finalidade de romper com inúmeros estereótipos racistas sobre os povos indígenas divulgados pela mídia durante décadas. 

O jornalismo e a comunicação indígena saem fortalecidos desse encontro, consolidando seu espaço nos meios de comunicação e o indígena jornalista como protagonista de suas próprias narrativas. Mostrando que é possível estabelecer novas formas de se comunicar, sem perder seu compromisso com os princípios do jornalismo. 

Tudo nasce de um sonho, e esse é o nosso. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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