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Sexo, de novo, sendo colocado debaixo do tapete

por Rebecca Souza
12 de fevereiro de 2020
Ao longo da história abstinência sexual foi vendida como um método de combate à gravidez precoce ou barreira para DSTs, e não funcionou
A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, lançam a Campanha Nacional de Prevenção à Gravidez na Adolescência. Valter Campanato/Agência Brasil

Naamah (ou Nahemah) era uma Deusa cultuada em toda a extensão da Mesopotâmia, Babilônia e no mundo antigo. Ela tinha uma irmã, Lilith (sim, a suposta primeira mulher de Adão). E vou lhe explicar por qual motivo isso é um mito. Ambas eram cultuadas em Templos em que o sexo era visto como uma forma de vivenciar o êxtase dos Deuses. Seus sacerdotes e sacerdotisas eram pessoas altamente estudadas, e sabiam ler e escrever em uma época em que principalmente as mulheres não tinham esse conhecimento.

Quando os primeiros devotos de religiões monoteístas e patriarcais chegaram nessas comunidades, declaram o horror àquelas práticas. Afinal, que Deusas são essas, onde em seus domínios você pode praticar sexo sem um casamento abençoando, unicamente oferecendo moedas ao Templo? E para piorar, não havia barreiras que proibissem homens com homens e mulheres com mulheres. 

Mais pecaminoso ainda era que se um dos ligados ao templo tocasse em você, automaticamente era convidado a se juntar àquela orgia sagrada, mesmo que estivesse ligado em sagrado matrimônio a outra pessoa. Ou seja, o sexo era feito pelo prazer (oferecido às Deusas) e não para concepção. E por falar nela, Heródoto (geógrafo e historiador Grego) disse “eram costumes tão vergonhosos que até a concepção era evitada por aquelas mulheres, inclusive com interrupção de gravidez”.

O monoteísmo venceu, Naahmah se tornou um Demônio feminino da luxúria, Lilith passa a fazer parte de uma história judaico cristã sem sentido (aquela de Adão) e o sexo passa a ser o assunto discutido à socapa, entre risos e medos.

Comecei contando essa história porque para mim sexo nunca foi tabu. Faço parte de uma família que ainda trabalha com Naahmah e assuntos como menstruação, sexo e as várias orientação sexuais eram tão comuns como falar sobre o seu prato predileto. Contudo, uma hora mordemos a maçã e saímos do paraíso (outra metáfora também para o sexo na religião), e fui para o Ensino Médio. E lá descobri que existiam as meninas para “comer ” e para “namorar”.

E interessante que as meninas “para comer” quase sempre eram negras ou pardas, e as “para namorar” eram as meninas brancas. Inclusive eu era a maior vadia! Que já havia transando com quase todos os adultos ao redor (mesmo sendo virgem). O motivo dessa minha fama era por eu ser a única que nas aulas de educação sexual não ficava fazendo piadinha chulas, pois tinha aprendido em casa.

Leia mais: O que é a tal da educação sexual?

Um dia uma das meninas do segundo grupo apareceu grávida, e entre esse aparecer grávida e ter que depois do resguardo levar todo dia sua bebê para a sala de aula, uma verdade se apresentou para mim. Sexo era algo maligno, demoníaco, que devia ser empurrado para baixo do tapete, e a menina que engravida tem que pagar publicamente. 

Fui trabalhar com casamento infantil e gravidez na adolescência. Descobri que o Brasil é o quarto no ranking no mundo e um país onde, em 2014, 28.244 crianças nasceram de meninas entre 10 e 14 anos (segundo dados do Ministério da Saúde e replicado por Jaime Nadal, ex representante do Unfpa no Brasil no seu artigo “O futuro está nas  meninas de 10 anos”). Nós temos um problema mais vergonhoso do que aquele que jogou os Monoteístas diante dos Templos do Naahmah.

Quando discute-se casamento infantil, mesmo entre grupos feministas, o assunto é ligado automaticamente à pedofilia. Só que, no nosso país, esqueça aquela imagem de meninas com aparência de crianças casando com velhos, pois segundo as organizações Promundo e Plan international, no censo de 2010 foram 22.894 meninos (sim, meninos) casados entre 10 e 14 anos e 65.709 meninas da mesma faixa etária. E quando você procura os motivos desses casamentos, um dos primeiros fatores citados é o desejo de controlar a sexualidade ou comportamentos de risco, como vários parceiros sexuais e gravidezes indesejadas.

Leia mais: De cada 10 meninas brasileiras, uma estará casada antes dos 15 e três antes dos 18 anos

Nesse momento, você que mora em um grande centro urbano diz “ah, não, isso é desculpa, casar para transar é coisa do século 19”. Só que não! Estamos falando de comunidades ou cidades pequenas em que vivenciar sua sexualidade pode ser um caminho que vai lhe levar à rejeição pública. Sabe quando vazam nudes e ouvimos relatos de mulheres que têm a vida destruída por isso? É pelo fato de que não estamos falando de sexo. Sabe quando o rapaz que está no reality show vira chacota nacional por ser assexuado? É pelo fato de não estarmos falando sobre sexo.

E aí chegamos ao famigerado plano de abstinência sexual do governo federal. Acredite, não é proibido falar para pessoas sobre abstinência. Muitos por religião, por crença, por opção ou pela falta dela estão em abstinência sexual. O grande caso é que mais uma vez colocamos o sexo como um grande vilão a ser expulso. E sendo sinceros: quem aqui esperou até a maioridade para dar o primeiro beijo? Quem aqui esperou até a maioridade para sentir desejo sexual? Uma hora o seu corpo começa a dar aquela sensação, pois é biológico também. E a maneira como o meio em que você vive lida com isso vai garantir a sua saúde sexual.

E acredite, ao longo da história abstinência sexual foi vendida como um método de combate à gravidez precoce ou barreira para ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), e não funcionou. Quem nunca ouviu histórias de freiras gestantes, padres que tinham filhos, aquela menina que ia da casa para a igreja e apareceu gestante?

Leia mais: Em vez de compartilhar notícias sobre abstinência sexual, indique Sex Education

Nós temos um quadro posto, de adolescentes que cada vez mais cedo praticam sexo (e não um sexo de qualidade, mas sim um de quantidade), e adultos que, em vez de dizer “precisamos falar sobre sexo”, agem igualzinho à minha turma do ensino médio nas aulas de educação sexual.

Segundo os historiadores, existia uma frase escrita nas portas do Templo das Deusas: “toda vez que chegar ao êxtase chame meu nome, e eu o multiplicarei”. E esse é o momento de sabermos se colocamos o sexo no altar dos Deuses ou dos demônios (na maneira cristã de ver) nas nossas vidas.

Algumas referências úteis:

Sobre o sexo sagrado: A árvore do Êxtase, de Dolores Ascroft Nowicki

Casamento infantil: Documentário da Plan International Brasil e da Promundo

Ela vai no meu barco, Brasil, 2018

Girls not brides

O futuro está nas meninas de 10 anos, Museu do Amanhã

 Sobre sexualidade saudável para jovens: Coletivo MangueirasReprolatina.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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