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Como me tornei feminista após superar um relacionamento abusivo

por Equipe AzMina
30 de julho de 2020
"O que mais me marcou foi quando falei da minha angústia sobre uma possível traição e, ao chorar, ele simplesmente riu, como se ri de uma criança", conta a professora Claudia Helena Gonçalves
relacionamento abusivo feminista
Arte: Eugenia Loli/ Flickr

Era para ser mais um relacionamento, mas nós, mulheres, sabemos que relacionamentos podem deixar marcas bem dolorosas. Hoje, passados mais de dois anos do que vivi, percebo que todas nós podemos em algum momento passar por um relacionamento abusivo. E as raízes estão na nossa educação sexista e em nossa sociedade, bem mais do que pensamos perceber e nomear.

Homens e mulheres são educados não para se pensarem como humanos, mas para sustentarem uma relação de mando e submissão. Se pensarmos como bell hooks nos indica, homens e mulheres são educados desde a infância para aceitar e desempenhar ações e pensamentos sexistas. Para ela, o patriarcado é o sexismo institucionalizado e respaldado pela sociedade e suas instituições.

Nesse sistema, compartilha-se da ideia de que homens são superiores às mulheres e, por isso, devem dominá-las, fazendo uso da violência, se necessário.

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Pois bem, conhecemos bem a violência do feminicídio, mas nem sempre a violência mais sutil (que permeia grande parte das relações entre homem e mulher na sociedade patriarcal), aquela em que o homem julga que você não tem o mesmo direito que ele, seja o direito à verdade, seja o direito de ir e vir, o direito à fala ou ainda o direito de ser considerada parte da humanidade como ele já o é. Conhecemos o velho e antigo gaslighting que consiste em colocar em dúvida o discernimento da mulher para manipulá-la e quantas vezes nessa mesma relação eu ouvi “Você está delirando, imaginando!”. 

Mas o que mais me marcou foi quando ao dizer da minha angústia sobre uma possível traição e, ao chorar, ele simplesmente riu, como se ri de uma criança, essa também muitas vezes não considerada um sujeito digno, alguém menor. 

Minhas lágrimas para ele eram uma dor menor, ou talvez ele suspeitasse da dor que eu sentia, mas eu era uma mulher! 

Entretanto, o patriarcado e a lógica sexista operam de um modo muito minucioso. E o mais extraordinário estava por vir: eu terminei tudo, mas eu me sentia culpada por ter raiva dele! Culpa que, aliás, ele soube bem alimentar, e que deve ter alimentado em outras mulheres, ao dizer que estava tudo bem, e que eu estava “estragando”! (Em quantos feminicídios homens confessam ter matado porque as mulheres é que eram “culpadas”?)

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Sim, eu senti culpa! E então quando voltei para a terapia que tinha abandonado há alguns anos, fiz todo um trabalho, com o auxílio da minha brilhante psicóloga, de escafandrista em um oceano em busca das origens e mecanismos de operação dessa culpa.

E ela me perguntou um dia: me conta sobre você, como foi sua infância? E eu disse que em casa nunca se podia deixar a cama desarrumada, que era algo muito feio, e que até hoje eu organizo as coisas todos os dias, pois nada podia estar “desarrumado”.

“Desarrumado”, “nada podia estar desarrumado”, isso me fez lembrar o perfeccionismo da minha mãe e a necessidade de ser sempre uma boa esposa, já que essa foi a única possibilidade que lhe foi dada na vida. Lembro-me ainda que quando eu estava fazendo vestibular, ela rezava para que meu pai me deixasse estudar, pois ela não queria uma filha que dependesse em tudo do marido, como ela. Imagino hoje sua dor ao falar disso, e seu alívio ao me ver estudar. 

Voltando ainda à história, com os meses se passando, fui me permitindo aos poucos ter raiva dele. Sim, raiva. Não era necessidade de vingança, mas era me permitir esse sentimento humano que me foi negado. O que esse sistema patriarcal faz é nos reduzir a seres sexuados com papeis tão estereotipados que recusamos nossa própria humanidade. Somos educadas para ser dóceis, comportadas, amorosas, condescendentes, negando outros tantos sentimentos que compõe nossa humanidade e permitem nosso crescimento. E como isso é tóxico para nós mesmas!

Na mesma época eu li uma interpretação do mito da Medeia de Olga Rinne que me marcou tanto. Medeia é a mulher da mitologia grega acusada de matar os filhos que teve com Jasão após descobrir a traição do companheiro. Seu sentimento ferido a jogou nas malhas da vingança e seu nome é maculado até hoje na mitologia grega, diga-se de passagem, patriarcal. Mas Rinne nos traz também narrativas mais antigas que mostravam uma Medeia curadora, mulher forte e guerreira, que fortaleceu Jasão e o auxiliou obter o velocino de ouro (pudera ela ter obtido o velocino com as próprias mãos!). Ela tinha poder sobre os elementos da natureza. Mas por que não conhecemos essa narrativa de Medeia?

Em um momento na obra, Olga Rinne chega a convocar as mulheres a deixar-se sentir raiva dos homens que traem sua parcerias, sua confiança, que as tratam como objetos, como menores e indignas. Medeia me mostrava que a reciprocidade não existe nessa civilização patriarcal e sexista.

E, com o tempo a raiva foi dando conta de abrir espaço também para o entendimento do que em mim se revelava. Uma pessoa que tendo confrontado com o que mais temia, já não tinha mais medo de nada. Não tinha mais medo de assumir quem se é, não tinha mais medo de olhares maldosos ou repreensivos, não tinha medo de se declarar feminista, de falar o que se pensa, uma mulher que sabia que o feminismo já era tão essencial como o ar que se respira, simplesmente porque não é possível ser conivente com um sistema que nos humilha e que, pior que isso, nos ensina a ser submissas a tanto medo e sofrimento.

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Às vezes me perguntava: o que aconteceu com ele? Penso que talvez eu tenha sido uma das poucas, senão a única pessoa, que recusou ser tratada como peça de um jogo de xadrez. Jogo, aliás, que ele tanto gostava! (Que ironia mais sincrônica, diria minha psicoterapeuta!). Eu mostrei a ele e a mim sobretudo, que a peça caía, mas depois se levantava, sem o auxílio dele, pois essa peça já deixou de ser peça, era uma mulher, como gosto de me declarar, inteira, uma mulher que cada vez mais quer se juntar a outras mulheres, em busca de um lugar melhor, mais seguro e mais digno para se viver.

Quem senta no Divã d’AzMina hoje é a doutora em psicologia escolar e professora universitária Claudia Helena Gonçalves Moura. 


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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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