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9 de junho de 2021

O Templo no fim do mundo

Há beleza nos mundos que chegam aos seus fins e, então, são reconstruídos

São quase meio-dia e quinta e sexta são os dias que abro a Tenda de Nahemah (templo de bruxaria romena) para receber as pessoas. Enquanto espero para atender os visitantes do dia, minha mente vaga nos meus compromissos. “Tenho que escrever a coluna das revistas que colaboro”, “tenho que dar uma olhada no grupo de e-mail dos alunos dos cursos”, “daqui a pouco tenho que fazer café porque meu pai vai acordar”. Parece que toda mulher “tem” que alguma coisa em seus muitos momentos de descanso. E quando nós realmente temos descanso?

Penso nos afetos das pessoas que vem ao Templo e isso me leva a meus afetos. Será que vou engrenar com aquela menina do Tinder? E o rapaz que constantemente tenho saído? Somos namorados? E por qual motivo me vejo sorrindo quando abro minhas redes sociais e vejo que tal pessoa curtiu ou comentou meus status?

E então, meus clientes vão chegando. A menina de 17 anos “casada” e que fica grávida a cada vinda do marido caminhoneiro a sua casa. O casal do “bairro rico” que começou a sentir que sua vida sexual está indo ladeira a baixo. O senhor de 60 anos que reclama de dores nas costa e que, somente na semana passada eu descobri, é praticamente escravizado em um curtume, trabalhando 15 horas por dia para receber R$ 40 a diária. A gestante que sempre depois da consulta pré-natal no postinho do bairro vem até aqui, pois minhas “massagens deixam ela e a neném calma”.

O dia passa e com ele chegam os que buscam consolo. Esses vieram junto com a pandemia. Falam de seus filhos, genitores, pessoas que eram amadas e o Covid levou. Chegam com marcas recentes ou não de lágrimas. E, assim como minha mãe, eles também não são números. Para eles sempre digo: “Quem é lembrado não está morto, mas vive em nosso afeto”. Por vezes, acabamos chorando juntos, por nós e por aquilo que o Estado ainda se nega a nos dar.

E tem os dias dos que têm fome… E esses são os dias em que já me levanto pronta para lutar a maior batalha que posso. São pessoas para quem a fome é uma companhia constante. A única canção que eles ouvem é a do “Vamos comer hoje?”. No desespero, eles engolem o medo e o preconceito, talhados de séculos e vem até mim, atrás da “mulher que tem pacto com diabo “, a “estranha”, a “maldita”.

Há dias em que eu queria poder multiplicar a ajuda que damos, pois me parte o coração olhar e dizer: “Infelizmente, as cestas que o Templo fornece acabaram”. Nesses dias me ajoelho diante do altar e peço. Peço às forças Patronas do Templo que seguimos que eu possa ajudar. Mesmo que amanhã essas pessoas que estão aqui virem a cara para mim na rua, criem boatos de que sou uma vampira (é real essa história, e toda vez que a escuto deixo de ser Rebecca e viro mais uma lenda urbana). O Estado não chega aqui, mas nós chegamos.

Leia também: Tá tudo bem se você tem medo. Tá tudo bem se você tem esperança

E meu pensamento volta a ser sobre o que posso escrever para mandar às revistas que colaboro. E lembro que nesse “Fim de Mundo” particular em que vivemos, sou múltipla como muitos e muitas que me acompanham na coluna. Que sou ativista de direitos humanos. Sou professora. Sou uma mulher em afetos, decepções, sexualidade e pequenos pedaços que me constroem como pessoa.

Sou também a mulher que atravessa a ponte, sou que tem uma resposta, um conforto. A que nesses dias incertos vai abrindo um Templo, e nele vemos vários mundos chegarem ao seus fins. Mas, então, outros são reconstruídos. E existe beleza nisso tudo.   

PS 1: No meu povo, dizemos “em boa hora” para tudo que acrescenta algo em nossa vida. E, nessa coluna, quero agradecer e convidar a conhecerem a Pikara Magazine, uma revista feminista da Espanha que “em boa hora” colocou meu nome junto com 100 outras mulheres ciganas que mudaram o mundo com seus ativismo.

PS 2: Como falei, o Templo em tempo de pandemia está ajudando como pode. Quem quiser apoiar e conhecer nosso trabalho, pode ir até o nosso perfil no Instagram: @templodenahemah. A visibilidade já é muito importante, pois vivemos, como sempre falo, “no Norte invisível”.

Rebecca Souza é feminista descolonial e mulher de etnia cigana que vive no norte do Brasil. É ativista de direitos humanos e foi eleita “Jovem Mulher Líder” pelas Nações Unidas. Foi do Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres, é sacerdotisa de bruxaria tradicional e nas horas vagas se apresenta como dançarina de dança do ventre.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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