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Foto de Carol Bonomi, mulher branca, com tatuagens, cabelos castanhos na altura dos ombros e óculos
19 de maio de 2026

Da ‘academia do estupro’ às pedagogias da violência sexual

O caso revela menos sobre a pornografia em si e mais sobre a forma como consentimento, masculinidade e violência continuam sendo ensinados socialmente

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Ilustração em fundo vermelho mostra uma pessoa correndo em direção a uma grande tecla preta de computador com a palavra “Esc”, simbolizando tentativa de fuga diante da violência sexual digital

A recente investigação sobre a chamada “academia do estupro”, divulgada pela CNN, não revela apenas a existência de comunidades organizadas de violência sexual. Ela escancara algo ainda mais profundo: nossa sociedade continua ensinando determinados homens a compreender sexo como dominação, acesso irrestrito ao corpo feminino e exercício de poder. Segundo a reportagem, grupos de homens utilizavam a plataforma pornográfica Motherless para compartilhar milhares de vídeos de estupro de companheiras, produzindo uma verdadeira rede de circulação, validação e consumo da violência sexual.

Longe de descrever toda a brutalidade desses crimes, quero pensar sobre outra questão: o que esse caso nos revela sobre as concepções de sexo, consentimento e violência na sociedade contemporânea? Porque, diante de episódios como esse, rapidamente reaparece uma explicação simplista e moralizante: a culpa seria da pornografia. Mas essa resposta, além de insuficiente, desvia o olhar de estruturas muito mais profundas.

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Evidente que não foi por acaso que esses conteúdos foram armazenados em uma plataforma pornográfica. Há um imaginário social consolidado que aproxima pornografia e violência, como se todo conteúdo sexual explícito fosse necessariamente degradante ou não consentido. No entanto, essa associação ignora algo fundamental: a diferença entre violência e fantasia negociada.

Diferenciar pornografia e violência é fundamental 

Mesmo práticas pornográficas que encenam coerção, dominação ou situações extremas envolvem acordos prévios, definição de limites, negociação de práticas, autorização de gravação e consentimento para a circulação das imagens. O consentimento não desaparece nesses atos realizados para uma produção comercial. Ao contrário: ele é justamente o que diferencia fantasia de violência.

Talvez uma das maiores dificuldades contemporâneas seja justamente compreender isso. Falamos muito pouco sobre desejo, prazer, corpo, limites, fetiches e sexualidade fora do ideal heterossexual, reprodutivo e considerado moralmente aceitável. Ainda existe enorme dificuldade em discutir sexo para além de valores religiosos, familiares ou médicos que historicamente enquadraram a sexualidade, sobretudo pelo controle dos corpos.

E é exatamente nesse ponto que o debate sobre pornografia costuma se tornar raso. A pornografia não é uma verdade sobre sexo, é uma representação sexual historicamente atravessada por disputas morais, econômicas, tecnológicas e culturais. Como aponta o pesquisador Jorge Leite, a pornografia pode ser entendida como um campo de regulação cultural dos corpos, desejos e práticas sexuais. O que é considerado pornográfico — ou aceitável — nunca foi algo natural, mas uma construção histórica produzida por instituições jurídicas, médicas, religiosas e midiáticas.

Leia mais: Do choque moral à indústria digital: o que a pornografia revela sobre o nosso tempo?

Homens aprendem que sexo é posse, acesso e poder

Por isso, o problema central não é simplesmente a existência da pornografia, mas as pedagogias sociais e sexuais que têm ensinado homens a compreenderem o sexo como posse, acesso e poder. Muito antes da internet, mulheres já eram socializadas para a disponibilidade sexual dentro do casamento e das relações afetivas. Durante séculos, o estupro marital sequer era reconhecido como crime. Dentro do casamento, o sexo era tratado como dever conjugal, obediência e lealdade sexual.

Não por acaso, religiões, códigos jurídicos e convenções sociais ajudaram a consolidar a ideia de que determinadas mulheres valiam mais do que outras, e que a sexualidade feminina poderia definir quem merecia respeito, proteção ou violência. O sexo, muitas vezes, era mais associado ao controle e à punição das mulheres do que ao prazer. Essas ideias não desapareceram, apenas se reorganizaram nas plataformas digitais.

Como a violência sexual vira comunidade e lucro 

A escolha da Motherless como espaço de circulação desses conteúdos revela justamente isso. Não se trata apenas de ausência de fiscalização. Muitas plataformas lucram diretamente com a circulação de conteúdos violentos, explorando modelos econômicos baseados em engajamento, tráfego e permanência de usuários. Essas imagens também são distribuídas em redes de compartilhamento que articulam sites pornográficos, fóruns e aplicativos como Telegram — ambientes digitais pouco regulados. A violência sexual produz audiência, comunidade e lucro.

Esse talvez seja um dos aspectos mais perturbadores do caso: homens violentavam suas companheiras, e ainda gravavam, compartilhavam, comentavam e transformavam essas agressões em capital simbólico e econômico dentro dessas redes. Há uma dimensão coletiva dessa violência que não pode ser ignorada. O estupro deixa de ser um ato individual e passa a funcionar como performance masculina validada socialmente por outros homens.

Durante minha pesquisa de doutorado, acompanhei diferentes universos da produção pornográfica: desde produtoras profissionais até o chamado pornô amador — conteúdos produzidos pelos próprios trabalhadores sexuais, sem mediação de grandes estúdios. 

O pornô amador de plataformas mobiliza fortemente a ideia de “realidade”, como se representasse sexo espontâneo, sem roteiros ou mediações. Mas mesmo o vídeo mais caseiro envolve negociação, antes da gravação existem conversas sobre o que pode ou não ser feito. A fantasia da espontaneidade não elimina os acordos prévios. 

O problema é que casos como o da “academia do estupro” se alimentam justamente da destruição dessa fronteira entre consentimento e violência. O que circula ali não é fantasia sexual negociada, é crime sexual transformado em mercadoria digital. A violência sexual não nasce nas plataformas pornôs. Ela emerge de uma longa história social que ensinou homens a interpretar o desejo feminino como algo secundário, negociável ou dispensável.

Leia mais: Como a cultura red pill e a misoginia no digital alimentam a violência de gênero no Brasil?

O que leva tantos homens a consumir violência sexual? 

Nesse sentido, lembrei imediatamente do documentário “O homem mais odiado da internet”, que conta a história de Hunter Moore, criador de um site que publicava imagens íntimas de mulheres sem consentimento nos anos 2010. Ele ficou milionário monetizando humilhação, vingança e violência sexual. Não porque inventou a misoginia digital, mas porque descobriu como transformá-la em modelo de negócio.

O que choca nesses casos não é apenas a crueldade individual dos envolvidos, mas a dimensão coletiva do consumo dessas imagens. Existe público, circulação, lucro e engajamento algorítmico. E isso nos obriga a fazer perguntas mais difíceis: o que leva tantos homens a terem prazer consumindo violência sexual? Que concepções de masculinidade e sexualidade tornam possível filmar, divulgar e compartilhar estupros de suas companheiras? 

Mesmo que um dia toda pornografia fosse proibida, essas violências não desapareceriam automaticamente. Porque o problema não está apenas nas imagens, mas nas estruturas sociais, afetivas, religiosas, jurídicas e econômicas que continuam produzindo homens que se sentem autorizados a violentar mulheres. E agora também ficam confortáveis para monetizar essa violência em plataformas digitais.

As plataformas não criaram sozinhas a cultura da violência sexual, mas transformaram essa violência em infraestrutura tecnológica, circulação de dados, audiência e lucro. Enquanto o consentimento continuar sendo tratado como detalhe — e não como fundamento da própria sexualidade — seguiremos confundindo violência com sexo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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