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Literatura, substantivo feminino: conheça nossa nova seção!

por Bruna Escaleira
30 de novembro de 2016
A coluna "AZMina dão a letra" chega perguntando: cadê as minas escritoras? Ainda temos menos espaço no mercado editorial, mas somos muitas, múltiplas e maravilhosas. Vem com a gente conhecer autoras incríveis!

 

V amos começar com um jogo: liste, sem pensar muito, dez escritores. Quantos deles eram homens? Agora, repita o desafio pensando apenas em autoras. A menos que você seja uma estudiosa da área, aposto que a primeira tarefa foi muito mais fácil, não foi? Dessas dez escritoras que você lembrou, quantas escrevem em português? Há quantas brasileiras ou portuguesas? Quantas africanas? E latino-americanas? Quantas delas são negras?

Se sua resposta para algumas dessas perguntas foi “nenhuma”, mantenha a calma. Não vou mentir pra você, isso é ruim, é péssimo. Mas a culpa não é sua. De acordo com o estudo “A personagem do romance brasileiro contemporâneo (1990 – 2004)”, mais de dois terços (72,7%) dos escritores são homens. Nessa pesquisa, a crítica literária Regina Dalcastagnè analisou 258 livros. Nessas obras, 71,1% dos personagens principais são homens, 79,8%, brancos e 81%, heterossexuais – somente 3 protagonistas são mulheres e negras; considerando todos os personagens, 62,1% são homens, 37,8%, mulheres e apenas 7,9%, negros.

Infelizmente, não encontrei um estudo semelhante sobre nossa produção literária depois de 2004 (se alguém conhece, me apresenta? Aliás, fica a dica para quem está querendo começar uma pesquisa por aí). De qualquer forma, não é difícil constatar que a desigualdade ainda predomina no meio literário nacional e internacional. O mais preocupante é que, se nos séculos passados nós mulheres fomos efetivamente proibidas de escrever – seja por não podermos assinar textos públicos ou por não termos direito à educação –, há algumas boas décadas, conquistamos esse direito e colocamos nossas letras no papel, mas continuamos sendo menos conhecidas e divulgadas.

Muito provavelmente, ainda somos minoria em relação aos autores homens, mas não somos poucas e estamos por aí, estamos por toda a parte. Não apenas escrevendo literaturas de todos os tipos, mas também pesquisando, criticando e estudando sobre elas – de acordo com Heloísa Buarque de Hollanda, na década de 1990, 90% dos estudantes de letras no Brasil eram do sexo feminino.

Mesmo assim, segundo ela, entre os autores brasileiros mais estudados, temos Clarice Lispector como única representante ao lado de Camões, Drummond, Guimarães, Machado, Manuel Bandeira, Lima Barreto, entre outros homens. Por que não pesquisamos mais Carolina Maria de Jesus, Pagu, Hilda Hilst, Adélia Prado, Francisca Júlia, Gilka Machado, Conceição Evaristo e tantas outras escritoras de qualidade incontestável?

Injusto, né?

O cenário piora quando falamos de incentivo e reconhecimento. Até hoje, nenhuma mulher foi a ganhadora principal nas 13 edições do atual Prêmio Oceanos, antigo Portugal Telecom. Encontramos apenas 4 de nós entre os segundos e terceiros lugares. Internacionalmente, não é diferente. Das 113 edições do Prêmio Nobel de Literatura, apenas 13 consagraram mulheres. A cada ano, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) homenageia um autor. Das suas 15 edições, apenas duas homenagearam mulheres: Clarice em 2005 e Ana Cristina César em 2016.

Também somos muito menos convidadas para debates e palestras sobre literatura e quase nunca lembradas em coletâneas e antologias – como listou a querida escritora Ana Rüsche neste texto. Mulheres negras, então, são quase mito para essas publicações.

Olhando este rápido panorama, não é difícil entender por que pouquíssima gente conhece a literatura feita por mulheres.

O predomínio de homens brancos heterossexuais nas letras é tão prejudicial para nossa sociedade porque contribui para que o seu discurso e seu perfil continuem sendo dominantes – não apenas entre os escritores, mas em todos os âmbitos sociais, até no imaginário coletivo.

Esse imaginário povoado por tudo o que lemos, assistimos, ouvimos e conversamos forma os “óculos” através dos quais enxergamos o mundo. Se essas lentes são sempre tão parecidas, fica difícil enxergar pontos de vista e realidades diferentes. Para ampliar esse campo de visão é essencial que leiamos mais mulheres, mais negras, mais lésbicas e trans, mais brasileiras e africanas.

É essa a razão de ser desta coluna e não poderia haver melhor espaço para ela que esta revista. Nos próximos textos, buscarei mostrar como o “desafio” que propus no início pode se tornar uma aventura incrivelmente fácil e deliciosa.

Porque nós somos muitas, somos múltiplas e maravilhosas.

Ah! Se você é uma escritora ou tem alguma sugestão de autora para apresentarmos, envie e-mail para bruna.escaleira@azmina.com.br e nos conte tudo 😉

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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