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20 de outubro de 2021

Satanic Panic: O filme de intolerância sempre perto de você!

O que os ataques religiosos têm a ver com feminismo?
Satanic Panic

Existe um tipo de filme de terror que se repete mais do que aqueles da Sessão da Tarde, na TV Globo. Mudam os atores, os lugares, mas o sentimento de que homens e mulheres possam ser perigosos por suas crenças (ou pelas que imaginamos que eles têm) permanece. 

Satanic Panic [ou Pânico Satânico em livre tradução] é um termo cunhado na década de 70/80 nos EUA para um fervor religioso que nos leva a crer que tudo é o diabo. Um dos exemplos que é a cara (ou o chifre) dessa expressão é conhecido como “Os 3 de West Memphis”, onde 3 jovens foram acusados de serem assassinos de 3 meninos unicamente pelo fato de serem “esquisitos e se vestirem de preto”.

Tá, mas o que isso tem a ver com feminismo? Sabe quando as pessoas julgam o jogador que postou sobre Exu nas Olimpíadas? É Satanic Panic! E quando uma operação policial vira o caso Lázaro? Satanic Panic! E quando em 3 de maio de 2014 tivemos uma mulher morta, linchada, por uma suposta notícia de “roubo de crianças para ritual de magia negra”, foi o caso de Fabiana de Jesus.

Vivemos em uma sociedade que ainda acredita em Deus e Diabo e que mistura isso com política, que tem uma bancada evangélica no Congresso – e ser “terrivelmente evangélico” é um  requisito de confiabilidade na política. Mesmo quem afirma se desprender das “amarras” acaba ainda se firmando nela: quantas vezes você não vê pelo face um post dizendo que “Bruxaria não adora o Diabo”?

E existem vertentes que, sim, adoram o Diabo, pelo simples fato que o Diabo estava no imaginário Europeu como o adversário de uma Igreja que insistia que conhecimento era pecado (e não mudamos nada em relação a isso).

Tá, mas, insisto: o que Satanic Panic tem a ver com feminismo? Jogue no Google e verá que, em um judiciário cada vez mais religioso, muitos casos são considerados “Rituais de Magia Negra”, inclusive com feminicidas simulando ritos para se livrarem do crime maior, que é a misoginia – o ódio contra mulheres. Crianças abusadas e mortas, constantemente são colocadas nessa categoria. Como esquecer o emblemático caso das “Bruxas de Guaratuba”? 

Leia mais: Espiritualidade feminista: de qual Deus estamos falando?

Sabe os ataques religiosos contra terreiros? Nosso Satanic Panic aqui no Brasil está de mãos dadas com o racismo, pois nos acostumamos com Deuses e Deusas brancos, de traços Europeus, e todos aqueles que fogem disso, com certeza são do “Adversário”. 

Mas escrevo essa coluna com indignação ao lembrar que, em setembro, fez um ano que, em uma cidade do interior do meu Estado, Parauapebas, a bancada evangélica criou uma polêmica em torno de um monumento  que representava  o empoderamento feminino, e não tinha nada de satânico, mas foi substituído por outro em 2021.

A escultura em tamanho natural de duas mulheres com vestes longas e cabelos soltos, segurando o símbolo feminista, foi vista como “uma cigana, uma pomba gira, entidade maléfica”. E aí ainda temos o combo do anticiganismo, de não saberem distinguir que uma mulher cigana pode ser até evangélica – no Brasil, a população de etnia Romani, em sua maioria, professa o cristianismo -) ou de entidades cultuadas em ritos afro religiosos.

Nesse mesmo mês de setembro, o prefeito da segunda cidade mais importante do Pará, Ananindeua, achou que era de bom tom expor uma mulher lésbica, negra e afro religiosa em suas redes sociais, após a mesma acompanhar sua namorada para tomar vacina em um posto instalado em uma igreja evangélica. A fotógrafa Nayara Jinkins gravou um vídeo revoltada com o fato de ser obrigada a assistir um culto e sutilmente induzida a dar o dízimo para se vacinar contra a covid. 

Leia mais: Jesus, goiabeira e intolerância religiosa: Argumentação coerente importa!
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Em um momento da gravação de Nayara, publicada em seu perfil do Instagram, a pastora [vereadora da coligação do prefeito Dr. Daniel Santos (MDB)] diz que “Deus quebra toda obra de feitiçaria, macumbaria e satanismo na vida das pessoas”, ao que Nayara retruca: “olha a intolerância religiosa!”, fala um palavrão e diz “eu tô no inferno!” Isso foi o suficiente para a fotógrafa ser atacada, julgada e começar até a procurarem fotos de suas práticas religiosas nas redes sociais dela.

E qual rosto estampará o próximo noticiário como alguém com poderes maléficos? Qual a próxima bruxa a ser queimada nas fogueiras modernas? Quando falamos do Satanic Panic, é um filme que talvez eu ou você possamos ser as próximas protagonistas.

Para saber:

Livro que conta em detalhes o caso dos “3 de West Memphis”

Título: Nó do Diabo

Autor (a): Mara Leveritt

Ano: 2015

Mais sobre Satanic Panic: A sexta temporada do podcast canadense Uncover fala sobre um caso envolvendo relatos de abusos sexuais de crianças durante o período que estavam na creche. Os donos foram acusados de serem de um culto satânico.

E, em uma live no Instagram @templodenahemah, debatemos os casos mais emblemáticos de Satanic Panic e como isso afeta a liberdade religiosa no país.

Rebecca Souza é feminista descolonial e mulher de etnia cigana que vive no norte do Brasil. É ativista de direitos humanos e foi eleita “Jovem Mulher Líder” pelas Nações Unidas. Foi do Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres, é sacerdotisa de bruxaria tradicional e nas horas vagas se apresenta como dançarina de dança do ventre.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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