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“A pressão do meu namorado para que eu abortasse foi enorme”

por Anô[email protected]
24 de setembro de 2019
Obrigar uma mulher a abortar é uma forma de violência sexual e é crime

Nota da redação d’AzMina: O que aconteceu com a leitora que conta sua história no Divã de hoje é uma forma de violência sexual prevista na Lei Maria da Penha. Nenhum homem pode forçar uma mulher a tomar um remédio abortivo e, caso isso esteja acontecendo, a mulher pode fazer denúncia e exigir medida protetiva. Somos a favor da descriminalização do aborto para que mulheres possam receber assistência social e psicológica antes da interrupção da gravidez para que casos como esse sejam identificados e elas contem com ajuda.

“Tenho 34 anos e me relacionei com um cara durante cinco anos e meio. Na verdade, vejo que eu estava me namorando sozinha. Ele sempre me depreciava enquanto falava que as outras minas eram gostosas. Eu sempre fui a namorada que tinha que ficar bloqueada nas redes sociais dele, com a justificativa de que eu era louca.

Não era fácil. Entre mil términos e voltas, no ano passado engravidei. Fizemos o exame juntos e ele só olhou para mim, sem dizer nada na hora. Eu não sabia o que fazer, pois já tenho uma filha de 13 anos.

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Então ele começou a falar que eu tinha que dar um jeito e pensar logo, porque eu já sabia o que ele achava e queria. Mas eu ainda não sabia. Em duas semanas, ele arrumou remédio abortivo com uma amiga. Para ganhar tempo, no sábado eu desapareci e só voltei à noite.

Mas a pressão dele era enorme, ficava falando que eu tinha que resolver aquilo logo, que eu não estava nos filmes da Disney. Ele me olhava com ódio e sempre com cobrança. Não consegui me impor e na semana seguinte fomos a um hotel que ficava em frente a um hospital, para eu tomar o remédio abortivo.

Ele escolheu o lugar, porque se eu passasse mal já estaria perto do pronto socorro. Sim, ele pensou em tudo.

Tomei o remédio abortivo chorando, mas antes disso ele queria ter relação e eu aceitei. Ainda falei que queria pensar e ele falava que não tinha tempo para pensar. Amanheceu, fui trabalhar, tomaria a outra dose à noite.

Liguei para ele chorando, falando que não queria. Ele disse que não dava mais tempo, então tomei a outra dose e, passando algumas horas, tudo aconteceu. No banheiro, senti e vi tudo. Comecei a chorar e ele foi lá, deu descarga e saiu.

No outro dia, não tinha como eu ir trabalhar, mas ele foi e eu fiquei sozinha em casa. E aí começou todo o inferno, minha dor e os sumiços dele. Passados três dias, ele me deixou. Mas eu não entendia e ficava procurando por ele. Primeiro ele me bloqueou no WhatsApp e depois ele mudou o número do celular. Ele fez um depósito na minha conta, para que eu fizesse curetagem no hospital.

Contei para minha mãe o que tinha acontecido. Ela, evangélica, achou que tinha feito isso porque não sabia quem era o pai da criança. Minha mãe me deu as costas e pediu de volta o apartamento dela, onde eu morava.

Ainda descobri que meu ex me transmitiu uma DST (doença sexualmente transmissível), herpes. Com tudo isso, cai numa depressão profunda. Duas amigas faziam de tudo para eu não cometer nenhuma loucura e graças a elas eu sobrevivi.

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Um pouco depois, ele veio me procurar pedindo desculpas e eu voltei com ele. Sim, eu ainda o amava e pensava que ele teria mudado. Praticamente estava sozinha, pois minha família não falava mais comigo.

Dois meses depois, descobrimos que minha mãe estava com leucemia e ele disse que iria contar para ela a verdade. Mas isso nunca aconteceu. Em junho, descobri que ele me traía e brigamos. No mês seguinte, minha mãe se foi, sem falar comigo e sem saber a verdade.

E ele? Já sabemos muito bem, seguindo a vida. E eu? Estou tentando me reerguer, procurando sentido na vida. Pedindo perdão todos os dias, mas morrendo pouco a pouco. Não abracei minha mãe, não conversei com ela.

Estou tentando viver um dia de cada vez, mas fácil não é. Levo remorso de um aborto, pelo qual muitos me julgam, e agora a perda da minha mãe sem perdão. E sei que foi ele me fudeu desde do começo”.

O Divã de hoje é anônimo porque aborto ainda é crime no Brasil.


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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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