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29 de dezembro de 2020

Seguimos em 2021

Se 2020 foi difícil, que 2021 tenha o aroma da minha cidade quando chove

“Tem shampoo, sabonete e vários outros materiais de higiene que acho que vão ser úteis para mim, para eu me sentir bem comigo mesma. Acho legal esse cuidado que se tem com as mães, além dos bebês”.

Essa são as palavras de Leticia*, 21 anos, ao receber um kit higiene do Unfpa (Fundo de População das Nações Unidas). Leticia está gestante e mora em Santa Cruz do Arari, uma das cidades que compõem a imensa Ilha do Marajó, essa “Barreira das águas”, como dizia Dalcidio Jurandir.

Enquanto escrevo essa coluna, Letícia e mais 600 mulheres irão receber um kit desse do projeto que versa sobre saúde sexual e reprodutiva de mulheres. Nos soa estranho como, em pleno 2020, estes kits, chamados apropriadamente de “Kit dignidade”, sejam doados para incentivar mulheres a fazer pré-natal e terem autoestima.

Leia também: Tá tudo bem se você tem medo. Tá tudo bem se você tem esperança

É estranho que, em pleno 2020, muitas pessoas sabiam mais da eleição dos Estados Unidos que do que acontecia no meu estado vizinho, o Amapá, que sofreu a pior crise de distribuição de energia de que temos notícia na história do País. E afirmo ser a maior, pois me pergunto se isso ocorresse no Rio de Janeiro ou em São Paulo demoraria tanto.

Durante esses anos na coluna, tenho falado sobre o Norte, sobre mulheres e meninas de populações tradicionais e sobre mim, como mulher Romani, Amazônida, vivendo na região tão falada e tão esquecida. Eu falo e agradeço a quem lê, pois nesse ano de uma “longa meia noite” foi na força do meu Norte que criei raízes.

Outro dia em meu Insagram (@templodenahemah) falava sobre Bruxaria Amazônica, e uma pessoa fez um comentário bem interessante. “A gente passa a vida toda ouvindo que a Amazônia é a floresta, e agora aos poucos a gente começa a pensar que a Amazônia é gente”. E somos gente! Grandes e diversos como nossos rios-mares.

E em 2021, eu quero fazer um convite e já deixar uma “buena sorte” como dizemos em meu povo. Conheça nossa história, nosso rosto, nossa voz. Se 2020 foi difícil, que 2021 tenha o aroma da minha cidade quando chove (sim, estamos em pleno inverno amazônico, e enquanto escrevo chove e o rio próximo a mim, ruge).

  • seguimos em 2021
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Que tenhamos a leveza das crianças ribeirinhas que passam a vida enraizadas nessa floresta. Que tenhamos a fé de quem vai ao Ver-o-Peso tomar seus banhos de abrir caminho. Que tenhamos paz de espírito, a mesma que sinto quando me vejo enraizada nessa terra. Que 2021 seja tão feliz como foi a colação do Abc dos alunos da Professora Eliana, que dá aula na Ilha da Várzea, e muda o mundo dessas crianças com o poder da educação. Essa foto que ilustra a minha coluna é a crença e a esperança que guardo para 2021!

Leia também: Sobrevivemos a 2020: radicalmente vivas e navegando em mar aberto

Ps: Desde já agradeço a quem me lê, compartilha e sempre está apoiando essa coluna. Agradeço também a Neto D’Hipolito e à professora Eliana Marques, por ceder as fotos e a história desse Abc, que me emocionou muito.

Ps 2: Convido todo mundo a conhecer o projeto “Saúde das Manas”, na página do Unfpa Brasil, para saber um pouco mais sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres da Ilha do Marajó.

Ps 3: Para aumentar ainda mais nossa esperança neste 2021, quero fazer um convite muito especial. A Plan Internacional é uma parceira na luta contra o casamento infantil e em 2021 vai estar com um projeto lindo de empoderamento de meninas. Conhece meninas (cis ou trans ) de 16 a 24 anos? Mostra o edital para elas e vamos construir as feministas dos próximos anos.

️Confira o edital
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Rebecca Souza é feminista descolonial e mulher de etnia cigana que vive no norte do Brasil. É ativista de direitos humanos e foi eleita “Jovem Mulher Líder” pelas Nações Unidas. Foi do Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres, é sacerdotisa de bruxaria tradicional e nas horas vagas se apresenta como dançarina de dança do ventre.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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