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26 de outubro de 2020

Como pode uma sociedade crescer sem cuidar das suas mães?

Penso que não tenho que conseguir nada. Que nenhuma mãe, sozinha, tem que nada. afinal, ser humano significa precisar ser cuidado

Desde que sou mãe, tenho um olhar completamente diferente para tudo e todos à minha volta. Sinto como se não soubesse absolutamente nada sobre a vida de verdade antes da minha filha chegar. Como se tivesse passado por um portal de revelação do universo.

Talvez sejam os hormônios, mas parece que todo e qualquer ser me inspira mais compaixão agora. Principalmente os novinhos e indefesos, mas também os grandes e fortes – porque todos já foram bebês um dia.

Hoje entendo as mais velhas que chamam todas de “minha filha”. Não é só um vício de linguagem ou confusão de cabeça cansada, mas uma certa noção de responsabilidade por aqueles que são mais jovens e, teoricamente, sabem menos da vida na pele.

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Mas é também um sentimento de sororidade. Afinal, todo mundo têm ou teve uma mãe, essa entidade mágica que é apenas uma pessoa, exatamente como eu. e toda mãe quer ver seus filhos bem e seguros. Então, proteger os filhos alheios é também proteger outras mães. Fazer o que eu gostaria que fizessem por mim e pela minha filha.

Acho que o olhar que mais mudou em mim com a maternidade foi mesmo em relação às outras mães. sempre que encontro alguma, conhecida ou não, sinto como se compartilhássemos um conhecimento profundo das coisas. E faço uma espécie de reverência mental que diz: “eu sei o que você passou ou está passando. você é incrível e eu te honro, irmã!”.

No puerpério, desabou sobre mim um sentimento de gratidão inominável em relação à minha mãe, e também às minhas avós e todos aqueles que cuidaram de mim em algum momento. Porque percebi como o cuidado é o trabalho mais absolutamente essencial pra existência da vida humana e, ironicamente, um dos mais desvalorizados.

Quando batia a exaustão, ficava pensando como minha mãe tinha conseguido. e minhas amigas e primas, tão parecidas comigo? Será que elas também surtavam? E minhas avós e bisavós, com muito menos recursos e tecnologias? E as mães solo? e as mães com maridos abusivos? E as mães sem rede de apoio? E as mães imigrantes, refugiadas, em situação de rua, encarceradas?

Se muitas delas, em situações infinitamente mais difíceis que a minha, tão privilegiada, conseguiram, então eu também consigo, pensava. E imaginava que se pudesse voltar no tempo, me impedir de engravidar e mudar meu destino, não trocaria esta história por nada. Porque a maternidade é definitivamente a coisa mais difícil, desafiadora e cansativa, mas também, de longe, a mais apaixonante, gratificante e reveladora que já me aconteceu.

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Ser mãe me mostra que tenho muito mais força do que jamais imaginei, mas sou vulnerável na mesma medida. Porque sou mesmo muito humana – como todos nós.

Então penso que não tenho que conseguir nada. Que nenhuma mãe, sozinha, tem que nada. Afinal, ser humano significa precisar ser cuidado – ser-cuidado! taí um bom sinônimo para ser humano. Por isso, o real questionamento que devemos fazer é: como pode uma sociedade crescer sem cuidar das suas mães?

Bruna é uma jornalista e escritora paulistana. Pesquisa literaturas e feminismos na USP e faz parte da coletiva Circular de Poesia Livre. Escreve desde que aprendeu a combinar as letras e publicou os livro de poesia “entranhamento” e “algo a declarar.;'”.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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