
Passei 34 anos casada e só no último dia percebi o quanto ele era violento e abusivo. Hoje entendo que os sinais estavam ali desde o começo, mas eu não conseguia enxergar. Eu o conheci quando tinha 16 anos. Vínhamos de realidades muito diferentes, mas acredito que, de alguma forma, isso nos aproximou. Casamos quando eu tinha 18, quase 19. Logo veio nossa filha e, sete anos depois, o nosso filho.
Um dos primeiros sinais de alerta foi quando ele se recusou a pagar a escola das crianças. Naquela época, ele já tinha uma profissão, era policial militar, mas dizia que os filhos deveriam passar pelo mesmo que ele passou, porque veio de uma família muito pobre. Eu discordei e assumi as mensalidades.
A situação piorou quando comecei a ganhar muito mais do que ele. A partir daí, eu pagava absolutamente tudo. Até a troca anual do carro da família — que na verdade era dele — estava entre as minhas obrigações. Eu não via problema em assumir as despesas da família. Como meu salário era maior, me parecia uma escolha natural.
Eu não percebia a estranheza da recusa dele em contribuir com as despesas da casa. E assim foi por mais de 30 anos.
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Sempre ouvia muitas críticas dele
Passei muito tempo da minha vida envolvida em trabalho voluntário e sempre ouvia muitas críticas da parte dele. Ele dizia que eu estava desperdiçando meu tempo e meu dinheiro, além de repetir uma série de falas racistas, classistas e misóginas que não valem ser mencionadas aqui.
Meu ex não teve acesso à educação formal e veio de um lar violento. Por isso, na minha cabeça, ele era apenas “chucro” e ignorante. Durante todo o tempo em que estivemos juntos, tentei justificar os erros dele, acreditando que eu deveria aceitar, já que ele era meu marido. Eu não conseguia perceber que era vítima de violência psicológica e patrimonial.
Depois da aposentadoria dele, as coisas pioraram drasticamente. Em pouco tempo, o relacionamento tóxico se transformou em uma luta para sobreviver a tentativas de feminicídio. Ele começou a ficar obsessivo, dizendo que eu iria matá-lo. E, mesmo assim, eu não imaginava que ele seria capaz de me machucar fisicamente.
Quando a ameaça ganhou forma
Só percebi meu engano no dia que fui chamá-lo para comer um bolo com café, como fazia todas as noites, e o encontrei sentado na cama, no escuro, com uma das mãos debaixo da coxa. Ele disse: “estive pensando, essa noite, se você não me matar, vou ter de matar você”. Hoje, tenho certeza de que ele estava armado naquele dia, embora até pouco tempo atrás eu ainda tivesse dúvidas.
Eu me tranquei no estúdio que tínhamos em casa e fugi na manhã seguinte. Deixei minha casa, minhas roupas, meu gato, meu cachorro e meu celular. Meus filhos, que naquele tempo já estavam casados, me acolheram, mas eu precisava sair daquela cidade. Minha filha comprou outro telefone para mim e fui em busca de emprego na capital, São Paulo. Ao sair de uma entrevista, roubaram minha bolsa e eu não sabia o que fazer. Eu não sabia de cabeça nenhum número de telefone e, sem alternativas, acabei ficando desabrigada.
Vivi em situação de rua por seis meses. Temi pela minha segurança diversas vezes e lutei para não me entregar ao álcool e outras drogas. Dormia na rodoviária e me sentia invisível. Meus filhos pensaram que eu tinha morrido. Eles me procuraram, mas não conseguiram me encontrar. Só consegui voltar para minha cidade graças a uma senhora que pagou minha passagem — até hoje penso que foi uma intervenção divina.
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O apagamento e a perseguição
Quando cheguei lá, descobri que, no dia seguinte à minha fuga, ele colocou uma mulher da idade da nossa filha para morar na minha casa. Ela era uma das pessoas que eu havia ajudado a sair da rua durante o voluntariado que ele tanto criticava. Ela também passou a ser uma das minhas agressoras.
Durante o tempo em que fiquei longe, ele espalhou que eu tinha abandonado a casa. Todos os nossos amigos e a minha família se viraram contra mim, sem conhecer a minha versão da história. As pessoas não quiseram saber se eu estava bem. Cheguei a ler comentários nas redes sociais dando parabéns a ele por ter arrumado uma mulher mais nova depois de ter sido largado pela esposa.
Depois disso, sofri agressões graves e tentativas de feminicídio. Ele não praticava diretamente a violência, mas contratava pessoas para fazer isso comigo. Ter ficado com minha casa, meu carro e tudo o que eu tinha não foi suficiente. Ele se mostrou disposto a acabar com a minha vida para garantir a posse do patrimônio que eu construí.
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Agressões tinham um padrão
Na primeira vez, ele contratou duas mulheres para me espancar na rua. Fiquei internada e tive perda de memória. Depois fui agredida mais uma vez, por um homem passando na rua, e ainda fui xingada. A atual do meu ex-marido me atropelou.
As agressões físicas se somavam à violência patrimonial. Eles usaram meus cartões e fizeram diversas compras com meus dados. Encontrei muita dificuldade para prestar queixa, porque ele era um policial militar aposentado da cidade. Precisei me deslocar para outro município para registrar o boletim de ocorrência.
As violências que sofri foram inúmeras e, até hoje, sei que corro o risco de passar por outros episódios. Aconteceram tantas vezes que comecei a identificar um padrão: sempre que sofro uma agressão, ele viaja antes e posta uma foto com a localização nas redes sociais. Se preocupa em ter um álibi.
Da última vez que isso aconteceu, invadiram a loja de bolos que levei muito tempo para montar. Quebraram tudo, mas não roubaram nada. Tenho certeza que foi ele, porque estava rondando a porta da loja dias antes, e ainda me ameaçava. Esse episódio foi a gota d’água para que eu fugisse para outro país.
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Ainda viva, ainda lutando
Fugi do Brasil depois de tantas violações sem resolução. Hoje, travo uma disputa judicial com meu ex para tentar recuperar parte dos meus bens. Sigo na luta por justiça, mas já faz dez anos que ele escapa de responder aos processos criminais. Durante o julgamento, meu ex chamou minha própria irmã para depor contra mim e trouxe um antigo prestador de serviços para dizer que eu era prostituta e usuária de drogas.
Minha filha estava viajando, então só meu filho estava comigo. A juíza perguntou se meu ex conhecia o rapaz que me acompanhava, e ele disse que nunca havia visto o nosso filho. Hoje, não só por isso, mas por todas as violências que aconteceram, meus filhos não falam com o pai.
Mesmo com a tristeza dessa história, minha intenção é mostrar que eu ainda estou viva, apesar de tudo. Consegui me formar em uma nova profissão. Agora sou psicóloga, trabalho na área e tento seguir um dia de cada vez. Vou ajudando outras pessoas aos poucos e sinto que isso também me ajuda.
Escrevo pensando naquelas que acham que não há mais saída. Eu também já estive nesse lugar. Pensei que não sobreviveria. Espero que o que aconteceu comigo não se repita, e que outras mulheres também tenham a oportunidade de contar suas próprias histórias de sobrevivência.