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Vamos parar de falar do “trabalho mais difícil do mundo”?

por Tayná Leite
7 de maio de 2019
Gestar, parir, amar: não é só começar, e é função de todo mundo não contribuir para essa lógica opressora

“Amor de mãe” e o próprio “ser mãe” são conceitos construídos, fluidos, mutáveis e nada universais . Foto: Unsplash

Todo ano é a mesma coisa: vai chegando o Dia das Mães e os anúncios, os textões, as “homenagens” se dividem entre discursos românticos sobre como a maternidade é incrível e discursos não tão românticos sobre como a maternidade é o trabalho mais difícil e mal pago do mundo (mas continua sendo o mais incrível).

Parecem ser posicionamentos bem distintos, mas não são. Ambos contribuem de forma perigosa e cruel para a essencialização da mulher e nos impedem de avançar na necessária discussão sobre a democratização do cuidado.

Sobre o primeiro caso não vou gastar linhas, pois já escrevi muito sobre ele aqui na coluna e no meu livro que acaba de ser publicado pela Editora Letramento (aproveita e clica aqui para garantir o seu!). Mas sinto cada vez mais necessidade de ser bastante didática sobre o segundo caso (que recentemente se tornou meu objeto de estudo formal).

Então, vamos lá!

Como exemplo, quero pegar o vídeo “O Trabalho Mais Difícil do Mundo”, que todo santo ano — há sei lá quantos anos — viraliza, entre lágrimas e lencinhos, e ilustra perfeitamente o desserviço de que estou falando. Além de discursos que vemos o tempo inteiro serem feitos por influenciadoras maternas que, a princípio, se propõem a desromantizar a maternidade ou tratar da maternidade compulsória.

Primeiro, o vídeo. Considerado “o vídeo mais lindo do ano”, todo mundo se emociona com ele. Basicamente trata-se de uma campanha desenvolvida pela agência Mullen, de Boston, que entrevistou 24 candidatos que responderam a um anúncio online para um cargo de emprego de Diretor de Operações.

Job description: um trabalho extremamente exigente, sem férias, sem horário para descanso, 24 horas por dia, 7 dias da semana. As exigências para o cargo variam desde que a pessoa tenha capacidade de trabalhar em pé a maior parte do tempo, alta habilidade de negociação até graduação em medicina, finanças e artes culinárias. Ter capacidade de improvisar; não ter horário de almoço; ter paciência ilimitada; capacidade de trabalhar num ambiente caótico, entre outros absurdos.

Leia mais: Talvez eu não seja a melhor mãe do mundo… E tudo bem!

No vídeo todo mundo se emociona, agradece suas mães pelo trabalho, as mães choram, lembram o quanto, de fato, se f*dem todo dia. Os textos que o acompanham defendem que “o trabalho mais importante do mundo é também o mais difícil” ou “o melhor e mais difícil trabalho do mundo” é ser mãe. E voilá: DESSERVIÇO!  

Choramos, nos abraçamos e depois do segundo domingo de maio voltamos à vida real, bem longe de homenagens e, principalmente, de valorização.

“Mãe é capaz de tudo por um filho.”

“É incrível esse amor que nos faz superar qualquer obstáculo.”

“Ser mãe é um processo de devoção.”

“A maternidade é uma bênção.”

“A maternidade é a experiência mais transformadora na vida de uma mulher!”

“Mãe isso”, “mãe aquilo”…

Todas essas frases eu peguei de páginas de influenciadoras maternas (bem influentes, por sinal) que se propõem a pensar a maternidade compulsória, que se autodeclaram feministas e que defendem a desromantização da maternidade. E todas essas frases — e muitas outras — servem para essencializar a mulher, reforçar a maternidade compulsória e romantizá-la.

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Elas podem não perceber — certamente, têm a melhor das intenções —, mas todas as vezes que 1) se generaliza a maternidade; 2) se usam frases que reduzem todas as mulheres mães a um modelo único de sentir e agir; ou 3) colocam o amor materno como algo instintivo e funcionalista se está contribuindo e reforçando a maternidade compulsória e, em última instância, o aprofundamento das desigualdades entre homens e mulheres.

“Amor de mãe” e o próprio “ser mãe” são conceitos construídos, fluidos, mutáveis e nada universais, e você, que está aqui produzindo conteúdo, está (re)produzindo discursos e reforçando a normatividade da maternidade. 

De que mãe você está falando? De que amor? Quem te contou desse amor?

Em 1979, na introdução do livro que organizou com ensaios importantíssimos de antropólogas feministas que travavam debates relevantes sobre o lugar social da mulher e suas várias facetas e consequências, Michelle Rosaldo alerta que “enquanto a mulher for definida universalmente em termos de um papel amplamente maternal e doméstico, seremos responsáveis por sua subordinação universal”.

Em 2019, euzinha, esta que vos fala, escrevi: “Acredito cada vez mais que o amor materno, assim como qualquer outro sentimento humano, tem menos a ver com instinto e mais com os comportamentos e normas sociais, variáveis de acordo com a época e os costumes, e passíveis de ser tanto aprendidos como desaprendidos”.

E disse mais: “O que chamamos de amor materno é apenas um sentimento humano como outro qualquer e, como tal, incerto, frágil e imperfeito. Pode existir ou não, pode aparecer e desaparecer, mostrar-se forte ou frágil, preferir um filho ou ser de todos. Essa desconstrução é importantíssima, pois sempre que naturalizamos algo como instintivo ou normativo do ponto de vista biológico estamos diretamente excluindo, rejeitando e negando a existência de outras possibilidades de ser e sentir, o que historicamente tem justificado as mais variadas violências contra todos os tipos de pessoas.”

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A maternidade compulsória aprisiona mulheres, as expulsa do mercado de trabalho, as mergulha em culpa e as faz permanecer em um ciclo de pobreza muito difícil de ser quebrado.

Toda vez que você generaliza, naturaliza, exalta e glorifica a “paciência”, “abnegação”, “dedicação” ou qualquer outro atributo do “ser mãe”, “o trabalho mais difícil”, dando contornos de heroísmo a um trabalho que deveria ser democratizado e compartilhado socialmente, você está sendo instrumento de uma lógica que coloca a mulher neste lugar de cuidadora, subalterna e, portanto, excluída dos principais espaços de poder e de tomada de decisão públicos.

Que neste Dia das Mães, todas nós que trabalhamos com maternidade, que sonhamos com um mundo mais justo, igualitário e socialmente responsável com todos os grupos historicamente excluídos e vulneráveis (e isso inclui crianças e mães!) possamos ser mais cautelosas com as mensagens que passamos.

Se você é uma mãe influenciadora, não naturalize essas homenagens e esses lugares que exaltam a exploração dos corpos femininos. Problematize, questione e confronte uma lógica de cuidado feminizado sempre!

Gestar, parir, amar: não é só começar, e é função de todo mundo que esteja comprometido com a igualdade e o fim de uma cultura machista e excludente não contribuir para essa lógica que naturaliza aquilo que mais oprime.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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