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Jogos online e IA viram ferramentas de abuso sexual infantil

Caso no Uruguai mostra como um abusador usou Free Fire, WhatsApp, TikTok e inteligência artificial para aliciar crianças e adolescentes

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  • Atenção: esta reportagem contém descrições de abuso sexual infantil

No mundo dos jogos online, onde os jogadores competem ou se juntam em prol de um objetivo, um ‘diamante’ pode comprar uma roupa nova, uma arma mais poderosa ou um personagem exclusivo. Para crianças e adolescentes, é um bem desejado. Para um predador sexual, é a moeda de troca perfeita. 

Este foi o artifício usado por Luis Carvajal, um segurança uruguaio de 35 anos. Do precário quarto em que vivia na casa dos seus pais, ele utilizou o jogo de combate Garena Free Fire para entrar em contato com centenas de adolescentes do sexo masculino em toda América Latina. Luis usou WhatsApp para assediá-los no privado e ChatGPT para adaptar suas táticas de engano e manipulação, de acordo com o perfil de cada um que identificava como presa. Todas essas plataformas eram consideradas seguras para as famílias.

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Dessa maneira, entre meados de 2024 e os primeiros três meses de 2025, ele assediou cerca de trinta crianças e abusou fisicamente de ao menos 5 delas. Segundo a promotora do caso, Irena Penza, a maioria tinha entre 11 e 15 anos.

O caso, investigado por democraciaAbierta, expõe os limites sociais e judiciais para reconhecer e combater esse tipo de crime, que adquire novas formas paralelamente ao desenvolvimento tecnológico. Também é um exemplo das novas táticas de aliciamento utilizadas por pederastas ao redor do mundo. 

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300 milhões de vítimas de exploração sexual a cada ano

Crimes que seguem o mesmo roteiro — jogos online como isca,  grooming (aliciamento) e o uso da inteligência artificial (IA) como ‘cúmplice’ — estão documentados em países de alta e baixa renda e com diferentes níveis de conectividade, como Peru, Índia, Reino Unido, Estados Unidos e Austrália.   

“Estima-se que 300 milhões de crianças são vítimas de exploração sexual na internet todos os anos”, declarou Lyda Guarín, assessora de proteção para a América Latina da organização de defesa dos direitos da infância Save the Children, à democraciaAbierta.

Uma em cada oito crianças e adolescentes no mundo —  10 por segundo — sofreu aliciamento e assédio, divulgação ou exposição não consentida de imagens ou vídeos sexuais online, de acordo com a primeira estimativa global realizada por pesquisadores universitários para o Childlight Global Child Safety Institute. Na América Latina essa proporção sobe para quase uma em cada cinco crianças e adolescentes.

A culpa não é da internet, mas de adultos que utilizam a rede como território de caça. Enquanto em outra época rondavam parques e os arredores de escolas, hoje fazem isso com ferramentas mais rápidas, mais anônimas e mais difíceis de rastrear, que podem ser utilizadas com identidades falsas, de qualquer lugar do planeta e contra múltiplas vítimas ao mesmo tempo.

“O mundo virtual é um reflexo do mundo real”, disse Lyda. Os abusadores sexuais online não criam novos abusos, apenas exploram vulnerabilidades que já existiam, como a desigualdade, a pobreza, o desamparo, a negligência, a violência e a impunidade.

Por isso, ainda que as estimativas sejam importantes, elas são consideradas conservadoras.

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Aliciamento era realizado no Free Fire

Luis Carvajal, com dois antecedentes criminais por abuso sexual, passou vários meses em 2024 na frente de um laptop em Canelones — o segundo departamento mais populoso do Uruguai fora da capital —, construindo uma fachada digital impecável para camuflar seu verdadeiro propósito.

Cultivou sua imagem como líder de um ‘clã’ de jogadores de Free Fire, o jogo online mais utilizado por abusadores online para aliciar menores de 12 anos no Uruguai. O dado é de um estudo baseado na experiência de profissionais que prestam assistência a vítimas, realizado por Pablo López e Manuela Costa da Faculdade de Psicologia da Universidad de la República (Montevidéu).

Ele seguiu o manual do predador paciente e entrou em contato com centenas de crianças e adolescentes de maneira simultânea, esperando ganhar a confiança de boa parte deles. Uma vez estabelecido o vínculo, convidava suas potenciais vítimas para o grupo de  WhatsApp do clã e solicitava uma selfie como condição para adicioná-las. 

Você não está entendendo do que estou falando quando peço fotos?”, ”você não quer fazer parte do clã?”, “olha que eu posso te dar presentes”, escrevia Luis, segundo a sentença judicial à qual democraciaAbierta teve acesso.

Em seguida, iniciava conversas privadas utilizando diferentes táticas para aprofundar a manipulação. Às vezes usava um nome falso ou um número de celular argentino para se passar por um adulto amigável ou alguém da mesma idade; inclusive chegava a utilizar fotos dos mesmos meninos que havia adicionado ao grupo.

Abusador construiu imagem de influencer de jogos

Enquanto isso, usava o TikTok para consolidar uma imagem de suposto influencer de jogos, acumulando mais de 10.000 seguidores, oferecendo prêmios e organizando encontros presenciais para entregar os supostos presentes aos vencedores.

Luis conseguia fazer com que as crianças compartilhassem sentimentos e experiências muito íntimas, além de informações sensíveis, como o endereço de suas casas ou de suas escolas. Com esses dados ele alimentava o ChatGPT para elaborar uma abordagem personalizada e um tipo de extorsão para cada criança. E sua ‘cúmplice’ IA o orientava.

Diante de adolescentes gays, ele se fazia passar por gay também. Aos que sofriam bullying por causa da aparência física, ele oferecia aceitação. “Que parte do seu corpo você não gosta”, “me mostre”, dizia a eles. Com os mais resistentes, fingia ser um amigo da mesma idade.

Luis passou a fazer parte da vida da família de alguns meninos pobres, construindo uma imagem de confiança diante dos adultos — que inclusive chegavam a pedir dinheiro para pequenas despesas, como um corte de cabelo. Ele seguia este caminho até conseguir se integrar ao cotidiano dessas famílias, segundo uma policial que participou da investigação relatou à democraciaAbierta. Ela pediu para que sua identidade não fosse revelada.

Esse “trabalho de formiguinha”, como descreveu a policial, fez com que alguns dos pais permitissem que seus filhos visitassem sua casa, atraídos por pequenas comodidades que eles não podiam proporcionar, como wifi.

Luis parecia uma pessoa encantadora e querida nos círculos que frequentava, o que não era coincidência. Segundo especialistas, a ferramenta mais poderosa do abusador sexual de crianças e adolescentes não é a tecnologia, mas sim a confiança. Primeiro ele fazia com que as vítimas se sentissem reconhecidas e especiais; depois abusava delas.

Faltam estatísticas no Uruguai e em outros países

Embora existam estimativas, faltam estatísticas precisas. Apenas em 2019 começou a ser coletada, em nível mundial, informação sobre como as tecnologias digitais facilitam esses crimes, através da pesquisa Disrupting Harm. O levantamento foi resultado de um projeto internacional liderado por Safe Online, ECPAT International, INTERPOL e UNICEF, que reúne dados detalhados sobre crimes sofridos por pessoas ou famílias, para além das denúncias policiais.

A pesquisa, que engloba 25 países em todos os continentes, publicou este ano os resultados do Brasil, o primeiro da América Latina a ser divulgado. Os dados apontam que uma em cada cinco crianças de 12 a 17 anos sofreu exploração ou abuso sexual “facilitado pela tecnologia” apenas em 2025. Ao longo do ano, são esperados os resultados da Colômbia, República Dominicana e México.

No Uruguai, não existem pesquisas equivalentes. Mas um cenário preocupante surge quando se analisam os dados disponíveis. Um  em cada três menores de 18 anos do país viveu ao menos um episódio de risco ou dano online no ano anterior, segundo o relatório Kids Online 2022. Apenas a metade denunciou o ocorrido.

O estudo de Pablo e Manuela foi baseado no relato de 15 profissionais que atenderam, nos últimos anos, mais de 2.500 crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual — sem descartar a possibilidade de casos duplicados.  O levantamento mostra que mais da metade dos casos envolveu o uso de tecnologias digitais no aliciamento ou abuso, com o primeiro contato acontecendo online antes de passar aos encontros presenciais.

Isso era o que buscava Luis Carvajal. Em troca de ‘diamantes’ do Free Fire ou recargas de internet móvel, ele conseguiu que mais de 30 menores enviassem fotos de suas genitais e realizassem atos sexuais em chamadas de vídeo. O documento da sentença revela ainda que ele se masturbava e gravava.

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Luis usou um hotel sem levantar suspeitas

Entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, ele cometeu abusos físicos contra ao menos cinco adolescentes uruguaios com os quais se encontrou em um hotel. Luis retornou ao local várias vezes — diante da indiferença da equipe — acompanhado por outros meninos, segundo a promotora do caso.

A equipe do hotel declarou que a conduta dele não levantou suspeitas, de acordo com a promotora Irena. Ele alegava que eram seus filhos ou sobrinhos, e os funcionários sequer registraram seus nomes.

Assim como outras vítimas, Javier*, de 14 anos, foi ao hotel pensando que jogaria Free Fire com parte do clã. Conforme a sentença, dias antes, enquanto o adolescente perguntava ao ChatGPT que roupa usar e o que fazer caso se sentisse atraído por pessoas do mesmo sexo, Luis pedia à mesma IA para criar um jogo erótico com o objetivo de fazê-lo tirar a roupa. Segundo a promotora do caso, o chatbot se recusou, alegando “falta de permissões”.

Ao abrir a porta, Javier, assim como os outros meninos, encontrou comida, refrigerantes e cervejas, uma realidade muito diferente daquela que havia imaginado. “Fui, o cara estava lá, me fez entrar no quarto […] Tomei coca-cola, fiquei com medo de que tivesse alguma coisa”, relatou Javier à psicóloga perita da Promotoria sobre o primeiro encontro. “O cara ligou a televisão e começou a se aproximar de mim, eu sabia qual era a intenção, eu não fiz nada […] fiquei com medo”, disse Javier em seu depoimento.

Javier chorou. Luis deu dinheiro a ele. “Para que você não se sinta mal”, disse. “Para que a gente fique igual”, completou. O adolescente relatou à perita que Luis lhe causava “repúdio e nojo”.

Se Javier — ou outra criança ou adolescente — não aceitava ter novos encontros ou enviar mais fotos ou vídeos, Luis assumia a identidade de um suposto jovem, “Nahuel’, que se dedicava a acalmar a vítima e minimizar o abuso, explicou a promotora.

Eu conheço o cara, ele é uma boa pessoa, esquece o que aconteceu, ele é gente boa”,  escreveu ‘Nahuel’ para Javier via WhatsApp.

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Vítimas eram chantageadas pelo abusador

Se isso não funcionasse, Luis os chantageava ameaçando revelar a situação às famílias, fazer-lhes mal ou divulgar as gravações que tinha. Para assustar Javier, disse que o vigiava na escola. “Se você me deixar com raiva, eu serei mau”, escreveu.

Javier relatou a perito vários encontros posteriores, nos quais também havia outros meninos; alguns deles filmados. Depois de violentá-los, ele oferecia desde um iphone 11 para que pudessem se conectar e jogar Free Fire até, como no caso de Javier, dinheiro — entre 500 e 2.000 pesos (75 a 260 reais).

Javier não teve representante legal durante o processo penal, por isso não foi possível entrar em contato com sua família para esta reportagem.

democraciaAbierta entrou em contato com a Defensoria Pública de Canelones, mas não obteve resposta da representante de Luis Carvajal, Valentina Solari Silvero. A reportagem também enviou perguntas à Garena Free Fire, OpenAI (proprietária do ChatGPT), ao TikTok e à Meta (proprietária do WhatsApp).

Em uma declaração por escrito, um porta-voz do WhatsApp afirmou: “O WhatsApp tem tolerância zero diante da exploração e do abuso infantil, e suspendemos usuários quando identificamos o compartilhamento de conteúdo que explora ou coloca menores em perigo.”

E acrescentou que a criptografia de ponta a ponta é uma das tecnologias mais importantes para manter a segurança de todas as pessoas online, incluindo os jovens. “Ninguém quer que leiamos suas mensagens ou escutemos suas chamadas de vídeo, por isso desenvolvemos medidas de segurança sólidas para prevenir e combater o abuso, mantendo ao mesmo tempo a segurança online.” O porta-voz disse ainda que  os usuários também podem bloquear ou denunciar uma conta individual ou um grupo a qualquer momento. 

Garena, OpenAI e TikTok não responderam às perguntas da reportagem.

Meninos não se reconheciam como vítimas

Eram quase duas da madrugada de 8 de março de 2025 quando o irmão mais novo de Javier disse à mãe que estava com medo porque Javier estava sendo ameaçado por um adulto que tinha um vídeo. A mãe conversou com ele, que, aterrorizado, contou tudo a ela.

Quatro dias depois, a promotora Irena Penza e três equipes policiais entraram na casa de Luis Carvajal. Na mesa de seu computador, viram a foto de um menino de 13 ou 14 anos. Em sua carteira encontraram o documento de identidade de um adolescente de 17 anos. Os peritos também encontraram arquivos ativos e excluídos, além de conversas individuais e em grupo que delineavam, de forma contundente, o perfil de um predador em série.

Entretanto, a investigação não foi muito longe. Javier mencionou outras possíveis vítimas uruguaias e a promotoria conseguiu identificar algumas delas nos materiais encontrados nos dispositivos, mas nenhuma delas quis denunciar. Durante as entrevistas com a equipe da promotoria, muitos meninos não conseguiram se reconhecer como vítimas. Iam acompanhados por seus irmãos ou outros adultos, implorando que seus pais não fossem avisados.

Outros contaram o que aconteceu e receberam reprovações ou tiveram seus relatos desacreditados. O pai de Javier disse: “Você tinha a possibilidade de dizer não; se foi, foi porque quis. Foi sua vontade”, relembrou a promotora.

Esta falta de reconhecimento do crime — das famílias, de potenciais testemunhas como a equipe do hotel e das próprias vítimas — é o terreno em que o abuso prospera. “Há adultos que não enxergam a manipulação e o exercício de poder do abusador, tampouco conseguem entender que isso constitui um crime”, resumiu Irena.

O ambiente digital torna isso ainda mais difuso. Quando uma criança ou adolescente envia uma foto “por iniciativa própria”, ela pode ter suportado semanas de pressão invisível, explicaram os pesquisadores Pablo López e Manuela Costa à democraciaAbierta.

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Faltam ferramentas para rastrear números estrangeiros

Ademais, o Uruguai não dispõe de ferramentas para identificar vítimas contatadas por meio de números estrangeiros. Segundo explicou uma das policiais que trabalhou no caso, a Interpol realizou  os procedimentos correspondentes, mas, até o momento da publicação da reportagem, ainda aguardava uma resposta. 

Por sua vez, a promotora destacou que, no mesmo ano em que trabalhou nesse caso, havia outros 300 casos de violência sexual contra menores se acumulando no seu gabinete, além de cerca de 700 processos de outras áreas.

Luis aguardou durante oito meses numa prisão do interior do país, onde, de acordo com a sentença judicial, abusou sexualmente de seu companheiro de cela diversas vezes. 

Em acordo com a Promotoria, no dia 17 de outubro de 2025, ele se declarou culpado por assédio e manipulação de menores com fins de violência e exploração sexual, abuso sexual, pagamento ou promessa de pagamento a menores de 18 anos e outros crimes. Foi condenado a quase 10 anos de prisão.

No pedido de condenação, a promotora incluiu tanto as vítimas identificadas quanto as anônimas. Mas a dimensão real dos danos causados por Luis Carvajal é desconhecida.

*Nome fictício para proteger a identidade do adolescente
**Esta é uma versão traduzida e editada da reportagem publicada originalmente por democraciaAbierta *** Tradução: Fabiana Diniz

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