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5 de julho de 2021

Por que se fala tão pouco das mães abusivas que não amam seus filhos?

O movimento feminista precisa (tem que) trazer o tema para as demandas das pautas urgentes
Arte: Nazura/AzMina

Em pleno ano 2020, ainda tem quem duvide que isso realmente exista, que é pura provocação ou blasfêmia contra a sagrada família. Se levar pelo viés religioso, alguns podem dizer que quem ousa questionar o que é apresentado por muitos pais e mães como um “amor” meio esquisito, sofre da “falta de Deus no coração” (sempre bom perguntar de qual Deus estamos falando). Numa matéria recente da BBC UK, o repórter indagou os porquês de muitas pessoas na Europa estarem cortando vínculos com familiares, como isso está se tornando habitual e por qual motivo não vemos o debate ampliar na grande mídia. Raramente algum portal feminista e outros que produzem matérias relacionadas à infância abordam o sofrimento silencioso dos filhos (as) de mulheres problemáticas. 

Por que não querem que você saiba que existem pais e mães perversos? Assim como avós, irmãos, tios, primos e parentes nocivos.

Isso não é papo de ficção ou que acontece raramente, neste momento uma vítima pode estar no quintal ao lado da sua casa. Culturalmente no Brasil somos estimulados a estar mais próximos do clã (mais uma vez a mão do cristianismo com seus pecados e punições), o que pode ser ótimo caso seus semelhantes não sejam demasiadamente abusivos ou não possuam nenhuma questão séria e perigosa de saúde mental. 

Já que estou trazendo à baila a questão, consegue dizer rapidamente 5 transtornos de personalidade? Caso não, normal. A gente ainda não tem a disciplina “Saúde Mental & Equilíbrio Emocional” nas escolas, que deveria iniciar na educação infantil e durar até a saída para o ingresso nas universidades (outro lugar cheio de pessoas machucadas e adoecidas). Além disso, as faculdades brasileiras de psicologia pouco se aprofundam nos transtornos mentais.

Papai e mamãe saudáveis precisam arregaçar a manga e trabalhar muito nos cuidados com os pequenos; será que conseguem primeiro fazer o autoacolhimento? Importante e essencial para os futuros passos.

Experiências como casamento e maternidade/paternidade podem ser incríveis, porém, em quais condições elas vingam? No protocolo social/cultural/familiar do “tem que ser mãe para ser completa”, “tem que casar para ser feliz”, “vai ficar pra titia, hein” e “quando vocês vão me dar um neto?” (essa frase é tão absurda).

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Quantos homens e mulheres sem a menor condição emocional e/ou psicológica procriam ou mesmo adotam? Muitos. Família é ringue para a psicologia/psicanálise, arena de violência.

Qual a consequência disso? Crianças/adultos adoecidas (os) e com o mental e emocional em desarmonia. 

Não estou falando de perfeição, nem acredito nisso, existem pais e mães com boas intenções e amor que erram. Como eu acredito que existem, pouquíssimos, lares com pessoas que conseguiram se acolher e dão conta de acolher o outro (seja filho, companheiro, irmão, etc.) com afeto, responsabilidade e liberdade. Às vezes, nas tradicionais famílias disfuncionais, nasce alguém que consegue fazer o corte e ir por um caminho diferente do costumeiro, e normalmente recebe o título de louco, ingrato, problemático e a grande decepção. Tudo tem seu preço, né?

Mães Narcisistas

No ótimo filme “Sonata de Outono” (1978), o cineasta sueco Ingmar Bergman foca na destruição causada por uma mãe com o transtorno de personalidade narcisista na vida de suas filhas. Bergman, como boa parte da população mundial, veio de um lar disfuncional e narrou muitas de suas experiências familiares em suas obras. “Sonata” apresenta duas mulheres, a jornalista e sua irmã, uma mulher deficiente, na constante busca pelo amor e reconhecimento materno que nunca virá.

O transtorno de personalidade narcisista (diferente de uma doença, ele não tem cura) torna a pessoa incapaz de amar, sentir empatia e impossibilita a construção de vínculos afetivos saudáveis e profundos com qualquer pessoa. No longa, a mãe Charlotte é uma narcisista oculta, veste a máscara da normalidade fora de casa, mas na intimidade com as filhas é negligente, mentirosa, invasiva, acaba com a autoestima das meninas desde cedo, manipula, distorce as lembranças, pratica violência psicológica, obriga a mais velha fazer um aborto traumático e “passa pano” para o estuprador da filha deficiente.

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Não é “Sonata de Outono” que é tenso e pesado, e sim essas mães que são criminosas: alienação parental, campanha difamatória contra a filha, humilhações constantes, triangulação nas relações entre irmãos (um costuma ser o “filho de ouro” e o outro o “bode expiatório”), exposição da criança a situações de risco, ameaças, privações dentro de casa, violência física e psicológica, violência patrimonial, mentiras constantes, manipulações, distorção da realidade e acordos unilaterais onde somente o narcisista é o beneficiado. A lista é longa. Apesar de poder envolver os filhos homens, tal dinâmica ocorre em maior proporção entre mães e filhas, já que essas mulheres enxergam outras mulheres como rivais (não importa se é a própria filha). 

Muitas filhas percebem que existe algo de errado na falta de conexão com a mãe ainda na adolescência e acham que a responsabilidade é delas, afinal, no imaginário coletivo toda mãe ama as crias. Conforme o tempo passa, e as atitudes pioram, descobrem na fase adulta o transtorno das mães narcisistas e, muitas não conseguem quebrar definitivamente o espinhoso laço emocional. Podemos até comparar de alguma maneira com a Síndrome de Estocolmo, todavia, é muito cruel não receber o afeto e atenção de quem todos julgam vir o amor incondicional. Vale mencionar que o diagnóstico não é feito através de um exame em alguma parte do corpo, e sim, nas avaliações comportamentais, o que pode confundir muitas pessoas sobre ser ou não um transtorno de personalidade. 

Acreditar nos sobreviventes é vital para o auxílio, porém quando falamos dos significados atribuídos a palavra mãe: “única fonte do amor verdadeiro” e “mães sempre querem o melhor para os filhos”, precisamos nos atentar para o perigo de uma história única, como escreveu a nigeriana Chimamanda Adichie. Não é porque você seja boa mãe ou mantenha uma forte amizade com a sua que todas as mulheres também experienciam isso. 

Mesmo sendo uma mãe narcisista (existem 6 tipos diferentes de narcisismo materno), tais mulheres possuem como escudo o fato de serem mães e o modo como a sociedade, junto com a religião, santifica e reverencia tal título. É mais fácil acreditar numa mãe do que no filho ou filha que optou por se afastar fisicamente e emocionalmente da teia danosa matriarcal. Os oprimidos aqui, assim como os grupos que sofrem discriminação, são deslegitimados. Exemplo: “Aí, tudo é racismo agora, que saco”, “Vocês da AzMina veem gênero em tudo, tão com mania de perseguição?’’ ou “Nossa, que exagero, sua mãe apenas pega no seu pé, como todas”. Não, mães não são todas iguais.

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Outros filmes que evidenciam o conflito são: “Cisne Negro” (do diretor Darren Aronofsky), o documentário sobre a soprano Maria Callas que narra os abusos cometidos por sua genitora, assim como a história do cantor Elton John, contada num filme musical, que sofreu com o desrespeito tanto do pai quanto da mãe. 

Buscar ajuda com profissionais sérios e que entendam do tema é o salto inicial para curar os danos causados e que podem prejudicar diversas áreas na vida dos sobreviventes. Em tempos de expansão de conteúdos e virtualização das plataformas, é possível encontrar livros especializados, canais no Youtube e páginas nas redes sociais que debatem exclusivamente a temática. 

O movimento feminista, junto com medidas de saúde pública, organizações nacionais e internacionais voltadas para a proteção e bem-estar da mulher e o judiciário precisam olhar com mais responsabilidade (rever a eficácia em alguns casos da Lei Maria da Penha) para a situação dessas filhas. Lembrando que o trabalho deve apoiar todas as classes sociais. 

Empoderamento e sororidade

Importante falar insistentemente sobre maternidade compulsória, mas… senhoras feministas comprometidas com o coletivo e não apenas as vossas emancipações: bell hooks já escreveu algumas páginas e chamou a nossa atenção para o fim da violência patriarcal de adultos, mulheres e homens, dentro dos lares.

“Em um esforço zeloso de chamar atenção para a violência de homens contra mulheres, pensadoras feministas reformistas ainda escolhem frequentemente retratar como vítimas sempre e somente mulheres. O fato de que vários ataques violentos contra crianças seja cometido por mulheres não é igualmente destacado e visto como outra expressão de violência patriarcal. Sabemos agora que crianças são violentadas, não somente quando são o alvo direto de violência patriarcal, mas também quando são forçadas a testemunhar atos violentos. Se todas as pensadoras feministas tivessem expressado ter se sentido ofendidas pela violência patriarcal perpetrada por mulheres, colocando isso em pé de igualdade com a violência de homens contra mulheres, seria mais difícil para o público ignorar a atenção dada à violência patriarcal, por enxergá-la como pauta anti-homem”.

O feminismo pode e deve ser uma eficaz rede de apoio para mulheres e crianças, algo que verdadeiramente beba no empoderamento e sororidade com todas nós.

Assistam “Sonata de Outono”, estudem, estejam atentas e fortes.

Feminista decolonial, jornalista e ativista, Júlia sabe a importância de se afirmar como uma mulher negra. Consciência política também é se apropriar da própria narrativa, acolhendo ancestralidade e se abrindo para várias possibilidades, individuais e coletivas, no contexto de negritude. Seguidora leal dos ensinamentos de bell hooks e Lélia Gonzalez, a paulistana acredita que o mundo pode ser um lugar mais aprazível quando estamos munidas de amor-próprio, senso crítico, música e vontade diária de caminhar na contramão do pensamento patriarcal e capitalista.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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