
As histórias e lutas das mulheres, muitas vezes, ficaram à margem das narrativas históricas dominantes da resistência contra o regime autoritário da ditadura militar imposta ao Brasil (1964-1985). Um período marcado por repressão brutal, perseguições, prisões e torturas. As mulheres não foram apenas vítimas da repressão política e de suas circunstâncias; elas enfrentaram também uma violência de gênero sistemática, com agressões físicas, psicológicas e sexuais.
A violência estatal não se limitava ao corpo, mas tentava destruir identidades. As mulheres estavam envolvidas não apenas na luta pela democracia, mas em uma batalha pela sobrevivência e pela liberdade do país. Durante os ”anos de chumbo” (1968 e 1974), a repressão tornou-se ainda mais violenta, com a intensificação das prisões, torturas e assassinato de opositores. As mulheres eram vistas como uma ameaça dupla, pelo envolvimento com a resistência política e por desafiarem as expectativas de gênero da época.
A maioria dessas mulheres eram jovens de classe trabalhadora e/ou estudantes, que se organizaram politicamente em um contexto de grande risco. Em “Narrativas de Militantes Presas Políticas No Presídio Tiradentes”, Letícia Viana de Morais aponta uma demonização dessas mulheres, que eram consideradas subversivas e, por isso, merecedoras de punições mais severas do que aquelas que ocupavam papéis tradicionais na sociedade. Uma modernização do Queimem as Bruxas!
Mulheres se envolveram em todas as frentes
Apesar dos riscos e da violência, as mulheres se envolveram ativamente na resistência, seja através da luta armada, dos movimentos estudantis ou na organização de grupos clandestinos. Elas não apenas se opuseram ao regime, mas também criaram espaços de solidariedade, onde o apoio mútuo tornou-se uma ferramenta crucial para resistir ao medo e à repressão.
A trajetória de figuras como Dilma Rousseff, que foi presa e torturada, exemplifica a força e a
resiliência dessas mulheres. Anos depois, Dilma se consolidou como uma líder política e, em 2010, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente do Brasil.
Mulheres presas durante o regime militar sofreram uma forma de tortura particularmente cruel. Além de utilizar métodos tradicionais de violência, como choques elétricos, privação de sono, ameaças e espancamentos, os torturadores também adotavam práticas sexualizadas e psicológicas para humilhá-las. Elas ainda estavam sujeitas a abusos sexuais, ameaças contra seus filhos e, em alguns casos, a abortos forçados enquanto estavam sob custódia do Estado.
Mulheres sobreviventes têm mais chances de desenvolver problemas psiquiátricos. Muitas vezes, sentimentos como medo e vergonha as levam ao isolamento, o que só agrava o sofrimento e a exclusão, como apontam as pesquisadoras Monica Bandeira e Rachel Goodman. O silêncio, nesse contexto, deixa de ser escolha para se tornar estratégia de sobrevivência. Quando se trata de tortura sexual, as mulheres relatam essas experiências com mais frequência do que os homens (o que não significa que eles não sofram esse tipo de violência).
A violência sexual, a mutilação e as agressões sexualizadas não visavam apenas destruir o corpo físico das mulheres, mas também quebrar seu espírito, tentando impor um controle total sobre seus corpos e mentes. Esse tipo de violência tinha como objetivo apagar a resistência feminina e transformar o sofrimento em submissão, desumanizando as mulheres na tentativa de silenciar sua luta.
Leia mais: Mulheres na ditadura: As torturas sofridas e a luta contra o autoritarismo
Solidariedade feminina foi fundamental
Em meio à brutalidade, a solidariedade e o cuidado mútuo foram formas de resistência. Tanto as presas quanto as que estavam fora se organizaram em redes de apoio para proteger umas às outras. O livro “Torre das guerreiras e outras memórias”, de Ana Maria Ramos Estevão, uma estudante de Serviço Social envolvida com a organização Ação Libertadora Nacional (ALN), conta a história de Zilda. Ao ser libertada, ela fotografou os filhos da sua companheira de luta Hilda, assim ela pode saber que estavam bem.
Essa solidariedade não se limitava ao plano pessoal, mas também gerou movimentos coletivos, como ações em defesa de anistias políticas e grupos de apoio que ajudaram a garantir a segurança das mulheres após a libertação. Mulheres como Victória Grabois, impulsionadas pela necessidade de encontrar a verdade e combater a violência estatal, buscaram respostas para as atrocidades cometidas. Em 1985, Victória ajudou a criar o grupo Tortura Nunca Mais, um coletivo que surgiu com a missão de denunciar e combater as práticas de tortura durante a ditadura.
A arte também desempenhou um papel fundamental na preservação da memória histórica e na ”cura” pelos danos causados pelo período. Um exemplo é a marcha ‘‘Atrizes contra a censura’’, que contou com a presença de Tônia Carreiro, Eva Wilma, Odete Lara, Norma Bengell e Cacilda Becker. Muitas utilizaram a literatura, o cinema e outras formas de expressão artística para contar suas histórias e denunciar a repressão.
O filme “Como é Bom Te Ver Viva” (1989), dirigido por Lúcia Murat, é um exemplo marcante de como a arte pode ser usada para visibilizar a resistência feminina e denunciar as atrocidades cometidas pelo Estado. Essas expressões artísticas continuam a ser uma forma de cura coletiva, além de preservar as memórias das mulheres que, de maneira corajosa, enfrentam os horrores da ditadura.
Mulheres lutaram contra as estruturas de gênero
A resistência das mulheres durante a Ditadura Militar foi, também, uma luta contra as estruturas de gênero que buscavam subjugar seus corpos e suas vidas. Essas mulheres desafiaram normas sociais e criaram espaços de resistência coletiva que garantiram a preservação de suas histórias e legados. A luta dessas mulheres, longe de ser algo isolado, foi um movimento que marcou a história do Brasil e deve ser reconhecido como uma parte crucial da memória coletiva do país.
No entanto, mesmo tendo desempenhado um papel fundamental na luta contra a repressão, muitas delas ainda permanecem invisibilizadas na memória oficial do país. Figuras como Dilma Rousseff, Lúcia Murat e Ana Maria Ramos Estevão são algumas das poucas que tiveram suas trajetórias reconhecidas, enquanto tantas outras seguem esquecidas ou marginalizadas. O reconhecimento dessas mulheres ainda é fragmentado e, muitas vezes, condicionado a narrativas que priorizam os protagonistas masculinos.
Reivindicar o reconhecimento dessas mulheres e valorizar suas contribuições é essencial para entender a história do Brasil e para fortalecer a resistência contra as opressões que ainda persistem. O legado dessas mulheres é uma inspiração contínua para as gerações atuais, que seguem na luta por justiça social, liberdade e igualdade. Suas histórias de coragem, resistência e solidariedade continuam vivas e são um poderoso lembrete do papel fundamental que as mulheres desempenham na construção de um futuro mais justo e livre. 64 não está muito tempo atrás, ainda temos trabalho a fazer.
Leia mais: Conheça a história do feminismo no Brasil
Sugestões de leitura:
Brasil: Nunca Mais. Dom Paulo Evaristo Arns. 41st ed. Editora Vozes, 2014.
Comissão Nacional da Verdade. Brasília: CNV 1 (2014): 976.
Sempre Foi Sobre Nós: Relatos da Violência Política de Gênero no Brasil. Manuela D’Ávila, Anielle Franco, Áurea Carolina, et al. Editora, 2022.
Assim Sobrevivemos: Narrativas de Militantes Presas Políticas no Presídio Tiradentes (1969–1976). Letícia Viana de Morais. Dissertation. University of São Paulo, 2022.
Guerrilheiras: Memórias da Ditadura e Militância Feminina. Juliana Marques do Nascimento. Edição em português. 2023.
Mulheres e Ditadura: As Construções Autobiográficas Como Lugar de Resistências. Tatianne Silva and Ellen Cavalcante. Entropia 5, no. 10, 2019.
A Torre: O Cotidiano de Mulheres Encarceradas Pela Ditadura. Luiza Villamea. Companhia das Letras, 2023.
