Imagine a seguinte situação: meninas dançando em uma escola, ensaiando uma coreografia para uma apresentação escolar, como nas festas juninas. De repente, uma enxurrada de homens adultos passa a observá-las, sexualizar a cena e erotizar os corpos das adolescentes.
Se pensar nessa cena nos causa repulsa (e deveria mesmo), por que o mesmo não acontece quando isso rola nas redes sociais e plataformas de vídeo? Por que parece aceitável que vídeos de crianças e adolescentes acabem sendo transformados em conteúdo sexual?
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Em um momento em que a denúncia feita pelo influenciador Felca sobre a adultização (exposição precoce de crianças a comportamentos, responsabilidades e expectativas que deveriam ser reservadas aos adulto) de crianças em plataformas digitais ganha repercussão nacional, uma análise realizada pela revista AzMina no TikTok mostra um padrão preocupante: mesmo vídeos com a presença de crianças e adolescentes sem tom sexual acabam atraindo perfis com comportamento pedófilo em seus comentários e compartilhamentos.
Durante quatro meses, a AzMina utilizou um perfil novo, criado exclusivamente para esta investigação no TikTok, e pesquisou palavras-chave indicadas pela Childhood Brasil, com expressões e emojis usados por perfis pedófilos nas redes sociais. As publicações encontradas foram organizadas e analisadas para identificar padrões que aparecem não só nelas, mas também em comentários e perfis que interagem.
Algumas buscas, como “CP” (sigla para child pornography, ou pornografia infantil) e “Raulzito” (explicamos a expressão logo abaixo), foram bloqueadas por violarem as diretrizes do TikTok, enquanto muitas outras não apresentavam restrições.
Essa análise mostrou que conteúdos aparentemente inofensivos — de danças, refeições, demonstração de carinho pelos pais, a registros íntimos do cotidiano — tudo pode ser transformado em material para exposição e exploração sexual de menores de forma silenciosa e pouco perceptível na plataforma. O TikTok é um prato cheio para pedófilos, que se aproveitam de conteúdo que mostra crianças e adolescentes sem enfrentar restrições da plataforma.
As trends e a sexualização de menores
Hoje em dia, é comum abrir uma rede social e se deparar com adolescentes gravando trends, seja narrando algum áudio viralizado, reproduzindo uma coreografia ou cumprido desafios. Isso não necessariamente representa um problema, mas, é possível ver uma presença massiva de perfis masculinos nos comentários. Eles deixam emojis de coração e comentam coisas como “até voltaria para a escola” :

A hipersexualização de menores também se manifesta nas sugestões de busca da própria plataforma. Em determinado momento, o TikTok recomendou a pesquisa “marista marcando muito 15y”. O nome é de uma das escolas mais caras do Brasil e “15y” é uma abreviação para a expressão “15 years”, em inglês, usada para se referir a adolescentes de 15 anos.
Após nossas buscas, passou a ser comum encontrar vídeos de alunas uniformizadas circulando na aba For You (de indicações personalizadas) da plataforma e, nos comentários, perfis masculinos erotizando os corpos das adolescentes.
Com as redes sociais, o ambiente escolar — que deveria ser um espaço de proteção e aprendizado — pode se tornar cenário para a objetificação sexual de meninas menores de idade. Na lógica do TikTok, uma vez publicado, qualquer vídeo pode ser baixado e replicado em páginas especializadas em concentrar vídeos de meninas, consumido majoritariamente por homens adultos.

A dinâmica se repete em vídeos de adolescentes em diferentes contextos, como na academia. Em uma publicação do perfil 3VS Nutrition no TikTok, por exemplo, é mostrada a “evolução do shape” de uma menina de 13 anos. Entre os mais de 200 comentários, homens adultos escrevem sobre o corpo da garota com conotação sexual.

Em entrevista para AzMina, João Francisco Coelho, advogado do Eixo Digital do Instituto Alana, explicou que os modelos de negócios de muitas plataformas digitais fomentam o perigo para crianças e adolescentes, e estimulam que menores de idade se exponham cada vez mais e acabem tendo contato com adultos mal intencionados.
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Segundo ele, essas redes funcionam num esquema em que quanto mais curtidas e visualizações um vídeo recebe, maior é o reconhecimento social e retorno financeiro, já que conteúdos no TikTok podem ser monetizados se a pessoa tiver pelo menos 10.000 seguidores ou alcançado 100.000 visualizações nos últimos 30 dias.
“A raiz de vários desses problemas está justamente na arquitetura de muitas dessas plataformas, sobretudo as de redes sociais que são amplamente utilizadas por esse público. Então, a nossa bandeira principal é pela superação desses modelos de negócios exploratórios, esses modelos de negócios baseados no direcionamento de publicidade, na extração de dados pessoais, na extração da atenção, que geram tantos prejuízos para crianças e adolescentes.”
Tendência à adultização começa fora das redes
Karla Julianne, psicóloga e doutora em saúde coletiva, destaca que essa hiperssexualização de crianças nasce fora do ambiente digital. Ela observa que há uma tendência crescente de adultização da infância, especialmente entre meninas, que se manifesta desde as roupas vendidas nas lojas até o aumento da oferta de maquiagem e salões de beleza voltados para crianças. E isso contribui para a normalização de comportamentos e discursos que erotizam corpos infantis.
No ambiente das redes sociais, isso se agrava com a sensação de proximidade que as plataformas promovem, que estimula comentários inapropriados mesmo em perfis de crianças. “As pessoas entram no perfil e comentam como as outras estão lindas e gostosas, mesmo sem ter intimidade. Essas plataformas abriram essa porta, e as pessoas estão entrando”, afirma.
No caso de meninas e meninos menores de idade, esse tipo de interação não é apenas inadequada, ela pode configurar crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, de acordo com a lei nº 8.069/1990. O artigo 241-D tipifica como crime “aliciar, assediar, instigar ou constranger, por qualquer meio de comunicação, criança, com o fim de com ela praticar ato libidinoso”.
Quando até a rotina vira alvo dos pedófilos
Publicar fotos e vídeos de crianças nas redes sociais se tornou um hábito comum entre muitas famílias. Um dos perfis populares nesse formato é o @stherediva, onde Sther, a mãe, mostra o dia a dia com sua filha Diva, hoje com 5 anos de idade e 8 milhões de seguidores no TikTok.
À medida que o perfil ganhou popularidade, os comentários mudaram de tom, muitos vindos de homens adultos, com teor inapropriado. A situação chegou ao ponto de Sther gravar um vídeo, publicado no YouTube há cerca de um ano, relatando o impacto da hipersexualização da filha e sua mudança de postura em relação ao conteúdo que compartilha.
“Faz umas semanas que recebemos comentários como ‘errei, fui Raulzito’ (…) No início eu não sabia o que era isso, depois eu descobri e fiquei muito chateada. Filtrei comentários, mas ainda tem pessoas que comentam esse tipo de coisa”, contou no vídeo.
“Quando eu comecei a gravar, eu confesso que eu não fui uma mãe tão responsável. Hoje em dia, eu tenho uma visão diferente. Eu não posto minha filha de biquíni, de maiô ou com roupas curtas”, completou.
Abusadores transformados em heróis
A expressão “errei, fui Raulzito” é uma referência ao influenciador Raul Gil Jr., conhecido como Raulzito. Ele foi preso em 2021, acusado de abusar sexualmente de menores com quem mantinha contato nas redes sociais. Desde então, o nome dele passou a ser usado por alguns usuários como uma espécie de código, muitas vezes em tom de deboche, para se referir a comportamentos inapropriados em relação a crianças. O termo “Raulzito”, inclusive, é um dos nomes que o TikTok bloqueia em pesquisas, mas, ao mesmo tempo, os conteúdos e comentários relacionados a ele circulam livremente na plataforma.

O influenciador também se tornou uma espécie de ícone entre um grupo de perfis na plataforma. Durante o monitoramento, encontramos muitos edits (como esse) — vídeos curtos e editados — combinando imagens e vídeos de crianças com conteúdos relacionados a Raul. Alguns com a hashtag #raulzitolivre, pedindo a liberdade do influenciador.
Os edits também demonstram admiração por figuras públicas com histórico de violência sexual ou envolvimento sexual com menores de idade.
Em um dos vídeos analisados, após a imagem de Rauzilto aparece o ex-vereador Gabriel Monteiro, preso em 2022 por estupro, que também enfrenta acusações por importunação sexual e por ter filmado relações sexuais com uma adolescente de 15 anos. Também aparecem o ex-jogador de futebol Daniel Alves, que foi condenado por estupro mas teve a sentença suspensa; e Robinho, ex-jogador condenado na Itália por estupro coletivo.
Pais são inocentes?
Em perfis onde a hiperssexualização de crianças fica muito evidente, é possível notar forte reação de usuários da plataforma, que criticam abertamente a forma como as crianças são mostradas nos vídeos e os comentários recebidos. Há inúmeros conteúdos de pessoas comentando o quão absurdo consideram perfis de crianças, além de relatos frequentes de seguidores que dizem denunciar os vídeos ao TikTok, sem sucesso. Segundo esses usuários, a plataforma costuma responder que “o conteúdo não viola as diretrizes da comunidade”.

Especialistas ouvidas pela reportagem acreditam que não se trata apenas de uma questão de desconhecimento ou ingenuidade dos responsáveis. Para Laís Peretto, diretora-executiva da Childhood Brasil, em um contexto como o atual, com fácil acesso à informação, é difícil acreditar que pais e mães exponham suas filhas sem saber dos riscos.
“Infelizmente, eu não consigo confiar na inocência dos pais. Em 2025, principalmente pessoas com mínimo de escolaridade… não há inocência. Há uma busca por engajamento. E sim, expor uma criança a situações vexatórias e humilhantes, dentro de um contexto sexual, é considerado uma violência”, afirma.
Na contramão da superexposição infantil
A comunicadora e criadora de conteúdo Hariana Meinke opta por preservar a imagem do filho nas redes sociais. Com um público de 198 mil seguidores, 65 mil só no TikTok, Hariana compartilha conteúdos sobre a vida e família sem mostrar o rosto da criança. A decisão foi tomada de forma gradual. “Entendi que a escolha da exposição é minha, não dele. Eu escolhi estar na internet e trabalhar com a minha imagem, ele não. Quis dar a ele o direito de escolha”, explica.
Ela também conta que, ao ler sobre como imagens aparentemente inofensivas circulam em redes de pedofilia, sentiu ainda mais certeza de que queria proteger a privacidade dos filhos.
“Minha presença online está diretamente ligada às minhas vivências e à minha vida, seria impossível excluir meus filhos desse contexto, mas é possível fazer com que eles participem sem que a imagem seja explorada, sem que vídeos com seus rostos sejam postados”.
A atriz Jéssica Ellen, de 33 anos, concorda. Em entrevista para AzMina, ela contou que também opta por não expor o filho, hoje com dois anos e meio, nas redes sociais. Essa decisão veio do desejo de garantir a ele o direito de viver uma infância anônima e segura, mas também influenciada por preocupações com a segurança digital. “Vira e mexe a gente tem notícia de adultos se passando por crianças na internet para tentar acessar outras crianças. Isso com certeza é uma preocupação”, diz.
Impactos na saúde mental de meninas e adolescentes
Para Laís Peretto, o ideal é postergar ao máximo o acesso das crianças ao celular e às redes sociais e, quando o uso acontecer, que seja de forma acompanhada, mesmo com todas as limitações, como a falta de tempo e pouco conhecimento sobre tecnologia. Essa é, inclusive, uma recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Entre os principais riscos apontados pelo manual da SBP, estão a exposição à nudez, sexting, sextorsão, abuso sexual e estupro virtual.
Ela também comenta que uma das chaves para entender a gravidade da exposição infantil nas redes é reconhecer que o abuso online não é menos sério que o físico. A Lei nº 12.015, de 7 de agosto de 2009, foi atualizada para incluir formas de violência sexual que acontecem mesmo sem contato físico.
“Até 2009 o estupro só era caracterizado no Código Penal quando existia conjunção carnal, ou seja, penetração. Agora, basta ter uma intencionalidade de agressão sexual, que já é estupro do ponto de vista legal”, explica Laís.
Comentários sexualizados em vídeos de crianças e outras formas de interação violenta podem ser enquadrados no crime, segundo a porta-voz da organização. E isso também tem um preço na saúde mental dos jovens.
Segundo Karla Julianne, o ambiente digital só está replicando as dinâmicas de abuso do mundo offline, e com consequências psicológicas igualmente graves. “Hoje, uma das queixas mais comuns no consultório é a violência sexual online. Crianças passam horas conectadas, e as violências se adaptam a esse meio. Muitas vezes, não há penetração, mas há exposição a conteúdos impróprios, envio de imagens, pedidos de toques…”
É preciso regulamentação das plataformas digitais
É claro que é importante que pais e responsáveis acompanhem e monitorem o que crianças e adolescentes acessam na internet. Mas a ideia de que basta “ficar de olho” ou “monitorar de perto” o que elas consomem online simplifica demais um cenário complexo, na análise de Laís Peretto.
Ela relembra que muitas mães estão sozinhas na criação dos filhos, enfrentam jornadas duplas ou triplas de trabalho e, mesmo quando têm acesso à internet, não foram formadas para lidar com o ambiente digital da mesma forma que seus filhos. Como cobrar dessas mulheres um controle absoluto sobre o que crianças e adolescentes veem, fazem ou publicam online?
“Hoje o que é urgente é a pressão no Legislativo. A autorregulação das plataformas não é suficiente. Precisamos de regulação de verdade”, afirma Laís.
Ela também explica que a Childhood Brasil é uma das organizações que faz pressão pela aprovação do PL 2630/2020, que estabelece diretrizes para a regulação das plataformas digitais no Brasil. A proposta, em tramitação no Congresso Nacional, prevê mais transparência dos algoritmos e medidas de proteção específicas para crianças e adolescentes.
A discussão sobre responsabilização de empresas de tecnologia também tem mobilizado outras instituições da sociedade civil. Em 2022, o Instituto Alana participou do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) que ampliou a responsabilidade das redes sociais pelas publicações dos usuários. A ação também contribuiu para a aprovação do PL 2628/2022, que dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais.
“A nossa nossa intenção não é proteger crianças da internet, mas sim na internet.” João Francisco Coelho, advogado do Eixo Digital do Instituto Alana.
Os dois porta-vozes concordam que o problema vai muito além da responsabilidade individual das famílias. Para eles, o enfrentamento precisa envolver toda a sociedade, principalmente as plataformas e à necessidade de regulação.
Raquel Recuero, pesquisadora em comunicação digital, destaca que o problema não está restrito a uma única rede social. “Acho todas bastante problemáticas sem muita conversa e discussão. Mas o TikTok parece ter muito mais conteúdo problemático recomendado e muito menos restrição e moderação”.
Ela também avalia que, “as plataformas no geral, que oferecem e lucram com a circulação desse tipo de conteúdo [infantil], deveriam ter políticas de moderação transparentes e ágeis e modos de checagem. No entanto, o que vemos é que há pouco interesse, particularmente atualmente.”
Durante a produção desta reportagem, utilizamos um canal exclusivo para parceiros previamente aprovados pelo TikTok –TikTok Safety Enforcement Tool Platform – para reportar conteúdos suspeitos de violação dos direitos de crianças e adolescentes. Ao todo, reportamos 12 casos por esse canal. Destes, 8 resultaram na remoção de perfis ou conteúdos, enquanto em 4 situações o TikTok informou que as postagens denunciadas não violavam suas diretrizes.
Em nota, o TikTok afirmou ter “tolerância zero para conteúdo de abuso e exploração sexual infantil online e compartilhamento de material de abuso sexual infantil”. Segundo a plataforma, “essa é uma violação grave, e assim que identificado, este tipo de conteúdo é imediatamente removido, as contas encerradas e os casos reportados para as autoridades responsáveis e instituições referências no tema”.
A empresa disse ainda que trabalha no “fortalecimento dos sistemas de moderação”, e que parte dos vídeos denunciados já havia sido removida antes da reportagem. Outros foram excluídos após a notificação. Como exemplo de iniciativas, citou a campanha #VozesPelaLiberdade, em parceria com criadores de conteúdo, com o objetivo de combater tráfico, exploração e abuso de menores.
De acordo com relatório o mais recente da plataforma, referente ao primeiro trimestre de 2025, 99% dos vídeos violativos foram removidos de forma proativa, com 94,3% deles retirados do ar em menos de 24 horas.
*Edição: Jane Fernandes, Joana Suarez e Helena Bertho /// Artes: Kath Xapi